
Durante uma semana, a reportagem do Diário Gaúcho acompanhou a rotina do transporte clandestino no centro de Porto Alegre. Neste período, conheceu novas rotas e a atuação indiscriminada das já conhecidas. Também identificou veículos e pessoas que estão envolvidas com este serviço ilegal e perigoso.
Foram flagrados diversos "convites" para que os usuários do transporte coletivo trocassem a espera nas paradas por um veículo que promete encurtar o tempo da viagem até o destino pretendido. A reportagem andou em um dos carros ofertados pagando pelo transporte do Centro até a Ilha da Pintada.
Enquanto isso, as empresas de ônibus contabilizam os prejuízos. Os passageiros também pagam a conta. A diminuição no número de pessoas dentro dos coletivos faz com que o preço da tarifa possa sofrer reajuste para cima. Uma das empresas prejudicadas chegou inclusive a ofertar linhas que fazem o trajeto pela metade do tempo. Nesta quarta-feira, a EPTC apreendeu três veículos suspeitos de
realizarem o transporte
clandestino.
Um novo transporte até a Ilha
Pelo menos desde o segundo semestre deste ano, os usuários das linhas de ônibus Porto Alegre/Ilha da Pintada ganharam mais uma opção de deslocamento, só que ilegal e perigosa. Na última semana, durante quatro dias, entre as 16h30min e as 19h30min, a reportagem acompanhou a movimentação de motoristas, usuários e agenciadores do transporte clandestino.
Os carros fazem a mesma linha do ônibus. Um dos horários de maior movimento é o das 7h às 9h, quando o transporte é feito da ilha até o Centro. O outro é a partir das 17h, quando o trajeto se inverte, e é feito do Centro até a ilha, saindo de um estacionamento da Avenida Júlio de Castilhos, esquina com a Rua Coronel Vicente.
O serviço é bem organizado. No Centro, os passageiros podem aguardar comodamente em cadeiras. Eles ficam sob a proteção de um telhado que impede que sejam incomodados pela chuva ou pelo sol.
Há, inclusive, o serviço de carregamento de
bagagens até o porta-malas do automóvel. Alguns dos veículos usados têm as mesmas cores de táxis, mas sem os luminosos, indicando que os motoristas podem ter desistido do transporte legal e migrado para o clandestino.
O horário de maior concentração de passageiros é entre 18h e 19h, na hora do rush. No dia 8, um aglomerado de mais de 20 pessoas aguardava no pátio do estacionamento, que é um posto de gasolina em reforma.
Clandestinos convocam passageiros
A movimentação de pessoas é menor antes das 17h, e os organizadores do transporte clandestino entram em ação, atuando como agenciadores. Para garantir o aproveitamento máximo dos lugares nos carros, eles precisam bater perna. Quando um carro encosta e não há quatro passageiros para serem levados para a Ilha, eles vão até a parada.
Nos dias 8 e 12, a reportagem flagrou uma jovem "convidando" os usuários e informando que um veículo estava aguardando. Os
passageiros que conhecem o serviço já chegam perguntando:
"Tem vaga?". O convocado recebe um pequeno papel que serve como bilhete de permissão para ingressar no carro.
Quem está com esse bilhete tem vaga garantida em um dos veículos e precisa acertar o pagamento — R$ 2,50 — com o motorista do carro após desembarcar no destino.
A agenciadora se reveza com um homem, que atua mais discretamente, na missão de convocar os clientes. Com um sinal com o dedão e a cabeça, aponta para o estacionamento, indicando que um carro está aguardando.
Azuizinhos não intimidam
As chegadas constantes dos carros fazem com que haja uma disputa desparelha. No dia 12, entre 16h30min e 17h, os passageiros tiveram que esperar por mais de meia-hora a chegada do ônibus que levaria até a ilha. No mesmo período, dois "táxis" transportaram oito passageiros.
No momento em que um dos veículos era ocupado pelos clientes, às 16h52min, dois agentes da EPTC caminhavam pela
Júlio de Castilhos, do outro lado da avenida. Eles cruzaram reto pelo
local e nem chegaram a causar alteração no comportamento dos passageiros ou dos transportadores clandestinos.
Passageiros e transportadores desconversam
No Centro, o assunto é tratado com extremo cuidado por todos os envolvidos. Ninguém fala abertamente sobre o transporte, pois sabem da ilegalidade do serviço. A reportagem tentou obter informações com a agenciadora sobre os valores do transporte no dia 8. Ela rapidamente desconversou e disse que não era com ela, e sim com uma mulher que estava ao seu lado.
