Feito à mão28/02/2014 | 08h07

Em tempos de Festa da Uva, editorial mostra a moda produzida na região serrana do Estado

Material publicado no jornal O Pioneiro revela artistas adeptos ao handmade

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Em tempos de Festa da Uva, editorial mostra a moda produzida na região serrana do Estado Jefferson Botega/Agencia RBS
Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS

Tradições, trabalho, união, miscigenação das nações. Caxias do Sul está tomada pela pluralidade, característica exaltada na 30ª Festa da Uva. E no Almanaque, o tema não poderia passar batido.

Na mesma sintonia da celebração, que é o resultado dessa mistura de etnias, mostramos a diversidade de feitios. Dos nós do macramê às tramas das agulhas de crochê e tricô, dos bordados e aplicações ao tingimento artesanal. O mix das técnicas feitas à mão está enraizado nas criações dos sete verdadeiros artistas da moda escolhidos para ilustrar este editorial. Apesar do estilo peculiar, todos têm uma coisa em comum: o trabalho com as heranças deixadas por povos ou familiares antigos. Tudo isso, costurado cuidadosamente ao amor por fazer, resulta em peças exclusivas, carregadas de histórias e inspirações únicas que podem ser conferidas nas próximas páginas.

Aproveite para fazer uma viagem por diferentes culturas nas belas imagens de Jefferson Botega, com cenografia minimalista da artista Genoveva Finkler.

Ana Casara
Criação de Ana Casara / Foto: Agência RBS

Mesmo trabalhando com macramê há 40 anos, criar a blusa usada pela modelo neste editorial foi um desafio enorme para Ana Casara. A artesã está habituada a produzir toalhas de mesa, de banho e outras encomendas que vende em seu ateliê, em Caxias do Sul. Desta vez, foi desafiada a criar uma coleção minuciosa com 18 looks para um desfile. E essa peça é uma das tramas.

— Comecei a executar essa blusa e, quando vi, estava pronta. Eu sento, tenho uma ideia de como a quero e ela simplesmente sai. Até a conclusão, tem todo um processo de como vou segurar um fio e trabalhar com o outro. As peças em macramê são verdadeiras obras de arte. É um trabalho difícil de estruturar, feito fio por fio. E são peças exclusivas. Você pode ir a Paris que não verá nada igual. — conta Ana, que ainda na infância aprendeu a fazer dois nós e, anos depois, desenvolveu toda uma habilidade para trabalhar com a técnica europeia.

Carlos Bacchi Filho Criação de Carlos Bacchi / Foto: Agência RBS

A ideia inicial não era trabalhar com bordado. Mas, aconteceu. A técnica virou o carro-chefe do ateliê de Carlos Bacchi Filho em Caxias do Sul. E o estilista trabalha com isso tão perfeita e naturalmente bem que faz parecer simples. Mas não é. Exige testes até que o resultado final fique bonito. O belo vestido desse editorial, inclusive, é um protótipo do ateliê. Foi feito sem nenhum compromisso por Bacchi, que, ao imprimir sua assinatura a criações delicadas e femininas, só pensa em tornar a peça uma joia que dure para sempre e não seja vista apenas como uma tendência que sairá de moda na próxima temporada. Tornar os modelos reutilizáveis também é uma preocupação do estilista, que prima pela criação de peças coringas. Outro diferencial do ateliê é o trabalho com materiais nada convencionais. Por lá, é comum encontrar composições com garrafas pet recicladas, sedas ecológicas, tingimentos artesanais com ervas, flores, chás, pêssego.

— Sempre gostei de tecidos artesanais. Foi amor à primeira vista.

Carla Carlin Criação de Carla Carlin / Foto: Agência RBS

Valorizar a mulher com suas criações mega femininas e cheias de detalhes primorosos é, sem dúvida, uma das principais características da estilista Carla Carlin. E a coleção utilizada no editorial não é diferente. São peças para contar histórias, inspiradas no romantismo. Algumas com tingimento orgânico, feito com chá e café, para transparecer a preocupação da marca com o natural e a natureza. Outras, com efeito broderi, remetem ao precioso handmade, ou seja, a técnica de fazer à mão, artesanalmente.

—Elas foram inspiradas nas memórias afetivas de um mundo mais tranquilo, onde tínhamos tempo para ouvir — explicou Carla.

A rainha da Festa da Uva 2014, Giovana Crosa, e as princesas, Karina Furlin e Gabrielle Debastiani, aparecem entre as modelos.

