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A dona de casa Maria Angelina Boucinha, 62 anos, perdeu o filho André, 31 anos, em um acidente de carro, em Cidreira, no dia 22 de dezembro de 2006. A seguir, seu depoimento sobre a tragédia:
"Minha vida mudou. Não tem explicação. A perda de um filho é a maior dor de uma mãe. Sei porque já perdi meu marido. É triste e doloroso, mas a gente supera. Mas um filho tenho a impressão de que é um pedaço da gente - e tu não tens como superar. A vida perde o sentido. Ele está presente na minha vida 24 horas por dia. Não tem momento em que não pense no André. E a nossa Justiça é muito falha.
André era maravilhoso. Era aquele guri que estava sempre presente em todos os momentos da família. Ele era muito família. Então, quando a gente se reúne, todo mundo logo lembra do André porque ele não faltava nunca a nada. Ele estava sempre presente, e era aquela alegria. Ele chegava sempre brincando com um, brincando com outro, com os colegas de serviço. Os colegas diziam que ele era uma
pessoa sem comparação.
No dia do acidente, eu estava na formatura da minha sobrinha, na PUCRS. O meu sobrinho me chamou dizendo que precisava falar do André. Ele resolveu passar aquela semana em Cidreira. Ficou lá na nossa casa e fez muitas coisas. Ele era aquele guri que estava sempre ajeitando. Quando estragava uma coisa, ele sempre mexia em tudo. André ficou em Cidreira, surfava e voltava para casa. Às 17h30min, André se despediu do vizinho e depois veio para Porto Alegre.
André estava sozinho no carro. Vinha com sua prancha e bagagem. Logo que André saiu, na RS-040, essa senhora foi ultrapassar numa curva. O movimento todo estava daqui (Porto Alegre) para lá (Cidreira). Pegou-o de cheio. Ele capotou. Até tirarem o André das ferragens, ele resistiu. Diz que ele estava bem calmo, mas faleceu.
Acho que devia ser umas 18h30min, 19h, quando o meu sobrinho foi me chamar e disse "tia, estou indo para Cidreira porque o André sofreu um acidente, mas não fica nervosa que a gente já vai
saber o que aconteceu". Estão
providenciando tudo. Eu disse: "se tu estás indo, estou indo contigo, deixa eu só pegar minha bolsa". Saí como eu estava na formatura e fui. Pensei que tivesse sido um acidente bobo. Quando eu cheguei lá e me disseram que já nem estava mais, que tinha ido para Osório, disse que eu não acreditava.
Afetou tudo, vivo é uma saudade que não tem explicação. Claro eu não dependia dele nem nada, nem ele de mim. Ele tinha a vida dele, tinha o emprego, mas morava comigo. Minha vida perdeu o sentido, eu acho que a gente não tem mais aquela vontade. Tenho uma filha e um filho, mas a gente tem de lembrar que tem mais, o André era o do meio e sempre foi muito apegado.
Essa dor não tem explicação. Tem horas em que tu diz que não aconteceu, porque ele era uma pessoa supersaudável, praticava surfe, natação, tênis. Tu não consegues acreditar que essa pessoa não faz mais parte da tua vida, que ele não está mais aqui. É uma coisa assim que a gente não consegue acreditar. Tem de tocar o
barco para frente, mas é
muito difícil, é muita revolta. Não é o andamento normal da vida o pai enterrar o filho, é o contrário.
Peço que não tenham essa pressa toda. Por que não perder mais cinco, 10 minutos para chegar? As pessoas têm de ter responsabilidade no trânsito. Os jovens estão piores, mas o André era um motorista que nunca causou acidentes. Porque ele era cuidadoso no trânsito. Muitas vezes não é o problema do álcool, é a pressa das pessoas. Para mim, acho que não trouxe lição nenhuma, só revolta. Sempre respeitei muito o trânsito.
A imagem do André é de uma pessoa muito querida, um filho maravilhoso que não saía nunca de casa sem chegar ao destino. Tenho só lembranças boas, foi um filho que viveu intensamente. Todos os meses rezo missa para ele. Tenho fotografias dele por tudo, estou sempre com ele muito presente."
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