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 | 15/11/2008 | 13h56min

Especial ZH: Presídio Central - Uma vergonha revelada

Equipe de Zero Hora é a primeira a percorrer os pavilhões mais degradados da cadeia

Carlos Etchichury | carlos.etchichury@zerohora.com.br

Responsável pela segurança da maior cadeia do país, o metódico capitão Ricardo de Souza Rocha, 48 anos, começa a conversa com a equipe de Zero Hora dissertando sobre a aparente tranqüilidade no Presídio Central de Porto Alegre:

— Há quase 4,8 mil presos e, como vocês percebem, temos o total controle da situação. Há quanto tempo não tem rebeliões? Isso ocorre graças ao nosso trabalho...

Um estampido interrompe o capitão.

 

Clique e conheça mais sobre as galerias do Central

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É no C que o inferno arde


O oficial fixa os olhos em um monitor com imagens de quatro câmeras localizadas em corredores do Central. Nada de anormal. No mesmo tom de voz, retoma o raciocínio:

— Como em turmas de colégio ou nas universidades, acontecem brigas. Nada fora de controle...

Um segundo estampido interrompe novamente o capitão.

 

Clique e assista aos bastidores da visita
aos corredores do presídio


— Acho que estão dando tiros no corredor, capitão – diz um dos interlocutores.

— É. Parece tiro – concorda.

No monitor de Rocha surgem dezenas de PMs armados com espingardas, revólveres, pistolas e cassetetes e correndo pelos corredores. Ouve-se murmúrios.

— Parece que o problema é no Jumbo (cela destinada aos recém-chegados ao Central) – interpreta Rocha.

Um sargento invade a sala impecavelmente limpa e confirma a especulação do oficial:

— Com licença, capitão. Houve um probleminha no Jumbo, mas o GAM (Grupamento de Apoio e Movimentação) foi acionado e está tudo sob controle.

Demonstrando domínio da situação, Rocha contém a tensão.

Um terceiro estampido volta a interromper o capitão.


O oficial, então, decide sair. Veste colete à prova de balas e avisa:

— Vou conferir e já retorno.

A calma dá lugar à apreensão. O chefe da segurança, policial que comanda o contato dos PMs com os presos, retorna minutos mais tarde. Tratava-se de uma ocorrência isolada. Dois jovens, rivais nas ruas, resolveram suas desavenças com socos e pontapés ao se encontrarem na mesma cela.

Para garantir a integridade de ambos e de outros 70 presos, PMs dispararam três vezes com balas de plástico – munição não-letal, usada para conter distúrbios.

— Faz parte da nossa rotina – diz Rocha.

Era terça-feira, 4 de novembro, segundo dia em que a equipe de ZH percorria o mais superlotado cárcere do Brasil. Durante uma semana, foi possível vasculhar galerias dos pavilhões A, F e C, entrar em celas que abrigam 38 pessoas, quando deveriam alojar oito, e entrevistar traficantes, líderes de quadrilha, estupradores e chefes de galerias. Também se presenciou a disposição diária de duas centenas de PMs mobilizados para conter 4,7 mil detentos.

Acompanhe a jornada de ZH pelo Central, uma prisão abandonada há decadas pelo Estado.

 

Em infográfico animado, faça uma viagem pelas galerias do Central


O primeiro contato com o inferno ocorre no plantão 24 horas do presídio. Na manhã de terça-feira, o sargento Vanderlei Chagas Costa, 36 anos, chefe do setor, prevê:

— Temos 90 audiências (presos sairão escoltados e retornarão ao Central), mais os que chegam, os transferidos, os que ganham liberdade... Será um plantão agitado.

Natural de Santana do Livramento, o sargento Chagas e dois soldados conferem os documentos de quem chega ou sai. O movimento é frenético. Entre a 0h de terça-feira e a 0h de quarta, passarão diante dos olhos de Chagas 210 presos, 168 visitantes masculinos (a maioria pais, avôs ou irmãos de presidiários) e 38 advogados.

— Qualquer descuido, alguém pode virar refém – avisa o sargento.

