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 | 08/04/2008 | 06h45min

Zero Hora flagra fuga de assassino em Porto Alegre

Repórter fotográfica Adriana Franciosi registrou momento em que atirador iniciava escapada

Moisés Mendes | moises.mendes@zerohora.com.br

Esse é o relato de uma execução. Tudo se passa a 20 metros da ONG Movimento Escola da Vida, na Vila Cruzeiro. São 14h10min. A presidente da ONG, Andréa La Porta Moraes, e a coordenadora, Marisane da Silva de Oliveira, vigiam duas crianças que estudam no pátio da entrada.

Ouve-se um tiro. Depois outro e mais outro. As crianças fogem para dentro, onde estão as outras. Silêncio. E mais três ou quatro tiros.

Um rapaz de boné, camisa azul e bermuda amarela sobe a Rua Cruzeiro em disparada para o Sul, em direção à vila Pedreira. Alguém grita:

— Tem dois caídos na esquina.

Andréa e Marisane não viram, mas quem estava por perto viu bem. O rapaz de boné descera a rua, apressado, com uma arma na mão. Na esquina da Cruzeiro com a Rua Dona Cristina, dois homens caminham no mesmo sentido. São surpreendidos pelas costas. O rapaz aproxima-se, tira a arma da cintura, aponta para a nuca do mais velho e dispara. Depois, outro tiro na cabeça do que está ao lado. Os dois tombam. O rapaz volta-se como se fosse fugir, pára e dispara de novo nos homens caídos. No meio da quadra, três comparsas o esperam. Desaparecem a pé enquanto testemunhas buscam refúgio.

A cena que você vê ao lado foi captada pela repórter fotográfica Adriana Franciosi no momento em que o atirador iniciava a fuga. A reportagem de Zero Hora recém havia chegado à ONG Movimento Escola da Vida para entrevistar Andréa e Marisane sobre a entidade que acolhe 81 crianças, muitas delas filhos de envolvidos em crimes. Os tiros interromperam a reportagem.

Na esquina, um homem está morto. Alvise Makoski, 53 anos. O outro, Jonatan Makoski, 18 anos, agoniza. Moradores se aproximam. Mulheres gritam:

— Ambulância, ambulância, pelo amor de Deus.

Jonatan é sobrinho de Alvise. Tem um tiro na nuca, sangra, urra, revira os olhos. Não consegue falar. Alguém diz:

— Te agüenta, guri.

O rapaz tenta se erguer e consegue se sentar. Um mulher se aproxima e implora:

— Te senta, te senta.

O rapaz tomba na rua. Uma moça chega gritando:

— É meu pai, é meu pai.

É Rosemaria, filha de Alvise. Trabalha no mercado König, a uma quadra dali. Aglomeram-se ao redor dos dois homens, socorrem Rosemaria. Alvise está de sapatos, calça azul, camisa branca. Na mão esquerda, um isqueiro verde. A filha diz que ele estava arrumado para ir ao Postão do SUS na Cruzeiro para tirar a pressão. A filha nota que a capinha de couro do celular, na cintura do pai, está vazia:

— Levaram o celular dele.

Chega mais um filho de Alvise. É Marcos, 26 anos. Tenta se aproximar do pai e é impedido por um policial militar. A ambulância não chega. Jonatan, de tênis, jeans e uma camiseta preta, se debate, resiste. Outro filho de Alvise se aproxima chorando. É Alvise Júnior. Conta que o pai tinha um barzinho. O barzinho se chamava Bar do Júnior, por causa do filho. Morava na Rua Guerreiro, 260, na Pedreira, bem perto dali. Júnior diz que Jonatan chegou de Erechim no sábado à procura de emprego de auxiliar de pedreiro. Estava parando na casa de uma tia, na Cruzeiro. Adão José do Rosário, vizinho e amigo de Alvise, repete:

— É uma tragédia. O mundo atual é todo assim, não é só na Cruzeiro.

Às 14h20min, policiais militares socorrem Jonatan. A ambulância encosta na esquina cinco minutos depois. Uma moça põe uma máscara de oxigênio no rapaz. Jonatan é levado para a ambulância.

Sabe-se, pelos comentários, que Alvise tinha cinco filhos e era um homem de bem. Que Jonatan nasceu ali por perto e se mudou depois para Erechim. Rodrigo, 29 anos, sobrinho de Alvise chora:

— Era um cara que não incomodava ninguém. Eu fui criado por ele.

Alex Silva, outro vizinho de Alvise, diz:

— Ele gostava de um baile.

PM diz que a guerra do tráfico pode ter matado inocente

A ambulância continua parada com Jonatan dentro. A aglomeração dissemina a interrogação: por que mataram Alvise e feriram o sobrinho que há muitos anos não morava ali? O capitão da BM Julio Cesar de Ávila Peres circula ao redor do cadáver e admite: tiro na cabeça, pelas costas, tem as características de execução, de vingança. O sargento Mário Bandeira, que policia a região há três décadas, levanta uma suspeita. A guerra do tráfico atingiu os homens errados:

— Ele (Jonatan) é novo aqui e caminhava em um trecho que é fronteira entre gangues de traficantes.

Mas por que alguém mataria o ex-pedreiro e bolicheiro Alvise, morador há 30 anos da Pedreira, conhecido na vizinha Cruzeiro? Alvise foi o primeiro a ser acertado. Ele e Jonatan não teriam registros de passagens pela polícia.

Perguntavam a Marcos, o filho do bolicheiro, o que teria acontecido e ele respondia:

— Não sei, não sei.

Marcos sentava-se na calçada perto do corpo, consolava a irmã Rosemaria e se mostrava constrangido com a exposição do corpo do pai. Quando a ambulância sai para o Pronto Socorro com Jonatan, o rapaz recomenda a alguém:

— Busca um lençol lá em casa.

Trazem o lençol, que Marcos abre sobre o corpo do pai, mas é interrompido por um perito:

— Não, não, não cobre.

O filho larga o pano sobre a calçada e murmura:

— Queria ver se fosse o teu pai.

Uma proteção de plástico é colocada sobre o corpo de Alvise.

Até as 13h40min de hoje, Jonatan continuava internado no Hospital de Pronto Socorro. Ontem mesmo, o delegado Rodrigo Bozzetto, adjunto da Delegacia de Homicídios, ouviu moradores da Cruzeiro, na tentativa de identificar o atirador pela fotografia de ZH. Ninguém reconheceu o rapaz que aterrorizou a ONG Escola da Vida, criada há 25 anos pela educadora Denise Micelli da Silva para ajudar a salvar crianças da redondeza.

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Com a arma na mão direita, assassino corre depois de matar um homem e ferir outro na Vila Cruzeiro, em flagrante registrado pela fotógrafa Adriana Franciosi de dentro de carro de ZH
Foto: Adriana Franciosi

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