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 | 11/11/2009 | 07h33min

Fundador do cinema independente americano, "Shadows" completa 50 anos

Filme foi estreia de John Cassavetes como diretor

Rodado sob as leis da improvisação do jazz, sem argumento nem protagonistas claros e com um orçamento mínimo, Shadows, o primeiro filme de John Cassavetes, completa 50 anos hoje, como fundador do cinema independente americano. Em 1959 ainda não havia nem o Festival Sundance nem o Independent Spirit Awards (Prêmio pelo Espírito Independente, na tradução livre).

Na França, emergia a nouvelle vague como revolução da linguagem cinematográfica, mas nos Estados Unidos o ator e diretor Cassavetes inaugurava, com mais modéstia, mas com igual poder de ruptura, a fonte do cinema da qual beberiam cineastas como Jim Jarmusch ou Alexander Payne.

— Quando comecei a fazer filmes, queria fazer cinema como Frank Capra. Mas nunca fui capaz de fazer outra coisa que não fossem estas obras loucas e árduas. No final, uma pessoa é o que é — reconhecia, irônico.

Cassavetes não pretendia fazer um manifesto ideológico, nem havia publicações que sustentassem suas ideias, muito menos pretensões de criar uma escola. Era ele mesmo: um ator e cineasta que comporia sozinho um raro setor criativo na história do cinema, com títulos como Uma Mulher Sob Influência ou Glória.

— Cassavetes construiu, contra tudo e contra todos, uma obra ferozmente pessoal e totalmente distinta do que era feito no cinema americano e, inclusive, no mundial — resumem Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon no livro "50 anos de Cinema Americano".

Shadows foi sua estreia como diretor. O filme foi gravado com uma câmera de filme 16 milímetros nas mãos, em uma Nova York noturna e com um orçamento de apenas US$ 40 mil. O longa fundia o cinema com uma jam session, criando um conjunto fresco e vibrante que foi premiado no Festival de Veneza com o prêmio da crítica.

— Um dos traços originais e muito pessoais de Shadows é sua obstinada recusa a enunciar a temática. Nunca se poderá dizer sobre o que é um filme de Cassavetes, somente que é sobre personagens. Poderemos ver relações entre brancos e negros, mas nunca se enuncia o problema racial — dizem Tarvernier e Coursodon em seu livro.

Levando em conta que nesse ano Ben-Hur ganhou 11 Oscars, Shadows foi um exemplo de ousadia. "Como artista, busco coisas diferentes. Mas, sobretudo, nós artistas temos que nos atrever a fracassar era seu lema de trabalho". Cassavetes queria "superar o simples efeito de realidade para alcançar, por assim dizer, a própria realidade. E justamente porque se aproximou de forma absolutamente convincente a esta ambição, ao mesmo tempo simples e grandiosa, é frequentemente considerado, ainda hoje, um improvisador", afirmam os cineastas franceses em seu livro.

É por isso que "o diálogo em 'Shadows' é tão 'cassavetiano' e mostra um incongruente senso de humor tão semelhante ao que aparece em todos os seus demais filmes", segundo Tavernier e Courduson. Cinquenta anos depois de Shadows, o cinema independente americano vive uma crise de identidade. Nos anos 90, com o auge do Festival Sundance, os filmes "indie" chegaram ao Oscar e se transformaram em negócio para os grandes estúdios, que abriram suas filiais para o público minoritário.

Os irmãos Coen, Todd Solondz, Gus Van Sant ou Tom DiCillo marcaram essa geração, que foi incorporando-se à indústria ou repetindo mensagens já não tão revolucionárias. E assim, o lema "no risk, no award" ("sem risco, sem prêmio", na tradução livre) dos Independent Spirit Awards foi se tornando ultrapassado e surgiram produtos independentes com um tom comercial como Juno. Assim, Shadows volta a impressionar nos dias de hoje, principalmente por sua independência.

EFE


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