— Meu carro só está estacionado aqui — desconversou a motorista.
Ela relatou que o dono do estacionamento poderia dar mais detalhes sobre estas informações. Ele, porém, negou tudo:
— Aqui é um estacionamento.
A orientação é dada também aos passageiros, que ratificam o discurso dos transportadores.
— Estou esperando uma carona —
desconversou um homem que aguardava, com o bilhete na mão.
Empresa tenta evitar
prejuízo
O transporte clandestino foi identificado nos últimos meses pela empresa de ônibus Conorte — responsável pelo serviço entre o Centro e a Ilha da Pintada. Começou com um ou dois carros, segundo o gerente Marcus Machado.
A estimativa é de que 200 passagens deixam de ser vendidas por dia com o aumento do transporte ilegal. Isso representa 3% do faturamento da empresa, valor que é incluído nas perdas. São aproximadamente R$ 10 mil reais perdidos por mês.
— Isso (diminuição no número de passageiros) vai refletir no preço da tarifa — revela Marcus.
Um levantamento foi entregue à EPTC há mais de 30 dias, com a identificação de seis veículos que fazem constantemente esse transporte. Enquanto isso, Marcus diz aguardar uma operação da prefeitura e da Metroplan:
— Agora não depende da gente. Não podemos atuar na parte da fiscalização.
Mesmo assim, a empresa não está de braços
cruzados. No dia 8, adotou uma medida que já apresenta resultados.
Normalmente, a linha 718, que sai do Centro, vai até a Avenida Presidente Franklin Roosevelt, na Zona Norte, e parte em direção à Ilha. Esse trajeto costuma demorar até 45 minutos.
Pensando em dar mais comodidade aos usuários, oito ônibus — três no começo da manhã, dois ao meio-dia, três no final da tarde — passaram a sair do Centro e não mais ir até a Presidente Roosevelt. Agora, parte direto pela Avenida Castelo Branco, com o mesmo valor de tarifa: R$ 2,10. Esta nova rota diminuiu em 20 minutos a viagem. Na primeira semana, os ônibus estão recebendo até 70 passageiros por viagem.
— Se existe esse mercado (clandestino) é porque o cliente não está satisfeito — concluiu Marcos.
EPTC apreende três veículos suspeitos
Na tarde desta quarta, a EPTC, em parceria com a Brigada Militar, realizou uma operação na Ilha da Pintada a fim de combater o transporte clandestino. Dos seis veículos monitorados pela
empresa, com fotos e filmagens, três foram apreendidos. Para
liberar os carros, os proprietários precisam pagar uma multa de R$ 4,44 mil. Os motoristas ainda responderão por transporte ilegal de passageiros.
De acordo com o gerente de fiscalização de transporte da EPTC, Filipe Sias, o transporte clandestino não é a única irregularidade.
— Geralmente há outros tipos de contravenções por trás. Eles (motoristas dos clandestinos) podem ser até foragidos, além de coagir os passageiros a usar o transporte deles — alerta Filipe.
Penso que se nós moradores de Guaiba estivessemos satisfeitos com o nosso transporte, acredito que n daria abertura para o transporte clandestino....É humilhante um trabalhardor sair de casa as 6 da manha e ir em pé se ao menos censeguir se mexer de tao lotado que esta o onibus, e na volta acontecer o mesmo,sem contar que os onibus dependendo do bairro são bem precarios, e o preço da passagem um absurdo, e o pior q mentir que mora em POa pra conseguir um emprego!!!Isto vai ter que mudar.....
Penso da seguinte forma, se as empresas de onibus, (especialmente a Expresso Rio Guaiba) se sentem tão ameaçadas, porque não colocam mais horarios e onibus em melhores condições, quem sabe até algun outro meio de transporte que não seja somente os onibus. Todos sabemos que é tudo politicagem, para que as empresas tenha concessões por anos e anos, como acontece em Eldorado. Sou a favor de legalizar os clandestino, o sol, nasceu para todos!!!!!

Alguns dos veículos usados têm as mesmas cores de táxis, mas sem os luminosos, indicando que os motoristas podem ter desistido do transporte legal e migrado para o clandestino
Foto:Luiz Armando Vaz
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