De fato, os cegos enxergam um vazio neutro, meio cinza, que não é preto, nem branco. Alguns percebem a luminosidade do dia, caso de Inês Seidler (na página ao lado, a história dela). Outros só sabem que a noite chegou porque o calor do sol foi embora. É assim para a pedagoga Denise Pacheco.
Apesar da restrição visual, eles percebem o mundo colorido. Deliciosamente vivo, como é para outra cega, Andreia Coelho. Denise, Inês e Andreia têm suas cores preferidas: verde, rosa e azul, respectivamente. São vaidosas, gostam de brincos, colares, salto alto e cores... Muitas cores!
Denise conta que seria mais triste se não passasse seu batom vermelho pela manhã, não escolhesse um os brincos da coleção com 15 peças, e seguisse para o trabalho na Associação Catarinense Para Integração do Cego (Acic). Lá, é conhecida como uma mulher elegante. Foi dela a ideia de fazer o primeiro curso de automaquiagem para cegos em Santa Catarina:
— Foi muito gratificante. Muitas mulheres nunca tinham tocado o rosto. Descobriram-se no curso.
Cega desde os seis anos, Denise, gosta do verde porque lembra de uma sandália verde-limão que tinha e amava. A pedagoga defende a autonomia dos cegos. Não acredita que os deficientes visuais precisem de uma moda específicas: etiquetas em braille, que possam informar sobre cores e tipo de lavagem necessária à peça, são suficientes.
— Nosso corpo é como o de todo mundo. Cada um deve descobrir como escolhe e guarda suas roupas. Eu costumo fazer cortes diferenciados nas etiquetas para identificar cores. Na hora de comprar, vou pelo tato. Tem gente que prefere levar alguém para ajudar — diz.
Eliana Gonçalves, coordenadora do curso de Moda na Udesc, concorda com Denise. Acredita que grifes devem investir em peças mais fáceis de vestir, com menos abotoamento:
— A moda deve ser mais funcional para os cegos. Mas esteticamente não tem por que ser diferente. A deficiência visual não os impede de receber informações sobre moda, apenas a consomem de outra maneira.
Por outro lado, Eliana revela que desconhece marcas que tenham coleções que levem em conta a deficiência visual, disponibilizando, por exemplo, etiquetas em braille. Ela ressalta que o investimento é alto e envolve a cadeia de produção. Por isso, uma coleção para cegos deve ser bem pensada.
Rosa é a cor de Inês
Inês Berlanda Seidler, 31 anos, nasceu cega. Não sabe como são as cores. Mesmo assim, responde rapidamente qual é a cor preferida: rosa. O gosto é influência de Alice, 9 anos, a filha que enxerga perfeitamente. Também uma herança cultural, que tem no rosa a tonalidade destinada às meninas.
A vaidade de Inês é discreta. Gosta de acessórios sem extravagância, como brincos pequenos e colares com pingentes. Para as roupas, costuma usar uma peça de cor forte combinada a outras em tons neutros. Ao tocar os detalhes das peças, sabe a cor das roupas.
— Tenho medo de vestir cores que não combinam. Não é porque sou cega que não vou cuidar da minha aparência — comenta.
Alice é sua consultora de moda, quem diz a Inês se a roupa ficou bonita. Também é a
menina quem maquia Inês, basicamente sombra e blush. O batom, a mãe passa sozinha.
Jeito de estilista
Sentir-se bela é imprescindível para Andreia de Luiz Coelho, 34 anos. Na sala de sua casa, o espelho grandioso toma conta de boa parte do cômodo. E chama atenção, afinal, Andreia é cega desde os 14 anos.
— Quando fico pronta, gosto de ficar na frente do espelho imaginando como estou bonita — afirma.
São duas horas de produção diária, o que inclui cabelo, roupa e maquiagem. Tira sobrancelha, faz limpeza de pele e unhas uma vez por semana. Andreia é apaixonada por azul. Segundo ela, a cor combina com sua personalidade alto-astral. A massoterapeuta aposentada até já brincou de estilista: idealizou uma blusa e mandou fazer na cor azul, decote levemente em V e costas abertas com uma amarração detalhada que fica pendurada até a altura do quadril. A peça fez sucesso, e a costureira vendeu mais modelos.
