
Na Carta do Editor deste domingo, Ricardo Stefanelli comenta a fala de William Powers, jornalista americano, colunista de mídia da revista The Nation e autor de Hamlet's Blackberry, durante a 11ª Conferência da Associação Mundial de Jornais, em Amsterdã. Confira abaixo a íntegra do discurso, em português:
William Powers
Amsterdam - 16 de outubro de 2008
Obrigado. Estou encantado por estar aqui, como um escritor de jornal aposentado, amante de jornal por toda vida, acredito firmemente que o mundo precisa — desesperadamente — do que os jornais fazem.
Eu fui convidado para estar aqui hoje para falar sobre como os jornais estarão aptos a continuar fazendo o que fazem, não apenas no próximo mês ou no próximo ano, mas por muito tempo.
No ano passado, a Universidade de Harvard publicou um ensaio meu no qual examinei a crença amplamente aceita de que os jornais estão morrendo. O ensaio é chamado Hamlet's
Blackberry: Why Paper is Eternal ("O Blackberry de Hamlet: Por que o
Papel é Eterno", em tradução livre).
Escrevi como um bolsista do Harvard's Shorenstein Center, um lugar maravilhoso onde estudiosos, jornalistas e outros se reúnem para pensar, conversar e escrever sobre o papel da imprensa em uma sociedade livre.
Hamlet's Blackberry é um pouco diferente de outros estudos sobre os problemas da indústria de jornais. E não é exatamente sobre jornalismo. Na realidade, falando honestamente, nem é sobre jornais. É sobre o material no qual são impressos: papel.
Parece-me que a questão sobre os jornais terem futuro é relacionada, de uma forma profunda, ao futuro do próprio papel. Essa é a essência do meu argumento no Hamlet's Blackberry.
Como o subtítulo sugere, concluí que o papel tem sim futuro — e longo. Se os jornais serão incluídos nesse futuro, é uma outra questão, e vou chegar a ela em poucos minutos.
Primeiro, para contextualizar, quero dizer que estou surpreso por estar
aqui falando sobre Hamlet's Blackberry. Fico surpreso quando
recebo um alerta do Google ou um e-mail dizendo que alguém, em algum lugar, escreveu um artigo de jornal ou revista, deu aula ou postou em algum blog algo sobre meu ensaio. Isso acontece com freqüência, até hoje, um ano após a publicação. Fiquei surpreso que, assim que o artigo apareceu na internet, imediatamente comecei a receber propostas de editores para escrever um livro sobre ele. No começo do ano assinei o contrato para escrever esse livro. Agora estou trabalhando nele, que estará pronto em poucos meses.
Quando estava escrevendo Hamlet's Blackberry, não tinha me idéia de que isso aconteceria. Com toda honestidade, não esperava que ninguém lesse, além de minha mulher, meus pais e os colegas de Harvard. É muito longo — são 75 páginas com mais de cem notas de rodapé — e nós supostamente vivemos em tempos em que as pessoas têm curtos momentos de atenção.
No entanto, por alguma razão, algumas pessoas realmente leram, e é como se o texto tivesse ganhado vida própria.
Permitam-me
contar como entrei nesse assunto. Era primavera de 2006 e estava sentado no meu escritório trabalhando em uma coluna. Escrevo sobre o mundo de notícias e informação. Tenho particular interesse em como as novas tecnologias de mídia estão influenciando a política, a sociedade e o dia-a-dia.
Um tópico sobre o qual tenho escrito recentemente é o futuro dos jornais. Como vocês sabem, existe uma forte crença no mundo todo de que jornais — desses em papel, que você segura com as mãos — estão fadados à extinção.
De acordo com esse ponto de vista, os únicos que se preocupam com a sobrevivência dos jornais impressos são pessoas velhas com apego nostálgico ao meio físico, àquelas maravilhosas páginas flexíveis que você pode dobrar e carregar debaixo do braço.
De alguma maneira, sempre considerei correta essa impressão sobre os jornais impressos. Amo os jornais impressos, mas na era da internet, não via motivos para que sobrevivessem.
