Confira os profissionais que assinam os projetos desta edição do caderno Casa&Cia
Material curinga está presente em áreas da Mostra Casa&Cia Praia
Esse é o relato de uma execução. Tudo se passa a 20 metros da ONG Movimento Escola da Vida, na Vila Cruzeiro. São 14h10min. A presidente da ONG, Andréa La Porta Moraes, e a coordenadora, Marisane da Silva de Oliveira, vigiam duas crianças que estudam no pátio da entrada.
Ouve-se um tiro. Depois outro e mais outro. As crianças fogem para dentro, onde estão as outras. Silêncio. E mais três ou quatro tiros.
m rapaz de boné, camisa azul e bermuda amarela sobe a Rua Cruzeiro em disparada para o Sul, em direção à vila Pedreira. Alguém grita:
– Tem dois caídos na esquina.
Andréa e Marisane não viram, mas quem estava por perto viu bem. O rapaz de boné descera a rua, apressado, com uma arma na mão. Na esquina da Cruzeiro com a Rua Dona Cristina, dois homens caminham no mesmo sentido. São surpreendidos pelas costas. O rapaz aproxima-se, tira a arma da cintura, aponta para a nuca do mais velho e dispara. Depois, outro tiro na cabeça do que
está ao lado. Os dois tombam. O rapaz volta-se
como se fosse fugir, pára e dispara de novo nos homens caídos. No meio da quadra, três comparsas o esperam. Desaparecem a pé enquanto testemunhas buscam refúgio.
A cena que você vê na capa de Zero Hora foi captada pela repórter fotográfica Adriana Franciosi no momento em que o atirador iniciava a fuga. A reportagem de ZH recém havia chegado à ONG Movimento Escola da Vida para entrevistar Andréa e Marisane sobre a entidade que acolhe 81 crianças, muitas delas filhos de envolvidos em crimes. Os tiros interromperam a reportagem.
Na esquina, um homem está morto. Alvise Makoski, 53 anos. O outro, Jonatan Makoski, 18 anos, agoniza. Moradores se aproximam. Mulheres gritam:
– Ambulância, ambulância, pelo amor de Deus.
Jonatan é sobrinho de Alvise. Tem um tiro na nuca, sangra, urra, revira os olhos. Não consegue falar. Alguém diz:
– Te agüenta, guri.
O rapaz tenta se erguer e consegue se sentar. Um
mulher se aproxima e implora:
– Te senta, te senta.
O rapaz
tomba na rua. Uma moça chega gritando:
– É meu pai, é meu pai.
É Rosemaria, filha de Alvise. Trabalha no mercado König, a uma quadra dali. Aglomeram-se ao redor dos dois homens, socorrem Rosemaria. Alvise está de sapatos, calça azul, camisa branca. Na mão esquerda, um isqueiro verde. A filha diz que ele estava arrumado para ir ao Postão do SUS na Cruzeiro para tirar a pressão. A filha nota que a capinha de couro do celular, na cintura do pai, está vazia:
– Levaram o celular dele.
Chega mais um filho de Alvise. É Marcos, 26 anos. Tenta se aproximar do pai e é impedido por um policial militar. A ambulância não chega. Jonatan, de tênis, jeans e uma camiseta preta, se debate, resiste. Outro filho de Alvise se aproxima chorando. É Alvise Júnior. Conta que o pai tinha um barzinho. O barzinho se chamava Bar do Júnior, por causa do filho. Morava na Rua Guerreiro, 260, na Pedreira, bem perto dali. Júnior diz que Jonatan chegou de Erechim no
sábado à procura de emprego de auxiliar de
pedreiro. Estava parando na casa de uma tia, na Cruzeiro. Adão José do Rosário, vizinho e amigo de Alvise, repete:
– É uma tragédia. O mundo atual é todo assim, não é só na Cruzeiro.
Às 14h20min, policiais militares socorrem Jonatan. A ambulância encosta na esquina cinco minutos depois. Uma moça põe uma máscara de oxigênio no rapaz. Jonatan é levado para a ambulância.
Sabe-se, pelos comentários, que Alvise tinha cinco filhos e era um homem de bem. Que Jonatan nasceu ali por perto e se mudou depois para Erechim. Rodrigo, 29 anos, sobrinho de Alvise chora:
– Era um cara que não incomodava ninguém. Eu fui criado por ele.
Alex Silva, outro vizinho de Alvise, diz:
– Ele gostava de um baile.
PM diz que a guerra do tráfico pode ter matado inocente
A ambulância continua parada com Jonatan dentro. A aglomeração dissemina a interrogação:
por que mataram Alvise e feriram o sobrinho que há muitos anos não morava ali? O capitão da BM Julio Cesar
de Ávila Peres circula ao redor do cadáver e admite: tiro na cabeça, pelas costas, tem as características de execução, de vingança. O sargento Mário Bandeira, que policia a região há três décadas, levanta uma suspeita. A guerra do tráfico atingiu os homens errados:
– Ele (Jonatan) é novo aqui e caminhava em um trecho que é fronteira entre gangues de traficantes.
Mas por que alguém mataria o ex-pedreiro e bolicheiro Alvise, morador há 30 anos da Pedreira, conhecido na vizinha Cruzeiro? Alvise foi o primeiro a ser acertado. Ele e Jonatan não teriam registros de passagens pela polícia.
Perguntavam a Marcos, o filho do bolicheiro, o que teria acontecido e ele respondia:
– Não sei, não sei.
Marcos sentava-se na calçada perto do corpo, consolava a irmã Rosemaria e se mostrava constrangido com a exposição do corpo do pai. Quando a ambulância sai para o Pronto Socorro com Jonatan, o rapaz recomenda a
alguém:
– Busca um lençol lá em casa.
Trazem o lençol, que Marcos
abre sobre o corpo do pai, mas é interrompido por um perito:
– Não, não, não cobre.
O filho larga o pano sobre a calçada e murmura:
– Queria ver se fosse o teu pai.
Uma proteção de plástico é colocada sobre o corpo de Alvise.
Até a 0h de hoje, Jonatan continuava internado em estado grave no Hospital de Pronto Socorro. Ontem mesmo, o delegado Rodrigo Bozzetto, adjunto da Delegacia de Homicídios, ouviu moradores da Cruzeiro, na tentativa de identificar o atirador pela fotografia de ZH. Ninguém reconheceu o rapaz que aterrorizou a ONG Escola da Vida, criada há 25 anos pela educadora Denise Micelli da Silva para ajudar a salvar crianças da redondeza.
(moises.mendes@zerohora.com.br)
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