Andreia também é louca por maquiagem. Maquia-se sozinha e isso inclui corretivo e delineador. Em junho, participou do curso de automaquiagem da Acic e quer fazer outro para aprender mais técnicas. Segura quanto à própria beleza, Andreia sente mesmo falta da visão por dois motivos: gostaria de ler a Bíblia e revistas de moda.
Moda sem exclusão
Geraldo Lima é estilista e professor do curso de moda da faculdade Anhembi-Morumbi, em São Paulo. A inclusão dos cegos na moda começou a ser pesquisada por ele em 2003. Na época, lançou Olhar Olhares, com etiquetas em braille trabalhadas artisticamente nas peças. A pesquisa se estendeu para uma pós-graduação e depois à dissertação de mestrado Conexões Táteis. Ele garante:
— Os cegos são até mais vaidosos do que quem vê.
Donna — A moda dos cegos é diferente?
Geraldo Lima — Não. O estilo é muito pessoal. Tem a ver com a adaptação da roupa à vida de cada um. Os deficientes visuais, muitas vezes, têm o desejo tolhido porque vão fazer compras acompanhados de conhecidos. Essas pessoas acabam dizendo o que fica bom e nem sempre os deixam levar o que gostariam. Na minha pesquisa, não identifiquei nenhuma característica de moda específica para deficientes visuais. Ouvi cerca de cem cegos. Acredito que uma coleção dirigida significaria não incluí-los, mas tratá-los como
diferentes.
Donna - Como é a vaidade para os cegos?
Lima - Eles são até mais vaidosos do que quem enxerga. A vaidade é inerente ao ser humano. Os cegos se preocupam mais porque não podem ver e querem saber como vão se apresentar. Lembro do depoimento de uma moça. Ela disse que andava na rua e ouviu duas mulheres comentarem: "Uma moça tão bonita e tão bem vestida." Depois, ela me disse: "já pensou se eu não estivesse bem vestida?".
Outros sentidos aguçados
O oftalmologista Ademar Valsechi explica que o gosto pelas cores se dá pela memória, quando a pessoa já enxergou e leva consigo a cor que gostava. Ou por fatores psicológicos e culturais, caso de quem é cego desde o nascimento.
Segundo Valsechi, 80% das informações recebidas pelo cérebro chegam pela visão. Quem não enxerga preenche essa lacuna com os outros sentidos, tornando-os mais apurados.
— É claro que não dá para preencher tudo, mas boa parte sim. Os cegos acabam sendo mais sensíveis ao calor e frio, ouvem sons que quem enxerga não ouve — diz.
Valsechi sugere fazer o exercício de ficar com os olhos fechados pelo menos dois minutos. Depois disso, você começará a perceber sons e texturas que nunca tinha notado. O oftalmologista conta que há casos raros, chamados sistema dermato visão. São cegos que desenvolveram sensibilidade tão aguçada com o tato que conseguem indicar a cor a partir do toque no objeto.
— Vi um caso destes num congresso em Belo Horizonte. O homem conseguia dizer que o objeto tendia ao vermelho ou azul apenas pelo toque. Não há explicação científica para casos desta natureza.
Etiquetas em braille
A Haco, empresa catarinense líder no mercado de etiquetas no Brasil, tem etiquetas em braille no seu catálogo. A etiqueta tecida informa a cor do produto, e a sintética, a marca. A ideia surgiu a partir de um trabalho em conjunto com grupos de deficientes visuais, quando foi identificada a carência de produtos que facilitem o acesso destas pessoas ao universo da moda. A empresa analisou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que revelou ter no Brasil 16,5 milhões de deficientes visuais, sendo 160 mil com perda total de visão. A linha foi lançada em 2009, ano que marcou as comemorações do bicentenário de nascimento do francês Louis Braille, inventor do sistema de escrita homônimo.