Devo
dizer que sou uma pessoa que gosta e sente-se
confortável com a tecnologia digital. Nasci nos anos 60. Comecei a usar computador como estudante universitário nos anos 80. E nunca voltei atrás. Quando comecei o em meu primeiro emprego jornalístico no The Washington Post em 1988, a redação era totalmente computadorizada, e pensei que era algo ótimo. Não fiquei nostálgico pelo antigo mundo de máquinas de escrever e máquinas antigas de transmissão de dados.
A tecnologia digital evoluiu e surgiu a internet, e abracei a nova mídia. Gostei de ler nela e agora gosto de escrever para ela.
Ao mesmo tempo, devo confessar que continuei gostando do hábito de sentar de manhã para ler um jornal em papel. Escrevi algumas colunas tentando entender o motivo, mas nunca cheguei a uma conclusão.
É difícil de descrever o sentimento do qual estou falando. Em parte porque parece ser apenas um sentimento, em vez de uma idéia lógica que eu possa defender. Afinal, jornais devem entregar palavras e imagens, e as palavras
e imagens em um jornal impresso são
basicamente as mesmas da versão web. Quem se importa em como você absorve um conteúdo, desde que você o absorva?
Então, naquele dia de primavera em 2006, recebi uma ligação do Harvard's Shorenstein Center perguntando se estava interessado em fazer uma bolsa de um semestre lá. Eles me dariam um escritório, um assistente de pesquisa e acesso a todos os ricos recursos da universidade. Eu só teria que apresentar um tema que gostaria de estudar por quatro meses e escrever um ensaio sobre ele.
Não precisei pensar muito. Queria entender o que estava me chamando de volta para o jornal impresso a cada manhã. Por que, apesar do meu ávido interesse pelas tecnologias digitais, ainda tinha esse curioso apego a esse material enfadonho, monótono e fora de moda que é o papel.
Se o papel realmente está morrendo, gostaria de saber se sentiremos falta de algo dele quando isso acontecer.
A primeira coisa que fiz foi estudar de onde veio o papel —
quem o inventou e como ele conquistou e se
espalhou pelo mundo. Quando apareceu pela primeira vez na China, há 2 mil anos, o papel era uma engenhoca curiosa, como o iPod de hoje. No ano de 751 a.C., os chineses perderam uma batalha militar importante para os turcos. Alguns soldados chineses foram presos, e seus algozes os forçaram a revelar como o papel era feito. Naquela época, é possível afirmar que o papel era um segredo industrial de alto nível. Da Turquia, a produção de papel se espalhou para o oeste da Europa, onde chegou por volta do ano 1000. O resto é história, como se diz — e que história.
O papel é a inovação de maior sucesso na área da comunicação nos últimos 2 mil anos, aquela que está durando mais tempo e que teve maior impacto na civilização. Sem a tecnologia do papel, não haveria civilização. Apesar de muitas pessoas não o enxergarem como uma tecnologia.
Aliás, na medida que você viaja pela história do papel, e chega à metade do século 20, algo curioso acontece. Computadores são criados e se
popularizam, primeiro nas
empresas e, depois, em toda a sociedade. E, ao passo que essa tecnologia se dissemina, as pessoas começam a prever que o papel se tornará obsoleto. No começo dos anos 60, gradualmente se forma a idéia de que, no futuro, não haverá necessidade de papel. Ao longo dos anos, inúmeros livros e artigos foram publicados prevendo que uma Sociedade Sem Papel estava chegando.
Todos eles erraram, claro. O papel não só persistiu na era do computador como prosperou. Quanto mais computadores e equipamentos de fax e outras ferramentas tecnológicas criamos, mais papel usamos. Um estudo feito na década de 90 revelou que quando o e-mail começou a ser usado nos escritórios, o consumo de papel cresceu em uma média de 40%.
Como tanta gente se enganou?
É simples. Todas aquelas previsões de que o papel desapareceria tiveram origem na crença de que novas tecnologias eliminavam as velhas, assim como o automóvel acabou com as carroças.
Na verdade, não é
sempre assim. Velhas tecnologias freqüentemente
conseguem sobreviver à introdução de novas. Isso ocorre quando tecnologias velhas desempenham funções úteis que as novas não conseguem desempenhar.
