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08 de abril de 2008 | N° 15565AlertaVoltar para a edição de hoje

"O crescimento do Brasil é medíocre"

Entrevista José Luis Cordeiro, consultor venezuelano

Depois de passar os últimos seis anos trabalhando fora da Venezuela, o economista José Luis Cordeiro deixou definitivamente seu país natal há um ano. Mas permanece próximo dos problemas dos latinos-americanos. No seu atual endereço, no Japão, presta consultoria a uma instituição dedicada a promover o desenvolvimentos das maiores economias emergentes. Por isso, é inevitável comparar o desempenho econômico de países como Brasil aos da Ásia.

Sua conclusão difere do tom elogioso das recentes menções ao Brasil no Exterior. Hoje, no Fórum da Liberdade, Cordeiro abordará os desafios a serem enfrentados para melhorar a competitividade verde-amarela. Algumas de suas análises estão na entrevista ao lado.

Zero Hora – O Brasil está com imagem invejável no Exterior e, internamente, o governo tem altos índices de popularidade. O que falta para o país ser mais competitivo?

José Luis Cordeiro –
Sobre esse consenso otimista em relação ao Brasil, tenho a dizer que o crescimento do país é medíocre. Os países da Ásia avançam 10%, 11% ao ano. Se o Brasil cresce 5% ou 6%, é um desempenho medíocre. Para realmente crescer, tem de igualar as taxas asiáticas. O mundo está correndo. Então, é preciso correr tanto quanto os outros. Correr só um pouquinho não é suficiente.

ZH – O Brasil precisa ter condições de sustentar o crescimento. Com 5% ao ano, enfrenta diversos gargalos de infra-estrutura. Não é melhor ir passo a passo?

Cordeiro –
Não, é possível caminhar rapidamente. Se faltar energia, vamos investir no setor. Se faltar rodovia, trate de construir novas. É necessário permitir que o setor privado trabalhe. A China, por exemplo, de comunista restou-lhe apenas o nome. Hoje, é um país capitalista. E, muito importante, os chineses têm grandes expectativas. Os latino-americanos têm expectativas medíocres. Estamos muito contentes com um crescimento de 5% ao ano.

ZH – O que os asiáticos podem ensinar ao Brasil?

Cordeiro –
Aumentar os níveis educativos. No Brasil e na América Latina, metade das pessoas não terminam o ensino básico. Como o Brasil vai competir com China, Coréia do Sul e Japão, países em que 100% da população têm educação primária e 90% o ensino secundário?

ZH – A educação está sempre presente nos discursos dos políticos, sem muitos progressos. O que realmente precisa ser feito?

Cordeiro –
Só falam. Lá, falam e fazem. É preciso investir em educação, principalmente no nível básico.

ZH – Essa é tarefa do Estado?

Cordeiro –
Sim. Pode ser educação pública ou privada. O importante é que todas as crianças tenham acesso à educação. Sem isso, não há desenvolvimento.

ZH – O que mais?

Cordeiro –
Estar aberto ao mundo. Dessa maneira, há acesso às novas idéias, à informação sobre o que está ocorrendo em outros países, pode-se comprar e vender. O mercado hoje é o mundo inteiro. Neste aspecto, o Brasil está melhorando. Agora, é preciso lembrar que as exportações chineses vêm crescendo 20% ao ano. Então, o Brasil não tem de crescer 10%. O governo deve permitir que o setor privado produza. Já o governo tem de cuidar de educação e saúde. Essa epidemia de dengue no Rio é simplesmente impensável num mundo civilizado. Por outro lado, a Petrobras deveria ser totalmente privatizada. Não há porque haver participação estatal.

ZH – Qual a sua avaliação sobre a Venezuela?

Cordeiro –
Terrível. Por isso não estou lá. O país tem muito dinheiro, e a pobreza está aumentando. Com o barril de petróleo a US$ 100, a Venezuela está pior do que antes. Até a Petrobras abandonou projetos lá. A presença do Estado torna os investimentos pouco rentáveis.

LÚCIA RITZEL
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