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23 de dezembro de 2007 | N° 15457AlertaVoltar para a edição de hoje

Costa do Marfim: um retrato da África

Esperança de alcançar a paz e o desenvolvimento esbarra em confrontos internos

Neste final de ano, os habitantes da Costa do Marfim, na África Ocidental, dançam ao embalo de fatigué, fatigué (cansado, cansado). Contrariamente ao que induz o nome, a música do novo ritmo é alegre e, a coreografia, animada.

O hit africano resume o estado de espírito reinante: os marfinenses se cansaram da guerra civil que durante cinco anos ensangüentou o país.

Entre 2002 e 2007, os guerrilheiros das Forces Nouvelles (Forças Novas, ou FN) se rebelaram contra o poder do presidente Laurent Gbagbo e assumiram o controle do norte da Costa do Marfim. O período de guerra, batizado nas ruas de "a crise", foi encerrado com a assinatura dos acordos de paz de Ouagadougou, em Burkina Fasso, em março. O tratado estabeleceu a formação de um governo de união, com a nomeação do ex-líder dos rebeldes, Guillaume Soro, como primeiro-ministro do presidente Gbagbo.

Cansados e ainda um tanto desconfiados, os marfinenses esperam que o armistício vença as tradicionais quizilas de clãs. Durante "a crise", o tecelão Hervé, 37 anos, não ousou sair de seu vilarejo, Kondêyaokro, entre a nova capital, Yamoussoukro, e Bouaké, segunda cidade do país e QG das forças rebeldes. Dois de seus filhos, recrutados para lutar pelas FN, morreram no conflito.

- Não acredito em Gbagbo. Ele diz uma coisa pela manhã e outra coisa à tarde. Rezamos por eleições - diz, tecendo à sombra de uma árvore.

As aguardadas eleições estão prometidas para o primeiro semestre de 2008. Mas, para que o pleito possa ser realizado, foram instituídas as chamadas "audiências forenses". Grande parte dos marfinenses nunca foi registrada e não possui qualquer documento, muito menos título eleitoral. Por isso, juízes fazem incursões nos vilarejos do interior do país para, por meio de testemunhos, conceder certificados de cidadania.

O secretário-geral adjunto da aliança de oposição RDA-PDCI (Reunião Democrática Africana-Partido Democrático da Costa do Marfim), Michel Coffi, é pessimista:

- Uma maldição se instalou. O país estagnou. Vivemos de promessas. Não acredito que haverá eleições  logo.

No mercado de Yamoussoukro, Jean Pierre, 54 anos, professor de História e Geografia em um colégio, aceita falar em um local reservado. Conta que, por suas opiniões independentes, foi ameaçado pelo "esquadrão da morte" em atividade durante a guerra, obrigado a mudar duas vezes de endereço e a se esconder em um vilarejo próximo. Segundo ele, quem dirigia o temível esquadrão era Simone, a primeira-dama do país. Nas ruas, comenta-se que a mulher do presidente Gbgabo exerce uma forte influência no governo, mas não a ponto de comandar milícias assassinas.

Mesmo com a assinatura dos acordos de paz, o professor diz que os tempos ainda são de guerra:

- A crise não acabou, porque ainda não se fez o desarmamento, e a liberdade não é total.

Ex-guerrilheiros mantêm controle sobre o norte do país

Em um breve encontro com um grupo de jornalistas, o primeiro-ministro Guillaume Soro comentou a dificuldade para que os ex-rebeldes deponham as armas:

- É preciso entender que, para essas pessoas, as armas eram uma questão de sobrevivência, de ganha-pão. Não se pode chegar assim e simplesmente tirá-las. Tudo será feito a seu tempo - disse, garantindo que o exército será unificado.

No final do mês passado, Gbagbo atravessou em três dias e com grande alarde as cidades do Norte, em uma viagem simbólica de demonstração da reunificação do país. A região, no entanto, ainda é controlada pelas Forces Nouvelles por meio de barreiras nas estradas, da arrecadação de tributos oficiais e do usufruto do dinheiro gerado pelo lucrativo contrabando.

Por medo, Pierre, 29 anos, deixou a família em Man, no Oeste, para se refugiar em Abidjan. Uma irmã de 34 anos e um irmão de 24 morreram na guerra por "falta de medicamentos". Estima-se que a população de Abidjan aumentou em 1 milhão de habitantes por causa do conflito. Mas, aos poucos, os refugiados começam a retornar aos lares. Apesar da situação econômica do país, agravada pela guerra, os marfinenses tentam mirar o futuro. Em Bouaké, a sede dos ex-rebeldes, o cabo Boussu sintetiza o sentimento:

- Foi um período violento, mas agora acabou, chega. Não quero falar do passado, mas olhar para a frente.

Fatigué, fatigué, dançam os marfinenses.

Fernando Eichenberg viajou a convite da Union de la Presse Francophone

Confira as fotos deste país  da África Ocidental



FERNANDO EICHENBERG | Enviado Especial/Yamoussoukro
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