Um grande exemplo é o caso das portas com dobradiças. Assista a um filme de ficção científica uma hora dessas e preste bastante atenção. Você perceberá que as casas, escritórios e naves espaciais do futuro têm portas deslizantes. Desde a década de 20, diretores decidiram que as portas do futuro não teriam dobradiças. Por quê? Porque as portas com dobradiças estão fora de moda. As portas que precisam ser abertas para trás ocupam muito espaço. Não é lógico continuarmos tendo portas com dobradiças quando as deslizantes fazem muito mais sentido. Elas são tão elegantes, lógicas e, claro, futurísticas. Assim, na imaginação popular, as dobradiças estarão sempre na mira da extinção.
Como você já deve ter notado, as portas com dobradiças continuam entre nós. Por quê? Porque as pessoas gostam de usá-las. Um aluno da Universidade da
Califórnia, em Berkeley,
chamado Paul Duguid, explica como isso funciona em uma pesquisa. Uma porta deslizante pode ter mais apelo estético, mas ela só vai para um lado e para o outro, o que é meio chato.
Portas com dobradiças são mais interessantes. Você pode aparecer de trás dela e dar um susto em alguém. Você pode batê-la bem forte para demonstrar sua raiva, ou fechá-la bem devagar para não acordar uma criança que esteja dormindo. Em resumo, a porta com dobradiças é uma ferramenta de expressão. Mexe com nosso corpo de uma maneira que as portas deslizantes não conseguem. Assim, as dobradiças continuam conosco.
Às vezes, as novas tecnologias fazem as velhas ficarem ainda mais valiosas. Quando as máquinas de escrever móveis começaram a aparecer, no século 15, alguns acharam que os manuscritos e a escrita a mão se tornariam obsoletas.
Na verdade, ocorreu o oposto. O surgimento de livros, na verdade, aumentou a importância da escrita a mão. Se você soubesse escrever palavras
e frases a mão — o que nem todo
mundo sabia naquela época —, poderia participar da explosão de informações que Gutenberg impulsionou. Depois de Gutenberg, lápis de grafite e canetas de pena foram inventados para alimentar a nova demanda de ferramentas da escrita. Escolas de estenografia (escrita abreviada na qual se empregam sinais que permitem escrever com a mesma rapidez com que se fala) foram abertas, e novos estilos de escrita a mão, precursores do que usamos hoje, foram criadas.
A comunicação escrita trouxe todos os tipos de invenções. No início de 1600, uma nova máquina começou a aparecer nas grandes cidades da Europa. Era do tamanho de um livro de bolso com uma superfície forrada em que se podia escrever e apagar com uma esponja. Executivos de Amsterdã, Paris e Londres carregavam esse dispositivo com eles durante o dia, fazendo anotações rápidas e apagando-as depois.
Seria o equivalente aos nossos iPhones e Blackberrys, e se manteve popular por mais de 200 anos. Os estadistas americanos
Thomas Jefferson e Benjamin
Franklin tinham o aparelho, e Shakespeare deu um deles para Hamlet, que rabisca nele após ver o famoso fantasma. A questão é: a prensa não matou a escrita a mão, só lhe deu novos papéis.
Quando a televisão chegou, nos anos 50, quase todo mundo pensou que o rádio fosse desaparecer. Para que você iria querer uma caixa que só produz som quando você pode ter uma outra com som e vídeo? Na verdade, a TV substituiu o rádio como o centro das atenções dentro de casa. Mas, ao mesmo tempo, o rádio encontrou novos papéis em nossas vidas — nos carros, por exemplo. E hoje, em um mundo de informação instantânea, muitas pessoas gostam do rádio porque ele produz apenas som — sem texto ou imagens — e, assim, não subjuga os sentidos. Aliás, o rádio pode ser um tipo de trégua dessa mídia carregada.
Acredito que algo similar tenha ocorrido com o papel nos últimos 50 anos. O papel ainda está conosco como um meio de comunicação porque, como a escrita a mão, as dobradiças e o rádio, ele faz
coisas por nós que as
novas tecnologias não fazem.
Que coisas são essas?
Bem, o papel tem duas funções essenciais.
Número 1: É um RECIPIENTE. Ou seja, guarda informações que podem ser levadas de um lugar para o outro, e que são preservadas durante bastante tempo. Quando você imprime um jornal, as páginas servem como recipiente.
