
Peço licença aos amantes da tecnologia, mas abro este espaço dominical para uma reflexão que ouvi, ao lado de outros 200 executivos de jornais, na semana passada, em Amsterdã. Em tom pausado, propício ao tema, o jornalista americano William Powers reproduziu em palavras a paixão daqueles que não abrem mão de folhear diariamente as páginas de seu jornal preferido, no café da manhã, na hora do chimarrão, no local de trabalho ou na tranqüilidade da noite, em casa.
Colunista de mídia da revista americana The Nation e autor de Hamlet's Blackberry, ensaio sobre a perenidade do poder do papel, Powers observou ao público da 11ª Conferência da Associação Mundial de Jornais (World Association of Newspapers — WAN) que a mídia digital tem vantagens muito conhecidas, mas que às vezes as pessoas ignoram o que o jornal impresso faz de melhor. E ele estava ali apenas para falar como os diários estão aptos a continuar fazendo o que fazem, não apenas no próximo mês ou no próximo ano, mas por
muito tempo.
Mas o que fez Powers cativar a platéia?
Sem trocadilhos com seu nome, ressaltou a força dos jornais e de suas marcas, numa interpretação que só nos surpreende, talvez, porque estamos mergulhados em uma Era Digital, que recém completa 10 anos mas já parece fazer parte de nossas vidas desde sempre. Powers traduziu o hábito de quem, como você, já incluiu a leitura do jornal na sua vida. Internauta assumido, embora prefira ser chamado de "um leitor da internet", ele sabia que estava também em meio a editores online quando soletrou: "O papel libera o cérebro para pensar". É, segundo o ex-repórter do The Washington Post, o maior sucesso de inovação na comunicação nos últimos 2 mil anos, aquela que está durando mais tempo e que teve maior impacto na civilização. "Sem a tecnologia do papel, não haveria civilização. Apesar de muitas pessoas não o enxergarem como tecnologia".
Como líder de uma Redação que fundiu sem dor suas porções papel e online há pouco mais de um ano, senti
que ali estava uma boa
explicação para o sucesso de jornais como Zero Hora, cujo site bate recorde sobre recorde em visitas e, ao mesmo tempo, cuja circulação em papel cresce, para espanto de analistas de mídia. "O papel permite estabilidade à mente em um mergulho profundo e pacífico, estado em que desenvolvemos melhor os nossos pensamentos", continuou, numa seqüência de frases, simples, mas que faço questão de compartilhar:
"Por focar quase exclusivamente o que há de novo e quente no mercado tecnológico, nós (jornalistas) estamos perdendo a idéia central. Não estamos ajudando as pessoas a entender e organizar as suas vidas tecnológicas. Esta é uma área na qual o público quer discernimento e uma direção. É fundamental que a gente aprenda a pensar mais inteligentemente sobre os dispositivos digitais. Não apenas como eles funcionam, mas como se encaixam em nossas vidas. Precisamos assegurar que as ferramentas trabalhem para nós, ao contrário de trabalharmos para elas. O fato de o papel estar desconectado da rede
digital não
é um atributo negativo, mas uma arma secreta. Em um mundo multiatarefado, onde o foco está cada vez mais difícil de ser encontrado, acredito que o isolamento da mídia escrita é uma força emergente. O papel ainda é um ponto de passagem para a consciência, uma fuga da sobrecarga infinita de coisas da tela. É uma ilha no caos. Mais do que todas as outras coisas, o slogan do papel poderia ser apenas este: Uma ilha no caos."
Fiz questão de cumprimentar Powers e, enquanto esperava a vez na longa fila de colegas, me senti orgulhoso, pois acabara de ouvir um especialista mundial abordando justamente uma lei em nossa Redação no sul do Brasil: mostrar, mais do que a informação pura, a interpretação. Fazer o leitor mergulhar nos fatos. Ajudá-lo a pensar, a entender e contextualizar. Ser a ilha que lhe permite — no intervalo do chimarrão ou na calma da noite após o trabalho — um momento de reflexão e análise no caótico mar de um mundo em constante mutação tecnológica.
Limitado
pelo espaço físico, mas
disposto a dividir com o leitor a apaixonante palestra, vou seguir o que Powers sugere e colocar a "ferramenta digital para trabalhar por nós":
Clique aqui para ler a íntegra do pronunciamento (em inglês)
Clique aqui para ler a íntegra do pronunciamento (em português)
Ñ li toda a palestra de Powers,me detive na transcrição de quem lá esteve. Realmente,ele está c/td razão.Eu me julgo a prova disso.Sempre presente na minha ZH.com,porém,antes estou presente no jornal ZH,do qual sou assinante a alguns anos.Minha rotina:pego o jornal,(antes do café)lei-o (da direita p/esq.)e sinto mesmo o prazer de te-lo em m/mãos. Ele tem razão.È dif.o prazer,de folhea-lo,e o prazer de ler em on-line.Em on-line posso externar ms opinões em comentários,etc,porém é dif.do jornal.
Extremamente oportuna esta "visao" de Powers,provando que algumas coisas na vida se eternizam pela sua condição pratica. Por outro lado é interessante constatar que a imprensa que é uma das categorias mais avançadas em tecnologia,convive tao bem com o novo e o antigo.
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