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11 de maio de 2008 | N° 15598AlertaVoltar para a edição de hoje

Com medo do estresse

Quando em Porto Alegre, Muricy Ramalho sentia saudade da família, que morava em São Paulo. Agora, em casa, sente-se recluso: evita o trânsito e a cidade violenta

De frente para o Parque Marinha do Brasil, com vista para o Rio Guaíba, a um pulinho do Inter no Beira-Rio, Muricy Ramalho queixava-se de saudade da família, então distante em São Paulo. Agora, junto à mulher e três filhos, morando ao lado do Estádio Morumbi, no coração da capital paulista, Muricy padece de outra solidão: vive acuado em casa, recusa convites para sair e evita simples esticada ao supermercado.

Dois títulos nacionais depois, salário estimado em R$ 200 mil, o técnico do São Paulo, clube mais rico do país, se sente aprisionado num apartamento vizinho ao Palácio dos Bandeirantes.

Comprinhas no supermercado, miudezas como aparelho de barbear, sabonete, refrigerante só fazia na época de Porto Alegre. Não está disposto a encarar engarrafamento, aglomeração e violência.

- Saudade dos tempos de Porto Alegre - suspira. - Me divertia com as senhoras idosas no supermercado. Queriam saber se o time ia vencer.

Agora, cedo da manhã, quando não há torcedor na rua que pergunte sobre o time e exija escalação, o técnico se esgueira pelo bairro Morumbi em caminhadas de passadas leves. Desacelera na banca de revista, bisbilhota capas de jornais e segue o passo. Evita azedar o humor com manchetes de futebol àquela hora.

Dia sim, dia não caminha com a mulher, Roseli. Dá uma volta e meia na Praça Vinicius de Moraes, perto do palácio do governo, e retorna rápido porque a maior parte do dia reserva ao trabalho, no CT da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.

Os filhos Fabíola, 25 anos, Muricy Júnior, de 18 anos, têm vida própria. Fabinho, 12 anos, se isola no computador, e o casal quase não sai de casa, por estilo e por segurança. Não há quem os convença a assistir a shows ou pegar um cineminha:

- A gente só come pizza fora. Paulista se diverte assim.

Nem com os convites que lhe chegam em mãos - e são muitos - Muricy se arrisca a enfrentar a noite paulista.

Se quisesse, veria o ídolo Roberto Carlos a cada show do ano. Músicos da banda o convidam. Poderia acomodar-se na primeira fila, visitar camarins, falar com seu astro. Jamais tomou coragem. A culpa, segundo ele, é da timidez ou do trabalho.

Fabíola comemorou o último aniversário com um churrasco em casa, no domingo de 17 de março. Só o pai não apareceu. Muricy estava envolvido com o jogo do São Paulo contra o Guarani, em Campinas. Felicitou por telefone. Quando voltou, não havia mais festa. Outra vez, em 15 anos de técnico em 13 equipes de 10 cidades fora de casa, sentiu-se culpado pela ausência:

- Eu nunca estou em aniversários. O pessoal entende, eu sei, mas isso dói demais.

Dia de jogo do São Paulo no Morumbi é outro drama. Muricy Júnior e Fabinho vão a pé assistir no estádio. Submerso no vestiário, em meio a escalações, estratégias, cuidados com 20 atletas e informações sobre o adversário, o técnico estremece ao pensar que os filhos estão lá fora, na multidão:

- Eles sabem que a torcida xinga o pai deles. Eu aviso: se querem ir ao estádio, não reajam.

Menos mal que Roseli evita futebol. Não vê e nem ouve os jogos do marido. Nervosa, de casa só toma conhecimento de gol do São Paulo quando o Morumbi estoura em comemoração. Se o estádio cai em silêncio, ela sabe, não é bom presságio. De longe, porém, o mais estressado da família é o técnico.

Sabendo disso, aos 52 anos Muricy pensa em parar de trabalhar. Talvez em 10, 15 anos. Não quer acabar como seu mestre, Telê Santana, que ele viu adoecer no São Paulo. Desde então, submete-se a exames de saúde todos os anos.

O colesterol está em ordem. Só ficou acima do tolerado na época que vivia de churrascos em Porto Alegre. A barriga é saliente e faz parte dos seus 85 quilos, quando o peso ideal é de 75 quilos:

- Oitenta quilos está bom. Velho magro demais é feio.

O estresse é seu maior adversário.

- Se não houver controle, dá problema. A pessoa entra em depressão, bebe, fuma, se isola, atinge a família - discursa.

A realidade, no entanto, é outra.

Noite da quinta-feira de 27 de março, por volta das 23h40min o São Paulo finaliza a vitória de 3 a 0 sobre o Sertãozinho, no Morumbi. O técnico aparece para a coletiva de imprensa quase uma hora depois, à 0h21min, já na madrugada de sexta-feira. Jornalistas batem palmas, e os mais antigos fazem graça da situação, com ironia:

- Muricy, os cinegrafistas ainda nem montaram a aparelhagem!

Antes da primeira pergunta, consulta o relógio. Em 18 minutos de entrevista, arqueja, aperta os lábios, passa a mão na testa, volta a olhar o relógio e mostra impaciência, embora não deixe pergunta sem resposta.

Algumas delas ríspidas, aliás. Fica pesado o ambiente da sala de conferência, diante de cerca de 30 profissionais. Muricy parece que vai explodir. Ao final da sua entrevista, é a vez do atacante Borges conceder coletiva. Muricy, porém, permanece ao lado, de pé, olhando o relógio. Deliberadamente pressiona para que liberem rápido seu atacante. São 0h46min. As perguntas não cessam, o técnico puxa a maleta de mão e faz menção de sair da sala.

- Se você não vier vai ficar aí até as 4h - diz para Borges, agora de pé, mas ainda preso a um microfone.

O desconforto e irritação em coletivas vem da época do Beira-Rio. Mas hoje o contato com a imprensa parece mais penoso. Ele só concede coletiva porque é obrigado.

Naquela madrugada, Muricy chegou em casa pouco depois da 1h.

Detalhes do jogo ressonavam em sua cabeça. Com a família e os dois cães de estimação dormindo, recolheu-se ao canto preferido do apartamento. Alojou-se na poltrona na frente da maior televisão de casa e enfrentou com prazer mais dois jogos - seu jeito de relaxar. Só dormiu às 4h.

Cedo do outro dia, em torno das 8h, o ranzinza da noite anterior partiu sozinho para nova caminhada na praça Vinicius de Moraes. Tinha de tratar do estresse.

JONES LOPES DA SILVA | São Paulo
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