Número 2: O papel também é uma INTERFACE. Quando as páginas chegam ao seu destino, o que ocorre? O leitor pega e interage com elas, usando seus sentidos e cérebro para ler e entender o conteúdo.
Agora, quero que você observe algo sobre a morte do papel. Essa idéia nasceu quase inteiramente na função do papel de RECIPIENTE. Isso porque, de várias formas, as tecnologias digitais são melhores recipientes de informação do que o papel. Pense nisso: elas movem conteúdo de um lugar para o outro de maneira muito mais rápida e barata do que o papel, e sua capacidade de armazenamento é infinita.
Mas o que falar sobre a outra função do papel, a de pura INTERFACE? Como
disse em Hamlet's Blackberry, volto para aquele momento em que você está sentado quieto com um livro ou jornal nas suas mãos, só lendo. A experiência é totalmente diferente do que ler na tela, embora tenha dito anteriormente, é difícil dizer exatamente o porquê.
Todo mundo sente isso, incluindo pessoas jovens que ficam bastante tempo escrevendo no Facebook. As telas são ideais para consumo rápido e objetivo de conteúdo. Se você precisa de um pedaço de informação, vai ao Google, encontra, e pula para outra janela. Abre seu e-mail, lê, escreve uma resposta e envia. É tudo muito rápido e eficiente.
Mas quando se trata de uma leitura mais longa e profunda, quando você realmente quer pensar sobre as idéias que estão sendo expressas, o papel ainda é o lugar certo para isso. E-books estão aí e são mais baratos do que os reais, mas eles não são populares. Comprei um dos mais novos e-books, um Amazon Kindle, no início do ano, depois que meu filho de 10 anos, que ama ler,
insistiu que essa seria a
tendência do futuro e nós deveríamos ter um. Nós o usamos por 10 dias e mandamos de volta para a devolução. Todo mundo na família, incluindo meu garoto de 10 anos, que fica feliz na frente de qualquer tela, achou o e-book desconfortável para ser usado. A tecnologia era inferior ao livro real. Não era papel.
Por que o papel está naturalmente associado ao tipo de leitura profunda de livros e artigos mais longos? Se chegasse ao topo da questão, explicaria que deveria solucionar o enigma de por que o papel havia durado tanto tempo, e ainda tenha futuro.
Dei uma olhada em uma pesquisa que foi feita sobre como as pessoas interagem com a mídia de papel e aprendi algo interessante. Ela revela que as coisas que transformam o papel em um meio de ARMAZENAMENTO inferior — no sentido que ocupa espaço para ser levado de um lugar ao outro — são exatamente as qualidades que o tornam uma grande INTERFACE para leitura e pensamento. Em outras palavras, as fraquezas do papel também são
suas forças.
O
melhor trabalho sobre esse assunto foi feito por Abigail Sellen e Richard Harper, autores do livro O Mito do Escritório sem Papel, de 2002. Sellen e Harper, que estudam psicologia tecnológica e cognitiva, conduziram estudos com trabalhadores de diversas organizações, incluindo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington D.C.
Eles descobriram que, embora esses trabalhadores tinham as tecnologias digitais mais avançadas na ponta dos dedos, eles preferiam trabalhar com documentos em papel. Os resultados apontam que eles gostavam da tangibilidade do papel, o jeito que podiam tocar e manusear um documento com as mãos, fazer anotações nas margens, voltar e avançar nas páginas, fazer pilhas de papel na mesa e dividir cópias com os colegas.
Documentos online são muito diferentes dos de papel. Porque eles não têm presença física, quando você está lendo na tela, seus olhos e cérebro estão constantemente trabalhando, tentando descobrir onde estamos — não só na página,
mas dentro de um texto
maior, onde você pode abrir outros documentos. Uma parte de nossas mentes está sempre se perguntando: Que página é essa novamente? Que linha estou lendo? Que outros arquivo tenho que abrir depois deste?
Quando lemos na tela, gastamos energia mental só navegando. Por outro lado, como o papel é tangível, permite que as mãos e os dedos se responsabilizem pela dificuldade da navegação. Nós sabemos onde estamos porque sentimos onde estamos. E isso liberta o cérebro de pensar.
