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11 de maio de 2008 | N° 15598AlertaVoltar para a edição de hoje

Concentrando com os vizinhos

Clubes não abrem concentração para jornalista, mas, a convite do técnico Cuca, ZH entra na concentração do Botafogo e constata a vida reclusa de um dos técnicos mais caros do país

Três a quatro dias da semana, o técnico Alexi Stival, o Cuca, troca o apartamento de Ipanema por um quarto de 3m por 3m da concentração do Botafogo. No coração da zona sul do Rio de Janeiro, perto da praia, cinemas, teatros, bares, ao lado da casa de espetáculos Canecão e de dois shoppings, um dos mais caros técnicos do país se sujeita a uma vida reclusa com seus comandados em vésperas de jogos.

A suíte exígua da concentração de General Severiano é sua casa. Ao lado, moram os vizinhos Lúcio Flávio, Leandro Guerreiro, Jorge Henrique, Wellington Paulista, enfim, seus jogadores. Com eles, troca idéia sobre futebol, trabalho, família, problemas pessoais, carro, apartamento, novela.

Quase dois anos distante da mulher e das duas filhas, em Curitiba, falando com elas apenas por telefone em raros encontros açodados em dias de folgas, Cuca adotou os jogadores como família.

Assim o técnico compensa a falta da mulher, Rejane, e das filhas, Mariana, de 19 anos, e Natasha, 15, em grande parte de seus 10 anos como técnico em 15 cidades onde trabalhou. Aos 44 anos, rodado pelo Goiás, São Paulo, Grêmio, Flamengo e, agora, Botafogo, deixa escapar uma confissão:

- Encarar solidão não é fácil. Quando se perde, pior ainda. Eu ligo para casa. Mas elas estão apreensivas, dou uma enganadinha.

Para proteger mulher e filhas de suas aflições, ao telefone Cuca se esconde atrás dos vazios "tudo bem" e "futebol é assim", como se concedesse entrevista. Seus grandes amigos já não são os mesmos do tempo em que jogou no Juventude, Grêmio, Inter, Palmeiras e Santos. Restam agora confidentes à mesa de bar e restaurante depois da tensão de uma partida, mas há limite. É embaraçoso expor sentimentos:

- Queria falar com amigos, mas não consigo. Então eu me isolo. Vou pensar sozinho.

Pelos corredores de General Severiano, Cuca espanta a saudade disso e a pressão daquilo. O velho estádio do Botafogo da Avenida Wenceslau Braz, local sagrado de lendários times da estrela solitária, foi transformado num moderno centro de treinamento. O técnico se sente parte disso.

O lugar rescende a história. Já se vão 55 anos quando Garrincha foi descoberto e assinou contrato com o Botafogo. Passou sua primeira noite em General Severiano. Dormiu em um quartinho precário que existia abaixo das arquibancadas do estádio.

Agora tudo mudou. Desde a chegada em maio de 2006, além de títulos, o projeto pessoal de Cuca tem sido essa nova casa.

Assim, o anfitrião abriu suas portas para Zero Hora.

- Você já conhece aqui? - disse ele, mais um convite do que interrogação.

Como um morador ávido por exibir as obras em seu prédio, no dia 28 de março o cidadão Stival revelou como vive em General Severiano.

Concentrações costumam ser invioláveis. São restritas a atletas, poucos funcionários e alguns dirigentes. Mas, agora, essa lei máxima dos clubes está sendo quebrada.

Das instalações internas e do gramado de treino é possível namorar o Morro da Urca e o vai-e-vem do bondinho.

A visão é paradisíaca.

- Olha lá em cima - apontou, do gramado, para o pico da montanha - É uma pena, você não vê o bondinho, a nuvem encobre tudo.

Pelos corredores em preto-e-branco do centro de treinamento João Saldanha há pouca semelhança com o estádio onde um dia brilharam Garrincha, Nilton Santos e Didi.

O dono da casa apresentou as alas de fisioterapia, musculação e o vestiário, com fotos dos atletas quase em tamanho real nos escaninhos de cada um. Passava do meio-dia, alguns jogadores almoçavam e outros passavam o tempo na mesa de bilhar, a um canto do refeitório. Na televisão, programa de esporte. No bufê, muita salada, carne e lasanha. A presença do repórter os constrange. Mas Cuca faz graça e alivia o ambiente. A visita continua.

O prédio é em dois lances com parede e piso cerâmico em branco, que lhe conferem ar de novo e aconchegante. É cortado por um labirinto de acessos que levam aos apartamentos dos jogadores.

- O Leandro Guerreiro você conhece, não é? - apresentou seu volante, na porta do Maracanã, como chamam o maior alojamento da concentração, com seis a sete camas.

Ao lado do Maracanã, a suíte do técnico, um profissional com salário perto dos três dígitos, é de uma simplicidade franciscana, embora acolhedora.

Ele dorme na parte alta de um beliche de madeira, sob o desenho da estrela solitária do Botafogo no lençol em preto e branco. Na mesma altura, sobre uma prateleira de madeira ao pé da cama, a televisão de 14 polegadas. A parte de baixo serve de cômoda para roupas, sacolas esportivas e outros pertences.

- Não repare a baderna, ainda não arrumei o quarto - desculpou-se.

Na parede contrária à do beliche, um armário ao mesmo tempo deck para a televisão de 33 polegadas, tela plana. É o aparelho apropriado para os dois ou três jogos diários a que assiste. Abaixo, o joystick das horas de diversões com o videogame Nascar, de automobilismo - os de futebol ele evita.

Ao pé do beliche, uma segunda cama, perto do ar-condicionado e da única janela do ambiente. Que dá providencialmente para o gramado de treinos e para o Morro da Urca e o bondinho, ao fundo:

- Tenho tudo que preciso aqui. É a minha casa.

Não é bem assim. Se não conquistar título este ano, garante, ele mesmo pedirá demissão do Botafogo e do bondinho.

Recentemente o técnico conseguiu que Rejane se mudasse para o Rio. Prevendo isso, trocou Copacabana por Ipanema.

Mas não sabia se as filhas Mariana, que faz faculdade, e Natasha, com namorado, também se juntariam à família no Rio. Por ele, teria as meninas por perto e, como nos tempos em que jogava no Grêmio, levava para casa doces da padaria.

Definitivamente, Cuca está à procura de paz. Quer parar de ligar a Curitiba para investigar a que horas as filhas chegaram em casa.

( jones.silva@zerohora.com.br )

JONES LOPES DA SILVA | Rio
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