Este texto exaltará uma obviedade em sua primeira frase: Denzel Washington é um gato. A segunda talvez traga uma informação nova: Denzel Washington é lindo também ao vivo, e não apenas na tela da tevê ou do cinema. Aos 57 anos, há quase 30 dedicado ao casamento com Pauletta Washington e a seus quatro filhos, o ator está entre os nomes mais reverenciados de Hollywood, que atraem público e crítica mesmo para suas escolhas mais questionáveis.
O Voo (Flight) estreou no início de novembro nos Estados Unidos, empolgando jornais e revistas a ponto de incluir o ator entre suas apostas para o Oscar. Os episódios que pontuam sua fase mais exuberante como celebridade – conquistou as estatuetas de melhor ator por Dia de Treinamento (2001) e de melhor ator coadujante por Tempo de Glória (1989) – estão a mais de uma década de distância, mas ajudam a entender a boa acolhida para sua competente atuação como o piloto Whip Whitaker.
Estava na hora de o bonitão (esta reportagem começa a flertar com a redundância antes mesmo do final do segundo parágrafo) emocionar outra vez depois de um percurso irregular nos últimos anos, que incluiu o bom O Gângster (2007) e também O Livro de Eli (2010), ficção científica que pouca gente comentou.
Dirigido por Robert Zemeckis, O Voo estreia no Brasil em 8 de fevereiro e tem no roteirista sua grande inspiração. John Gatins revolveu os próprios terrores para compor Whip, combinando o medo de voar e as lembranças restantes de uma juventude inebriada pelo alcoolismo. Bebedor compulsivo que se sustenta também em algumas carreiras de cocaína, o protagonista, amargando um divórcio doloroso e uma relação conflituosa com o filho, opera um milagre no céu.
Em uma manhã de ressaca, no trajeto curto entre Atlanta e Orlando, Whip tem que domar a aeronave ao cruzar uma tempestade. O alívio irrompe no aplauso dos passageiros, mas logo é trocado pelo pavor de uma pane que forçará o capitão a voar de cabeça para baixo e improvisar o pouso em condições técnicas absolutamente precárias. A sequência é espetacular.
— Foi um prazer embarcar nessa jornada e, de certa maneira, me expor. Visitei alguns lugares sombrios, guiado por um roteiro muito forte — disse Denzel na coletiva de imprensa realizada no hotel Montage, no final de outubro, em Beverly Hills, bairro que concentra os restaurantes, as lojas e as residências mais caras de Los Angeles.
Morrem quatro passageiros e dois tripulantes, de um total de 102 pessoas a bordo. Entre as vítimas, está a comissária com quem Whip passara aquela noite de excessos, cuja breve aparição determinará o desfecho da trama. O personagem de Denzel passa de salvador a suspeito quando um exame detecta álcool no sangue.
A entrevista de 34 minutos reuniu ainda outros nomes do excelente elenco de O Voo — gentilezas à parte, todos se desdobrando em mútuos elogios, não houve espaço para declarações muito profundas. John Goodman (em cartaz no circuito com Argo), o piadista de ótimas tiradas que alegrou o encontro com os jornalistas, e Melissa Leo (Oscar de melhor atriz coadjuvante por O Vencedor, de 2010) têm papéis pequenos, mas imprescindíveis.
Com boa visibilidade depois de muitas interpretações secundárias (como a Maureen de Sra. Henderson Apresenta, de 2005), a inglesa Kelly Reilly é Nicole, fotógrafa consumida pela heroína que se recupera de uma overdose no mesmo hospital onde Whip desperta após o trauma. O piloto logo passa de ídolo nacional a causador da queda, e Nicole, despejada por falta de pagamento, vai morar com ele. Amparada no drama da negação do vício, a trama evita o final mais previsível.
— Não sabia nada sobre dependência química. Tive de sair a campo, mas depois tentei esquecer tudo que descobri. O que estava no roteiro era uma coisa, e entre o roteiro e a minha imaginação entraria a minha maneira de ver Nicole. Era muito importante para mim descobrir a garota que existia por trás da heroína — conta Kelly, 35 anos, que tentou escapar dos estereótipos a partir do contato com um dependente. — Ter aquela ideia de desfalecimento, como se as luzes se apagassem dentro do corpo, e de não querer enfrentar a realidade foi muito interessante para mim — conclui.
Bem-humorado, sempre encaixando um comentário espirituoso nas respostas aos repórteres, Denzel revelou um dos recursos empregados na construção de seu universo fictício: assistir a vídeos amadores postados no YouTube, mostrando o torpor de pessoas alcoolizadas. Nota de breve pesar: depois de pensar e olhar para o teto por oito segundos, o ator desconversou e não respondeu objetivamente ao questionamento desta repórter. Qual julgava ser o aspecto mais interessante de Whip: o compulsivo de vida arruinada ou o herói nacional?
— Oooh. Aaahn... Não sei — começou ele, olhar perdido, para logo emendar uma gracinha, lembrando ter se divertido nos simuladores de voo. — Acho que não trabalho assim. Não observo de fora o que estou fazendo. Quando estou atuando, mergulho.
Denzel acabou destacando o momento mais marcante dos 48 dias de filmagem: de um ponto elevado, ao lado de Hugh Lang (Don Cheadle, de Crash – No Limite, de 2004), seu advogado no longa, Whip compreende a extensão do drama que o aprisiona ao observar o local do acidente. É um baque para o personagem, mas um deleite para o profissional.
— Uau. Esse filme é grande.
* A repórter viajou aos Estados Unidos a convite da Paramount Pictures