Um dos conteúdos do estudo do FMI revela que o papel era melhor do que as telas para aqueles momentos em que você realmente precisa se debruçar em um texto ou documento e refletir.
Em outro estudo, desenvolvido pelo professor Gerald Zaltman, da Harvard Business School, encomendado por uma revista, os leitores diziam que eles gostavam do senso de controle que o papel lhes dava. Foi revelado que ao virar as páginas da revista e analisando os anúncios, o leitor recebia uma noção de
"desejo e paz", que falta quando
estamos vendo anúncios na tela. Essa mesma pessoa descreveu o estado que entramos quando estamos lendo uma revista de papel como "um apanhado de serenidade".
No livro Flow: The Psychology of Optimal Experience, de 1990, o filósofo Mihaly Czikszentmihalyi ("Mee-hi Cheek-sent-mee-hi") investigou como as pessoas ao redor do mundo alcançam a felicidade a cada dia. Baseado em entrevistas, questionários e monitoramento das atividades diárias de pessoas, ele descobriu que o estado mais associado à felicidade é algo que ele chama de flow.
Flow é o que acontece quando você está tão absorvido em uma tarefa que o resto do mundo parece não existir. Pode ser tão simples como um quebra-cabeças ou tão complicado quanto voar de avião, ao passo que produz o que ele chama de "um envolvimento profundo que nos faz esquecer as preocupações e frustrações da vida diária".
Quando estamos no estado de flow perdemos a noção de tempo ou distração, existe apenas uma imersão
completa no momento. Atividades que
produzem esse efeito tendem a ser aquelas que definem limites e metas alcançadas. Não há satisfação em fazer um quebra-cabeças que não encaixa, ou ao atirar uma bola de basquete contra uma cesta sem nunca enterrá-la. Felicidade vem de atividades que tenham um começo e um fim e permitam foco total.
Claro que isso é exatamente o que ocorre quando sentamos com um livro, uma revista ou jornal e realmente imergimos no assunto. A grande força do papel está no fato de permitir que a mente se encontre em um estado profundo de paz no qual realizamos nossos melhores pensamentos. Um estado muito mais difícil de ativar quando estamos lendo por meios digitais, onde há informações infinitas e muitas tarefas passíveis de se realizar ao mesmo tempo. Na internet, não há um começo ou fim.
O slogan de uma companhia de mídia digital dos Estados Unidos é "Tudo a todo momento" (Everything all the time). Para mim, esse é um resumo de vida do mundo Google — todos os recursos da terra ao
mesmo tempo, na ponta dos
dedos.
Isso pode ser admirável sob vários aspectos. Mas a infinidade do meio digital é também o seu grande problema. Quando você está lendo um artigo na tela, sua mente está consciente de todas as outras informações separadas de você por apenas um clique — de sua caixa de entrada até as principais e mais recentes notícias, sua conta de banco e bilhões de vídeos no YouTube. Assim, em vez de evitar outras demandas sobre sua atenção durante a leitura, você passa o tempo todo em que está em frente à tela as repelindo.
Quando o mundo se torna cada vez mais digital e, assim, interligado, o papel tem uma arma secreta sobre a qual ninguém jamais comenta: está desconectado da rede digital. Temos a tendência de pensar nisso como uma falha, mas quanto mais trabalhava no Hamlet´s Blackberry, mais considerava isso como uma qualidade. Uma propriedade sobre a qual o valor está sendo progressivamente comprovado.
Em um mundo multifuncional onde a concentração
absoluta se torna cada vez mais difícil
de ser alcançada, acredito que o isolamento da mídia impressa a partir da web é uma força emergente. O papel ainda aponta para a consciência, um escape para a interminável ocupação e apreensão da tela. "Uma ilha em meio ao caos."
Em vez de "Tudo o tempo todo", o slogan do papel poderia ser "Apenas esta única coisa" (Just this one thing).
Então, você pode estar se perguntando, e o que dizer dos jornais? Se o papel é tão bom em nos ajudar a ativar o estado especial de consciência que descrevi acima, por que as pessoas não estão abandonando suas telas e se concentrando na produção dos jornais?
Não é todo mundo que deseja encontrar uma "ilha em meio ao caos"?
