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 | 04/11/2009 | 04h19min

Feira do Livro debate onda de terror contemporâneo

Mesa homenageia os 200 anos de nascimento de Edgar Allan Poe

Priscila Montandon | priscila.montandon@zerohora.com.br

Se Edgar Allan Poe fosse vivo, sentiria, no mínimo, surpresa ao ver o gênero consolidado por ele voltar aos parâmetros anteriores a sua obra.

O precursor da narrativa de horror, que subverteu os moldes da literatura gótica e seu moralismo, talvez se divertisse com a nova vampiromania protagonizada por adolescentes virgens em histórias cheias de lições de moral e sempre atadas a um final feliz. Em Crepúsculo, série que seduziu milhares de jovens leitores pelo mundo em livros e no cinema, os personagens principais, que escondem identidades monstruosas, são certamente mais bonitos do que a mente de Poe poderia supor numa história de horror.

Adolescentes opinam sobre o sucesso de Crepúsculo:

Ontem, numa mesa redonda dedicada aos 200 anos de Edgar Allan Poe e incluída na programação da Feira do Livro, quatro participantes discutiram a trajetória do escritor americano, suas narrativas e desdobramentos. Do Conde Drácula até a série Crepúsculo, da escritora Stephenie Meyer. Para José Francisco Botelho, mestre em Letras e jornalista, sem o novo parâmetro estabelecido por Poe, na primeira metade do século 19, ao quebrar o didatismo, o moralismo e a alegoria do gótico, não haveria o gênero que vemos agora:

— Poe demonstrou que o mal nasce no humano. Ele não tratava o mal do ponto de vista da pessoa. Já o gótico falava do mal que cerca o indivíduo.

Muito antes de Crepúsculo, Drácula, de Bram Stoker, abordava um vampiro imortal, monstruoso, e desconhecido. Agora, como observou outro debatedor da mesa de ontem, o mestrando em filosofia da UFRGS Napoleão Schoeller, a perspectiva se inverteu:

— O que se vê é a dificuldade de o vampiro se relacionar com o mundo humano. É a humanização do vampiro. O herói é o vampiro.

Crepúsculo gira em torno do romance entre uma garota humana e um vampiro que, com mais de cem anos, mantém feições adolescentes e frequenta a escola secundária. O segundo filme da série, Lua Nova — a estreia mundial será dia 20 de novembro —, conta a história de Bella (Kristen Stewart), que se apaixona por Edward (Robert Pattinson).

O físico e escritor Rafael Bán Jacobsen relaciona o surgimento da literatura gótica com a industrialização — “se a realidade é fria, é natural que se busque o oposto, algo na esfera do desconhecido” — com o atual terreno fértil para o florescimento da literatura de Crepúsculo com o boom tecnológico.

— O fortalecimento da realidade virtual talvez explique esse interesse pelos vampiros — diz o escritor, lembrando que Crepúsculo volta ao gótico original, com lições de moral e final feliz.

Se a vampiromania é passageira, ninguém se atreveu a prever, mas a concordância geral é que o gênero do horror não verá a morte tão cedo, seguindo ou não a narrativa de Poe:

— A literatura fantástica é tão antiga quanto o medo. Só vai melhorar — sintetiza Botelho.

5 razões por que Poe ainda é o cara
1. A atmosfera de horror gótico presente em seus contos é uma grande influência ainda hoje.
2. A invenção da literatura policial: Poe é considerado, com as três histórias do investigador Dupin, o inventor da literatura de dedução e elucidação de crimes.
3. O mito do escritor/herói trágico: Poe viveu pouco, morreu aos 40 anos e produziu grande literatura nesse período. Escritor consagrado hoje, morreu em circunstâncias misteriosas, pobre e quase sem quem comparecesse a seu funeral. É, portanto, um personagem cuja vida cheia de elementos patéticos inspira tanto fascínio quanto sua obra de gênio.
4.A Carta Roubada, conto que inspirou o psicanalista Jacques Lacan
5.O Corvo, poema mais popular de Poe, com o clássico refrão “E o corvo disse / Nunca mais”, inspirou poetas tão diferentes como Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes e foi adaptado para o cinema num cômico filme estrelado por Vincent Price e Boris Karloff


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