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23 de dezembro de 2007 | N° 15457AlertaVoltar para a edição de hoje

"A paz durará até a próxima traição"

Entrevista: Issiaka Ouattara, líder das forces nouvelles

No corredor, diante da porta de uma das suítes do Hotel Président, em Yamoussoukro, seguranças e militares montam guarda. Lá está o comandante Issiaka Ouattara, 39 anos. Wattao, como é conhecido no campo de batalha, foi um dos líderes da guerrilha. Hoje, é chefe de Estado-Maior adjunto das forças armadas das Forces Nouvelles (FN), antigo grupo guerrilheiro que assinou um acordo de paz com o governo da Costa do Marfim. De sorriso largo e dentes dianteiros apartados, quase 1,90 metro de altura, o atlético corpo decorado por correntes, anéis e pulseiras douradas, Wattao aparece para a entrevista de pés descalços. A sua frente, sete aparelhos celulares, pretos, dourados e prateados, alguns adornados com brilhantes.

- As pessoas me telefonam muito - justifica.

Wattao se diz engajado no processo de paz. Comenta-se até que, após a prometida reunificação militar, ele terá o cargo de adido militar no Brasil.

- Não tenho ambições políticas. Se for designado para o Brasil, não há problema, será um prazer ir à praia em Copacabana - diz.

Zero Hora - Como você se tornou rebelde?

Issiaka Ouattara (Wattao) - Em 24 de dezembro de 1999, demos um golpe de Estado para colocar o general Robert Guei no poder. Mas ele nos traiu. Daí começaram todos os nossos problemas. Fui encarcerado. Durante um mês me torturaram, tive as duas pernas quebradas, mais a mão (mostra a marca de ferimentos). A chegada do presidente Gbagbo ao poder permitiu que fôssemos liberados, mas ainda nos perseguiam. Decidimos deixar o país, porque nossas vidas estavam em perigo. Minha cabeça foi posta a prêmio por 20 milhões de CFA (R$ 78,4 mil), morto ou vivo. Foi o que me empurrou a aderir a rebelião.

ZH - Por que vocês pegaram em armas?

Wattao - Pegamos em armas para lutar contra a desigualdade, a injustiça e a xenofobia que estava instalada na Costa do Marfim. Hoje tudo começa a ser normalizado. Estão sendo feitas as audiências forenses, para que as pessoas possam ter carteira de identidade. Eu mesmo não tenho uma, e servi no exército do meu país. Quando fui fazer a carteira, me pediram os papéis do meu avô para provar quem eu era. Meu avô nunca teve documentos.

ZH - Você é a favor do desarmamento das Forces Nouvelles?

Wattao - Nós estendemos a mão. Fizemos muitas concessões para que a paz reine nesse belo país. Não queremos continuar no exército e acreditamos na sua unificação. Mas é preciso antes desarmar o coração e o espírito. Quando isso ocorrer, as armas vão tombar como folhas de árvore. Nós ainda controlamos 62% do território, mas não vemos armas hoje como havia antes. Estão sendo guardadas nos armários.

ZH - Em junho desse ano, o primeiro-ministro Guillaume Soro sofreu um grave atentado e escapou por pouco da morte. Como você analisa isso?

Wattao - O atentado foi obra dos inimigos da paz. Mas eles fracassaram, e a paz continua. Tenho informações sobre a identidade deles, mas não posso dizer, é segredo militar. Mas são marfinenses.

ZH - Qual é o futuro do país?

Wattao - Temos de mostrar que não é o Ocidente que vai resolver nossos problemas. É preciso que a África se assuma. Não temos mais necessidade da ajuda estrangeira, isso é subcolonização. Se nós mesmos não podemos resolver nossos problemas, então não há solução. A Costa do Marfim deve, hoje, encarar seus próprios desafios. A ONU veio, mas achamos que já fez o suficiente, eles não podem permanecer aqui eternamente.

ZH - Você acredita que, desta vez, o acordo de paz vai durar?

Wattao - A paz durará até a próxima traição.

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