Acredito que sim, mas não é a única coisa que as pessoas desejam na vida. Há uma razão pela qual gastamos tanto tempo de olhos atentos às nossas telas. Elas nos trazem as informações que precisamos — para realizar nossos trabalhos, concretizar algumas coisas para nós mesmos e
nossas famílias, viver nossas vidas.
Grande parte dessa informação está bem adaptada para o formato digital. Quando queremos algo de forma rápida e eficiente, a tela é a opção mais lógica. O e-mail é um dos casos: ler rapidamente, replicar e passar para a mensagem seguinte. Pagar contas e checar preços de ações também são atividades perfeitas para a tela.
A mídia pode ser a mensagem, como Marshall McLuhan notoriamente afirmou. Mas de forma muito prática, nós também optamos pelo meio que melhor adapta a mensagem ou o conteúdo comunicado.
Quando isso acontece, há outra forma de conteúdo que funciona muito bem na tela: as notícias.
Como todos sabem, os jornais publicam muitos tipos de diferentes notícias, da cobertura política aos obituários, de resultados esportivos às colunas de opinião. No Hamlet's Blackberry reduzo todas notícias a duas categorias básicas:
Número 1: Hard news, sobre eventos locais, nacionais e internacionais, a maioria relativamente curta, direta
e de fácil digestão.
Número 2: Tipos de
conteúdo "mais lentos", como reportagens especiais, investigativas, perfis, críticas e comentários.
A cultura tradicional das redações de jornal é dividida em linhas similares. No coração do jornal estão repórteres e editores que lidam com o hard news e notícias de última hora — homens e mulheres que, na era pré-internet, eram vistos se movendo rapidamente para todos os lados e para os telégrafos como baratas.
E então há os jornalistas que se aprofundam mais no assunto, os colunistas, escritores de editoriais, críticos e investigadores que trabalham com objetivo não tanto de reportar o mundo, mas para dar sentido a ele. Essa é uma distinção crua, claro, e a maioria dos jornalistas são uma mistura desses dois tipos. A questão é que, como instituições, os jornais sempre tiveram essa personalidade dividida.
As duas perspectivas estavam juntas no papel, porque, por séculos, este era o melhor meio disponível para enviar e receber ambos os tipos de
"mensagens" — hard news e as mais lentas,
de plantão ou interpretativas.
No entanto, quando os jornais foram para a internet, houve uma ruptura. As duas categorias de notícias foram efetivamente separadas. O formato online, que é tão rápido e eficiente, é perfeito para o hard news. Leitores, naturalmente, migraram para a web para obter esse tipo de informação. Mas para esses mesmos leitores — incluindo eu mesmo —, os conteúdos "mais longos" e desenvolvidos em profundidade ainda parecem pertencer ao papel.
Todo mundo sabe sobre o que estou falando. É complicado ler artigos mais longos na tela. Ficamos impacientes e desejamos ir para outras páginas. Com freqüência, me vejo imprimindo algumas partes para ler mais tarde, quando tiver tempo para sentar com as páginas e mergulhar em um estado de flow.
O que estou dizendo é que o êxodo de público dos jornais não é uma rejeição ao papel, mas uma objeção em usá-lo para hard news e outros conteúdos utilitários e de rápida leitura, que acrescentam
pouco, ou nada, depois que chegam
nesse formato.
Hard news é, claro, o coração do seu negócio, a principal razão pela qual leitores vão até você. Há um motivo por que eles são chamados de newspapers (jornais, em inglês, mas literalmente também "notícias em papel"), e não easypapers (papéis fáceis). E por ser essa a principal missão, jornais em muitos países se encontram em dificuldades financeiras. Não preciso dizer que nos Estados Unidos a versão digital dos jornais não gera os mesmos rendimentos com anúncios e outros benefícios que o jornal em papel tradicionalmente trazia. Acredito que o mesmo ocorre em muitos outros países.
Quando os dois lados da cultura dos jornais foram separados, o lado que dirige a concessão acabou na mídia não tão lucrativa. Então, todo o empreendimento ficou ameaçado.
