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11 de maio de 2008 | N° 15598AlertaVoltar para a edição de hoje

Os desencontros dos Menezes

A mulher de Mano Menezes viaja de Santa Cruz do Sul para São Paulo à procura do marido, técnico do Corinthians. Quando há jogos aos domingos, porém, o casal mal consegue ficar junto

Em fins de semana, sempre que possível Maria Inês vence os 150 quilômetros de Santa Cruz do Sul até Porto Alegre, toma o vôo para São Paulo e se encontra com o marido, Mano Menezes, técnico do Corinthians. Diretora de recursos humanos para todo o continente de uma multinacional exportadora de tabaco, Maria Inês, portanto, não dispõe de muito tempo. Mas nem sempre o casal tira todo o proveito do reencontro.

Jogos aos domingos, o sábado de Mano Menezes se expira por volta das 22h. Ele corre para o Hotel Matsubara, onde o Corinthians se concentra. Em vez da mulher, usufrui a companhia dos jogadores.

Maria Inês, enquanto isto, inicia uma longa espera pelo marido no apartamento do bairro Tatuapé. Sem conhecer São Paulo e sem amigas para visitar ou programar passeio ou jantar, ela fica em casa.

Poderia ir ao shopping Anália Franco, bem próximo dali, mas é pouco provável. Quando Mano sai, as lojas estão fechadas.

- É uma situação chata - confidenciou o técnico, ao receber Zero Hora no final de março, depois de entrevista coletiva diante de quatro dezenas de profissionais da cobertura diária do Parque São Jorge.

No domingo o casal conversa por telefone antes de o técnico se envolver com o jogo. Mano Menezes toma o café no hotel. Maria Inês faz o desjejum no apartamento. Ele almoça com hora certa, entre meio-dia e meia hora. Ela não tem hora. Ou pede serviço de teleentrega ou sai a um restaurante próximo. Talvez no shopping. Ele dá palestra aos jogadores. Ela volta ao apartamento.

No início do jogo, Mano Menezes coloca-se na casamata. Só tem cabeça para o Corinthians e o adversário. No apartamento, Maria Inês acompanha pela televisão ou pelo rádio.

A executiva sempre incentivou a profissão do marido. Conhece futebol, calendário de competições e táticas. Sua mulher é também uma espécie de auxiliar.

Se necessário, ela acompanha o que interessa ao marido e, depois, relata o que viu. Não registra apenas resultados ou fichas técnicas. É capaz de rever determinada partida em busca da informação específica de que Mano necessita. É claro, depende de tempo. Essa ligação com o futebol envolveu Camilla, a filha única.

- Eu e minha mãe íamos com o pai ao interior gaúcho para assistir a jogos no início da carreira dele. Ele observava novatos para as categorias de base - contou Camilla.

O trio se alojava na arquibancada de campos do interior gaúcho ou permanecia dentro do carro, entre as cadeiras que os torcedores carregavam de casa.

- Nunca ouvi uma reclamação da mãe. O pai revia os jogos, ela nunca protestou.

Portanto, com televisão ou rádio, Maria Inês confere olhos e ouvidos apurados ao Corinthians. Mas não esquece: está em São Paulo à procura do marido.

Ao fim de uma partida de domingo à tarde do Corinthians, são quase 20 horas de separação do casal. Por ironia, na mesma cidade. Mano Menezes ainda enfrenta uma arrastada entrevista coletiva e só então parte para o reencontro da mulher.

Enfim sós, na noite de domingo Mano e Maria Inês procuram um restaurante, sempre uma indicação do preparador físico Flávio Trevisan. Com a ajuda do GPS, o técnico se aventura pela cidade da qual mal conhece a Avenida Paulista. Na segunda-feira, cedo da manhã, a executiva toma o vôo a Porto Alegre e retorna ao trabalho em Santa Cruz do Sul, onde ambos nasceram.

Mano retoma a rotina no Parque São Jorge. De prestígio valorizado, salário estimado em R$ 250 mil, enfrenta o mais instável clube brasileiro, tendo aos calcanhares a rumorosa torcida Gaviões da Fiel. Para suportar tamanha máquina de triturar técnicos, a visita da mulher funciona como reposição de forças.

A vida, porém, lhe será mais amena de agora em diante:

- Na Segundona não se joga aos domingos, não é?

Com compromissos pela segunda divisão do Campeonato Brasileiro aos sábados, de agora em diante o fim de semana dos Menezes será mais flexível.

Restará solucionar a distância de Camilla. No início de dezembro, logo depois da troca do Grêmio pelo Corinthians, Mano e a mulher viajaram para a Alemanha atrás da filha. Com mestrado em jornalismo internacional, em Londres, a estudante cumpre estágio na Deutsche Welle, em Bonn.

Pai e mãe hospedaram-se na cidade ao lado, em Colônia. E, assim, no dia 13, aniversário de 24 anos da filha, a família estava reunida. Não se viam havia quase seis meses.

Mano e Maria Inês chegaram no início da noite a um restaurante italiano de Colônia. Envolvida com o trabalho, a aniversariante atrasou-se em uma hora. Do trem que partira de Bonn, ligou preocupada em desperdiçar o raro tempo de encontro dos três - e enfim comemoraram com champanha e vinho.

No outro dia, após o reencontro no café das 8h, Camilla os deixou em seguida. Voltou ao trabalho em Bonn, e os pais saíram a passear pela cidade.

Desde os 18 anos a estudante percorre seu próprio caminho. Já estagiou na Rádio ONU, em Nova York e, pela segunda vez, vive entre a Inglaterra e a Alemanha.

Antes disso, durante o curso de jornalismo na PUC, em Porto Alegre, Camilla morou em apartamento próximo da faculdade.

Quando chegou ao Grêmio, em 2005, o pai a procurou. Acabou hospedando-se com a filha. Após os treinos no Estádio Olímpico, Mano Menezes ligava para saber a que horas Camilla chegaria em casa.

Queria preparar o chimarrão ou esperá-la com um arroz de carreteiro à mesa. Aquele foi o período mais íntimo dos dois.

Camilla só reviu os pais às 19h no outro dia do seu aniversário. Foi assim durante a única semana de férias em que o técnico de futebol e a executiva dispunham para ver a filha.

JONES LOPES DA SILVA | São Paulo
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