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02 de março de 2008 | N° 15527AlertaVoltar para a edição de hoje

Monstrinhos de estimação

Rola na Europa, rola nos Estados Unidos e agora desembarca com força no Sul. A toy art está nas ruas

É brinquedo, mas não é para brincar. É boneco, mas não é para criança. Tem rosa, tem azul, mas não tem gênero. Parece distração, mas é assunto de gente grande.

O nome é toy art. São bonecos ou criaturas que estão seduzindo adultos e ganhando mais adeptos entre aqueles que se deixam levar pelo colorido, pelas formas inusitadas, por uma certa nostalgia do tempo de criança ou por pura admiração pelo trabalho dos designers.

Precisar quando a toy art começou não é fácil, existem muitas versões. A mais propagada é a de que surgiu no Japão, no período do pós-guerra, a partir dos personagens de cartoons. Nos anos 90, dois designers de roupas chineses participaram de uma feira de brinquedos e transformaram os bonecos, trocando a cabeça e os pés e vestindo-os com peças contemporâneas. Virou febre, correu o planeta, se espraiou pelos Estados Unidos e foi definitivamente adotado na Califórnia, sede da maior feira do mundo.

No Brasil, a toy art chegou repaginada. É mais artesanal, investe no que os designers locais, até por uma questão de custo, têm de melhor: habilidade no trabalho manual e criatividade na escolha dos materiais. No Rio Grande do Sul, a mania vive hoje o seu boom.

As amigas Tati Suarez e Gabriela Mendonça entraram na onda do toy art atraídas pela idéia de tecer criaturas, incrementando os brinquedos infantis. Originalmente pensaram nas filhas, cujos apelidos deram nome à grife Muppa&Cuty, criada há seis meses.

- São brinquedos de uma estética diferente. Geralmente não são bonitos, mas são divertidos, coloridos e com uma cara moderna - tenta definir Tati.

A dupla cria junta, mas Tati planeja os toys na tela do computador, enquanto Gabriela usa o método que chama de "tesourinha".

- Vou montando conforme os materiais que tenho em casa.

As criaturas da Muppa & Cuty, idealizadas para crianças, hoje são consumidas por adultos. Numa das feiras de que elas participaram, um senhor se aproximou e com cara de quem não estava entendendo muito aquele mundo de brinquedos para gente grande quis se inteirar da novidade. Comprou um e 20 minutos depois voltou para o estande em busca do segundo.

- É que nem aquela máxima que se diz de cachorros. Não é a gente que escolhe o toy, é o toy que escolhe a gente - diverte-se Daniele Almeida, 26 anos, consumidora de toy art.

Ela tem dois bonecos em casa, mas já nem lembra quantos outros comprou para dar de presente às amigas.

Outra grife gaúcha que está se estabelecendo no mercado é a Alma Gorda. Alessandra Lago era publicitária, mas abandonou a profissão e, antes de decidir o que gostaria de fazer, comprou uma máquina de costura. Largou fazendo bolsas para ela, para as amigas e, em seguida, por encomenda. Em comum, todas carregavam um boneco como adereço.

- Me fascina a idéia de ser uma criação livre. Quanto mais bizarro, inusitado, melhor é o toy - diz Alessandra.

Quem tem um dos seus produtos, para colocar na sala de casa, no quarto, na prateleira ou na mesa de trabalho, quer algo particular. Para ela, é o caráter único de cada boneco que chama a atenção das pessoas.

- A moda é ter coisas exclusivas, personalizadas.

Alessandra já levou o modismo ao extremo e produziu até um toy sob encomenda para uma pessoa que queria presentear a amiga que acabara de colocar uma prótese de silicone nos seios.

Quando se fala em toy art no Brasil, a loja Plastik é referência. Localizada nos Jardins, em São Paulo, vende toys importados, que são o desejo de consumo de colecionadores dispostos a desembolsar desde R$ 20 até R$ 2,3 mil por peça. Atendendo à demanda, a loja focou seu mix de produtos, 500 toys, nos importados. Nas prateleiras, são toys de vinil, de plástico, protótipos que podem ser customizados pelo proprietário e edições limitadas. As séries de brinquedos são uma das curtições desse público. Designers reconhecidos internacionalmente como o inglês James Jarvis assinam coleções que movem colecionadores. Uma dessas peças-referência é o Smoking Bunny, de Frank Kozik, um coelho politicamente incorreto que aparece fumando ou com uma coleção de metralhadoras.

Nessas séries, segundo os criadores, estaria outra característica marcante da toy art: a crítica aos padrões sociais atuais. Os especialistas ainda gostam de relacionar a toy art à pop art, principalmente pelo paralelo que existe entre as produções em série.

- A toy art é, na minha opinião, arte. Se você visse o trabalho, o cuidado que é a produção e a criação de cada peça... Os designers começam criando um personagem no papel antes de partir para a produção. É um trabalho absurdo - explica Claudia Tannous, assessora da Plastik.

As variações de toy art parecem não ter limites. As meninas da Muppa&Cuty começaram a confeccionar roupas que vêm com o seu próprio toy de amuleto. A Alma Gorda já pensa em produzir livros e postais com as peças. Existe até um movimento pela "democratização" da toy art. São os toys feitos de papel que o próprio consumidor monta.

Para quem essas criaturas dizem alguma coisa, o certo é que, quanto mais personalizado e quanto mais bizarro, melhor.

FERNANDA ZAFFARI
Badulaque
Dot Dot Dash é um manual completo sobre toys. São centenas de modelos fotografados pelo mundo todo e devidamente acompanhados de textos teóricos desvendando os significados.
A internet é grande responsável pela disseminação da toy art por meio de sites como estes:
www.garybaseman.com
www.tokidoki.it
www.jeremyville.com
Esse é o Dunny, um dos famosos toys à venda na Plastik, em São Paulo. Eles acabam de lançar a venda online www.plastiksp.com.br

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