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É difícil imaginar o maior assassino de todos os tempos sambando. Ainda mais em um carro alegórico cheio de bonecos imitando cadáveres. A escola de samba Unidos do Viradouro escalou um de seus integrantes para desfilar no carnaval carioca fantasiado de Adolf Hitler. A idéia é questionável do ponto de vista estético, mas não tem nada de desrespeitosa.
No filme O Grande Ditador, de 1940, Charlie Chaplin fez uma caricatura de Hitler bailando com um globo de plástico que representava a Terra. Em 1997, Roberto Benigni provocou gargalhadas ao filmar a comovente história da relação entre um pai e seu filho em um campo de concentração nazista. A linguagem de um carnavalesco é outra, mas deve ser igualmente respeitada, porque também é arte.
É verdade que faltou o mínimo de sensibilidade política à escola de samba, que se negou a atender um pedido da Federação Israelita do Rio de Janeiro. A simples colocação de uma faixa com os dizeres "Holocausto nunca mais" no carro
alegórico teria resolvido o
problema. Apesar disso, ao lembrar o assassinato de 6 milhões de judeus, a Viradouro estaria, do seu jeito, ajudando a impedir que este tipo de crime se repita. A receita preventiva é conhecida. Só existe uma vacina de eficácia comprovada: a memória.
Por isso, é equivocada a posição dos que trabalharam para impedir o carro alegórico de entrar na avenida. Aproveitando o nome do próprio enredo da Viradouro, "É de arrepiar".
Ao ler a primeira notícia sobre o Hitler sambista do carnaval do Rio de Janeiro, me transportei a uma tarde fria de novembro de 1986, na Europa. Foi a primeira vez que entrei no campo de concentração de Dachau, no sul da Alemanha. Cruzei o portão de ferro escuro ao lado do meu avô, que havia sido prisioneiro ali na década de 30. Erwin Benheim, então com 81 anos, voltava para percorrer ao meu lado os pavilhões e os corredores da sua juventude .
Meu avô morreu há mais de 15 anos, depois de refazer a vida no Brasil, país onde
construiu sua família e no qual
reencontrou a liberdade. No dia da visita a Dachau ao lado dele, aprendi uma lição: a maior ofensa aos milhões de mortos na Segunda Guerra, sejam eles judeus, ciganos, gays ou portadores de deficiência, é o esquecimento. A memória pode estar em silêncio ou desfilar ao som dos tamborins. Pode estar no cinema, no teatro ou no Carnaval. Pode ser européia ou genuinamente brasileira. Tanto faz. Não é o carro da Viradouro, mas o esquecimento que deve ser combatido.
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