Qual é a resposta? Sinceramente, não sei. Uma possibilidade é a nova tecnologia. Como todos sabem, tenho certeza, numerosas empresas de alta tecnologia nos Estados Unidos, na Ásia e na
Europa estão trabalhando em novas
descobertas que efetivamente imitam o papel. Eles são finos, flexíveis e maleáveis como o papel tradicional, mas têm no seu interior a tecnologia digital wireless (sem fio), o que os torna regenerável, como a projeção em tela.
Tenho testado algumas dessas tecnologias e-paper e, apesar de serem promissoras, acredito que ainda não estejam onde necessitam para que os consumidores as adotem amplamente.
Algum dia, no entanto, espero que tenhamos uma folha e-paper que pareça exatamente como "o antiquado" papel. Quando esse dia chegar e tivermos um mídia que tenha o melhor de ambos os mundos, poderia ser possível aproximar novamente os dois lados da cultura do jornal na mesma "página". Ao mesmo tempo, algo valioso também será perdido. Se o papel passar a ser um meio conectado à web, não conseguiremos mais nos separar do mundo eletrônico — assim, ele não poderá mais nos oferecer um lugar tranqüilo longe de nossa confusa vida digital. A menos que nos disciplinemos a desplugar
nosso e-paper e ler o
conteúdo em modo offline, o que é difícil de se imaginar.
Existe uma grande ironia na efervescente busca atual pelo e-paper. Os mais promissores candidatos a substituir o papel são as tecnologias que estão se empenhando para serem mais e não menos, como o real. Papel é o objeto, o irresistível objetivo dessas tecnologias. Essencialmente, elas estão tentando se transformar em papel. Acredito que o e-paper se tornará popular para o público somente quando for indistinguível, no sentido físico, do próprio papel. É por isso que acredito que o papel é "eterno".
Outro passo útil para os jornais seria o aumento da conscientização do público exatamente para esses tipos de questões. Boa parte da cobertura midiática de tecnologias digitais são interpretadas como produtos de marketing. Novos dispositivos digitais estão disponíveis, e jornalistas os cobrem da mesma forma que o fazem com os novos filmes. Há um tom de estímulo para todo exercício, um ar de exagero, publicidade.
Concentrando-se
quase que exclusivamente no que é novo e quente no mercado de tecnologia, nós estamos perdendo uma visão mais ampla. Não estamos ajudando as pessoas a compreender e organizar suas vidas tecnológicas. Acredito que essa é uma área em que o público deseja observação e orientação, o que não está recebendo. É fundamental aprendermos a pensar de forma mais inteligente sobre nossos dispositivos. Não apenas como funcionam, mas como se encaixam em nossas vidas. Necessitamos ter certeza de que os dispositivos funcionam para nós, em vez de nós funcionarmos para eles.
As páginas de opinião dos jornais são preenchidas com comentários sobre o governo e política, que certamente são assuntos importantes. Ainda assim, me admiro de nunca ter visto uma página de editorial com uma coluna regular sobre essa outra importante força em nossas vidas — a tecnologia. Isso está na mente de todas as pessoas agora. Está reformulando o modo como vivemos, assim como o governo o faz.
Uma vez
questionei um editor de um
jornal nacional por que não havia mais colunas desse tipo. Ele disse que algo assim nunca venderia em Kansas City. Acho que ele está errado. Acredito que o assunto interessa muito às pessoas de Kansas City e Paris e Praga e Johannesburgo e Sydney e Mumbai e Seul e Santiago, e qualquer outro lugar.
Sei que todos vocês estão trabalhando muito para lidar com o problema que destaquei, a dificuldade de transformação do antigo jornal em duas mídias muito diferentes. Muitas redações têm repensado a forma como o conteúdo é dividido entre o hard-copy do jornal e a versão online, distinguindo mais claramente esses dois. Alguns jornais americanos têm feito propositalmente o jornal de papel um veículo para um conteúdo "mais lento", em vez de hard news. Ouvi dizer que isto está acontecendo também na Europa, com alguns resultados promissores.
Talvez quando nossas vidas digitais se tornarem ainda mais frenéticas e exaustivas, uma nova demanda surgirá para exatamente esse tipo de
publicação, para esta "ilha
em meio ao caos" que se tornou o papel. Certamente, posso imaginar mais ou menos esse futuro.
Tradução: Mauro Belo Schneider, Patrícia Oliveira e Régis Machado
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