Cumpridas as formalidades, presos trazidos das ruas submetem-se a uma revista.

Com um cassetete na mão direita, onde se lê Dorflex, e um cigarro na esquerda, um soldado anuncia para um recém-chegado:

— Tira os sapatos, a camiseta, as calças e as cuecas. Encosta na parede. Ergue os pés.

— Posso fazer uma ligação? – quer saber o detento.

— Antigamente tinha até orelhão no pátio. Agora, não pode mais – responde.

— Qual o teu artigo? – questiona o PM.

— Porte de arma.

— Primário? Porte de arma? Sai no mesmo dia – complementa o soldado.

Com o recluso já despido e as mãos protegidas por luvas cirúrgicas, o policial ordena:

— Dois agachamentos. Pronto. Agora vira pra parede. Abre a boca. Põe a língua para fora. Solta o cabelo. Pronto. Veste a roupa.

Enquanto o jovem se organiza, regras são despejadas:

— Sabonete branco não entra aqui. Pasta de dente branca, também não (misturados, transformam-se numa massa clara, compacta e espessa, capaz de ocultar objetos em orifícios nas paredes). Roupa verde (semelhante às da Brigada) é proibida. Abrigo com capuz não pode. Se a jaqueta tiver forro, a gente tira.

No corredor, próximo à porta de acesso aos pavilhões, ouve-se um berro:

— Vai passar!

É a senha para informar que presos irão circular pelos corredores. Naquela terça-feira, 15 das 90 audiências ocorreriam pela manhã. Em grupos de seis, os detentos, a maioria de chinelos, bermudas e camisetas esfarrapadas, ocupam uma cela provisória.

— Cruza os braços! – berra o soldado.

Sem algemas, circulam em um espaço delimitado por uma linha amarela pintada no chão, de braços cruzados e cabeça baixa. Quando deparam com mulheres, viram-se de costas para a parede. São normas da casa que, aos poucos, desnudam-se diante dos visitantes. Em frente à cela, outra ordem ecoa:

— Pode abrir, jaleco!

Jaleco são prisioneiros que gozam da confiança da direção, trabalham em serviços estratégicos como abertura e fechamento das grades. Por isso, são malvistos pelos demais.

Do plantão, são levados ao "fundo da cadeia", interrogados por sargentos e, de acordo com suas trajetórias, espalhados pelos pavilhões: integrantes de facções para um lado, primários para outro. Matadores de crianças e estupradores (os chamados Duque 13, numa referência ao artigo 213 do Código Penal, considerados desprezíveis até pelos bandidos) serão apartados.

Entres os foras-da-lei, correm risco de vida. Ex-policiais ficarão num pavilhão imune a animosidades. Neófitos no Central conhecerão o inferno. Os reincidentes descobrirão que, a cada dia, torna-se mais dramática a sobrevivência.

ZERO HORA

Comentários

maria rosana dos santos -

Denuncie este comentário19/05/2009 12:27

eu sofro de perto o pulgatorio k e o presidio centralja mandei conte sua historia p faustao peço socorro ninguem m ouve,meu maninho nao matou nao roubou,esta la condenado a morrer pq tem convulsao,ja teve pontada dupla,problemas de infecçao na unica vista k tem etc ainda quando levavam ele para infermaria entre aspas eclaro os brigadianos batiam nele,os medicos cobram 1.500,00 para ir la ver ele agora vcs imaginam meu desespero minha mae teve esquemia cerebral e tem k ir la kro prisao domiciliar


vanessa Bica

Denuncie este comentário05/05/2009 00:05

Boa noite. Estou acompanhando todas as noticias sobre o pcpa, e como tenho acesso ao local, sei que muitos dos pavilhoes que estão em fase precaria, é pelo fato de que qndo os oficiais fazem revista quebram com marreta para encontrar drogas ou celulares, muitas vezes acredito que seja por maldade. E tratar de uma maneira desumana mesmo, não que preso tenha que estar em hotel 5estrelas. Mas tambem, dessa maneira não iram reeducar a ninguém.


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