Rafaela Tomazzoni Criação de Rafaela Tomazzoni / Foto: Agência RBS

Rafaela Tomazzoni trabalha com malharia desde que se conhece por gente. Mas foi há cerca de um ano que resolveu seguir a história da família e dar um novo conceito ao seu primoroso trabalho. Ela resgatou o tricô para o seu dia a dia. E o vestido usado neste editorial foi uma das primeiras peças produzidas por ela nesta nova fase, que busca valorizar a arte de tricotar, seja ela 100% artesanal ou industrial. Ao abraçar o feito à mão, Rafaela conseguiu harmonizar perfeitamente a mistura de cores, diversos tipos de fios e novas modelagens. O resultado disso tudo, como se pode ver, são peças cheias de feminilidade e, claro, com identidade única.

—É uma contrapartida ao mercado de lançamentos diários que vivemos hoje. A volta do handmade, a valorização do cuidado em fazer, é uma vertente nova que gosto de chamar de slow fashion — diz a estilista, que acha que mesmo com a invasão do fast fashion ainda há lugar para as coisas novas, atemporais e que não perdem o valor na próxima temporada.

Marinês Castagna
Criação de Marinês Castagna / Foto: Agência RBS

O trabalho manual com fios e agulhas é uma terapia para Marinês Castagna. Os primeiros pontos do tricô e do crochê foram ensinados pela irmã mais velha, ainda na infância, quando ela ainda tinha 13 anos e morava no interior de Antônio Prado. De lá para cá, já se passaram quase 40 anos e, nesse período, Marinês nunca mais parou de entrelaçar os fios. Os pontos são feitos somente nas horas vagas, quando sobra um tempinho entre os afazeres domésticos e o atendimento no depósito de bebidas da família. Belas peças como as usadas na foto, cachecóis, tolhas de mesa, de banho, cortinas e uma infinidade de acessórios para a casa são feitos com todo o amor e dedicação que um trabalho feito à mão necessita. Geralmente, para presentar filhos, amigos e outros familiares.

—É um trabalho de amor. Gosto de olhar fotos na internet e revistas para buscar inspirações. Aí eu sento e começo a dar forma à minha peça.
 

Carolina Potrich
Criação de Carolina Potrich / Foto: Agência RBS

Ela adora tudo que é mais difícil. Gosta das coisas que demoram a ser feitas. Que exigem atenção e paciência de quem está produzindo. Por isso, a designer de moda Carolina Potrich escolheu o crochê para ser a base do seu trabalho. E quem olha a beleza e a perfeição de uma peça produzida por ela não consegue imaginar que Carolina é uma recente amante da arte do slow fashion e do feito à mão. O gosto pela técnica é de família, mas a paixão mesmo começou em julho do ano passado, quando ela deu início ao seu trabalho de conclusão do curso de Designer de Moda na Universidade de Caxias do Sul. Nesse período, ela conheceu o Manifesto Analógico com Lola, um projeto que reúne 365 propostas analógicas, que sugerem uma pausa para aquilo que só pode ser sentido analogicamente, que sugere sensações, carinho e amor.

—Assim é feita uma peça de crochê. São mãos carinhosas que contam silenciosas histórias, que tecem sentimentos e que possibilitam poesias chamadas de roupas — explica a designer ao comentar que todo esse universo fará parte da sua identidade profissional, que está apenas começando. —A base das minhas peças é o crochê, mas pretendo sempre misturar com tecidos e outras técnicas manuais. Quando retornar ao Brasil, vou colocar em prática todas as inspirações que obtive aqui em Vancouver, no Canadá, e vou criar uma coleção para o lançamento da minha marca.

Lulu Alberti Criações de Lulu Alberti / Foto: Agência RBS

Luciana Alberti trabalha com moda desde sempre. Ela cresceu dentro da malharia da família e passou anos vendo a mãe bordando enquanto a avó tramava crochê. E foi aí que nasceu a relação de Lulu com o mundo da moda. Até aqui, já foram quase 30 anos de trabalho em parceria com grandes grifes, malharias em São Paulo e Blumenau.

A rica experiência agora está centralizada em um trabalho mais particular. Seu forte sempre foi o tricô, herança do trabalho da mãe, mas, entre suas criações também há muito macramê, tie dye, bordado irlandês. O resultado final é um produto diferenciado e minucioso, quase exclusivo, já que o tingimento de uma peça, por exemplo, nunca sai igual ao outro.

—Mesmo com essa história de sites da China, ainda há muito espaço para o que é diferenciado, para criações de coisas novas. Minha produção é pequena, extremamente artesanal, e tem dado muito certo. — conta Lulu, que costuma se inspirar em pessoas e momentos para dar vida às suas criações. —Se eu quero fazer uma peça mais rock, vou buscar a capa de um disco, ouvir uma música. O momento que eu quero eu vou buscar. Agora, estou em busca de uma identidade personalizada.

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