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01 de fevereiro de 2008 | N° 15497AlertaVoltar para a edição de hoje

  • Hitler seria demais

    A tolerância da Federação Israelita do Rio de Janeiro acabou. A notícia de que um destaque desfilaria fantasiado de Adolf Hitler fez o presidente Sérgio Niskier buscar na Justiça a proibição da apresentação do carro alegórico Holocausto e de alguém vestido como o líder nazista na Unidos da Viradouro. Seria Corintho Rodrigues o intérprete. Empresário, Corintho é antigo integrante da escola e costuma desfilar como destaque. Nem ele estava de acordo com a proposta do carnavalesco Paulo Barros. Protestou:

    - Desfilo na Viradouro há muitos anos, mas agora estou fora, não participo. Vou procurar o Paulo para que ele me explique por que meu nome está no roteiro.

    A direção da escola poderia tentar reverter a decisão judicial ou optar por pagar o preço. A liminar estabelece multa de R$ 200 mil pelo carro e R$ 50 mil pela presença de algum ator representando Hitler. Outra saída seria cobrir o carro e o ditador com lona preta, como fez Joãosinho Trinta com o Cristo Redentor em 1989.

    Em vez disso, decidiu desmontar o carro e preparar uma nova alegoria. Paulo Barros, carnavalesco da Viradouro e epicentro da polêmica, diz que "a temática de extermínio será mantida, mas desta vez será o extermínio da criatividade".

    Segundo Barros, não havia intenção de ferir ou ofender. Ele justificou o enredo em documentos oficiais da Liga Independente na publicação Abre-Alas, que serve de base de trabalho aos jurados e aos jornalistas.

    No texto assinado por Barros está dito que "nem mesmo o Carnaval pode atenuar a lembrança dos efeitos devastadores das guerras e a desolação provocada pelos extermínios em massa. É um calafrio de horror que agora percorre a Sapucaí. A alegoria traz imagens chocantes de um dos mais bárbaros e trágicos acontecimentos da história, o Holocausto. Imagens que não deixam a humanidade esquecer os perigos da intolerância e do desrespeito à diversidade. E que a Viradouro mostra em nome da paz e da liberdade".

  • Carnaval sem polêmica não é carnaval

    1989

    Com o enredo Ratos e Urubus, Larguem minha Fantasia, Joãosinho Trinta quis mostrar um Cristo Redentor Mendigo no desfile da Beija-Flor. Impedido pela Justiça por iniciativa do arcebispo dom Eugênio Sales, o carnavalesco solucionou o impasse com ousadia: cobriu a imagem com lona preta e levou para a avenida o Cristo com uma faixa em que se lia a frase "Mesmo proibido olhai por nós!". A Beija-Flor levou o segundo lugar.

    O Cristo proibido de 89 será lembrado pela Viradouro, não apenas pela censura de agora a seu carro Holocausto. O enredo É de arrepiar lembra outros desfiles antológicos, que arrepiaram a platéia. A letra do samba é clara na referência:

    Peguei um Ita no Norte
    Gostei, tive sorte
    E kizombei
    Mesmo proibido,
    Desfilei


    São lembranças do Salgueiro de 93, da Viradouro de 92, da Vila Isabel de 88 e da Beija-Flor de 89. O caso de agora é o enredo dentro do enredo, para ficar na memória como os demais.

  • 2004

    Em 2004, o cardeal dom Eusébio Scheid exigiu a retirada de imagens religiosas da Grande Rio, criadas por Joãosinho Trinta. A Justiça também proibiu imagens representando atos sexuais (foto), que desfilaram cobertas. A Grande Rio amargou o décimo lugar. Após o desfile, o carnavalesco foi demitido pela diretoria da escola, que alegou não ter aprovado a interpretação do enredo.

  • 2006

    A Leandro de Itaquera desfilou em São Paulo com bonecos representando José Serra e Geraldo Alckmin, então possíveis candidatos do PSDB à Presidência da República. A bancada petista na Câmara dos Vereadores de São Paulo tentou impedir na Justiça que a escola mostrasse as alegorias. A juíza Márcia Cardoso, da 11ª Vara da Fazenda Pública, negou o pedido de liminar e liberou os bonecos. No mesmo ano, a escola criou polêmica prometendo um "beijaço gay", que acabou não acontecendo.

  • O que eles disseram

    Juliana Kalichsztein, juíza, na decisão de ontem:

    "O Carnaval não deve ser usado como ferramenta para o culto do ódio nem como forma de racismo."

    Paulo Barros, carnavalesco da Viradouro:

    "Eu lamento que as pessoas prefiram fechar os olhos para um fato histórico da gravidade do Holocausto e tenham preferido banalizar o alerta que eu tinha preparado para o desfile."

    José Roitberg, porta-voz da Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj):

    "É inadmissível que apresentem um carro representando judeus mortos e um Hitler vivo acima deles.

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