Para curar um coração partido, a escritora americana Elizabeth Gilbert embarcou em 2003 em uma viagem por três países que a levou, certa noite, a uma feijoada regada a caipirinha na Indonésia, onde um gaúcho de olhos castanhos bondosos decidiu que aquela mulher seria dele. Sua jornada até os braços de Felipe é o tema de Comer, Rezar, Amar, livro que vendeu mais de 8 milhões de exemplares e virou filme de mesmo nome, com Julia Roberts no papel principal.
Mas ainda há uma história por contar, e que certamente renderia mais um livro: o que levou, três décadas antes, o ginasta José Lauro Nunes a vender o pouco que tinha em Porto Alegre, embarcar em um navio e correr o mundo até fincar raízes em Bali, apaixonar-se por uma escritora americana e passar a ser conhecido por 8 milhões de leitores como Felipe.
:: Galeria de fotos - Conheça José, o amor de Liz
Conhecido em termos. O homem revelado ao mundo é o envolvente exportador de joias separado e pai de dois filhos de Comer, Rezar, Amar e o noivo apaixonado em situação incerta de Comprometida, novo livro de Liz. Mas de José Nunes pouco se fala além do que está nos livros. A começar pelo próprio José Nunes, 58 anos, que prefere não dar entrevistas: com a mesma naturalidade com que Liz compartilha suas memórias e a intimidade do casal com os leitores, ele se reserva o direito de ficar calado. Nem o convite da mulher mais poderosa da TV americana, Oprah Winfrey, o seduziu. A apresentadora recebeu Liz em seu programa e teve de se contentar em mostrar apenas uma foto de José, explicando que ele não viria por ser muito reservado.
Divertido e contador de histórias quando entre amigos, o gaúcho nascido em Redentora, então distrito de Campo Novo, prefere permanecer anônimo diante do público.
Como o José mesmo diz, ele faz parte dessa história, mas o momento é da Liz. Ele não gosta de exposição, e ela respeita isso conta, de Florianópolis, a sobrinha dele Claucia Chevarria, empresária de 48 anos.
É no rastro de José no Brasil que a história de sua vida pré-Felipe toma forma. As memórias de infância de Claucia levam à adolescência de José em Porto Alegre. No início dos anos 1960, os Nunes deixaram Ijuí, onde moravam, e mudaram-se para a Capital caçula de três irmãos, José contava pouco mais de 10 anos. Moraram primeiro no número 524 da Rua Barros Cassal e depois seguiram para a Azenha, na Rua Professor Freitas e Castro, em uma casa nos fundos da oficina que o pai, Lauro Nunes, administrava. O pátio era grande o suficiente para soltar pipa e montar uma cabana no alto de um cinamomo, onde Claucia, que passava a semana com os avós enquanto os pais trabalhavam, lembra de ver o tio brincar de tiro ao alvo.
Apenas 10 anos mais velho, José era como um irmão para a sobrinha, que ele costumava "envelopar" com cobertores no inverno e levar para tomar banho nas piscinas do Grêmio Náutico Gaúcho no verão e a quem, antes de sair, fazia um apelo inútil para que não mexesse nas suas coisas. Como o dinheiro era curto, desde que Claucia pode se lembrar, o tio já trabalhava. Enquanto cursava o Ginásio no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o Julinho, fazia bicos, como recolher ossos de animais em açougues e matadouros para vender para fábricas de cola e juntar sucata para ganhar uns trocados no ferro velho, e treinava ginástica artística.
A julgar pela memória do casal de amigos e ex-ginastas Carlos Pinent, 67 anos, e Sílvia Pinent, 63, José chegou à Sogipa, por volta dos 16 anos, provavelmente indicado por um amigo de escola. Naquela época, os ginastas não começavam a treinar ainda crianças, como hoje, e José conseguiu entrar para a equipe do clube e ganhar campeonatos. O recém-chegado impressionou os amigos com suas boas maneiras e a vontade de saber mais e mais, e logo virou parceiro de cinema do então casal de namorados. Juntos, assistiam a filmes e, uma vez por mês, para não pesar no bolso, costumavam ir ao restaurante chinês Lokun, na Avenida Venâncio Aires. Numa dessas ocasiões, José comentou:
Um dia, ainda vamos sentar em um restaurante e tomar um bom vinho. (Promessa que ele cumpriria em 2008, quando os três encontraram-se em Florianópolis e ele convidou Carlos e Silvia, agora professor universitário e bióloga aposentados, para um jantar regado a vinho.)
Em 1970, os três amigos embarcaram em um navio com a equipe de ginástica rumo à Argentina, onde participaram de um amistoso interclubes. Aos 18 anos, José era um rapaz boa-pinta, mais paquerado que paquerador.
Era um cara carismático diz Carlos.
E ainda é carismático e bonito completa Silvia.
Quando voltaram da Argentina, José passou a trabalhar como técnico auxiliar de Silvia no treinamento de ginastas da Sogipa. Mas seus planos já eram de embarcar em um navio rumo à Europa. Ele queria literalmente conquistar o mundo.
Era parte aventura e parte a ideia de que essa viagem lhe garantiria mais cultura e dinheiro lembra Silvia.
José juntou o que pôde com seu trabalho e a venda de uma moto 50 cilindradas e de outros pertences. Amigos e parentes fizeram uma vaquinha para ajudar a garantir a passagem e um pé-de-meia de US$ 300. Perto do dia do embarque, Carlos lhe entregou mais uma quantia, equivalente hoje a R$ 100.
Carlos, não sei se um dia vou poder te pagar disse José.
Mas não é um empréstimo respondeu o amigo.
Aos 20 e poucos anos, José ganhava o mundo. Peregrinando por diferentes países, foi garçom e lavador de pratos, atuou na construção civil e até trabalhou num Kibutz em Israel. Na Suíça, ganhou um bom dinheiro como funcionário de uma galvanizadora, até decidir seguir viagem, apesar do chefe insistir para que ele ficasse. Passado algum tempo, quando Claucia estava grávida da filha mais velha, Gabriela, que hoje tem 32 anos, José voltou ao Brasil para visitar a família. Trouxe na mala um enxoval para o nenê e fotos dos lugares por onde passara. Já então falava inglês, francês e alemão.
Parte do projeto dele estava realizado avalia Claucia.
Esperar, refletir e... casar

Elizabeth Gilbert reflete sobre a instituição do casamento no novo livro, Comprometida
José queria mais. Passado um mês, caiu no mundo novamente. Em suas andanças, conheceu a primeira mulher, uma profissional liberal australiana com quem se casou, teve dois filhos hoje adultos, Zo e Erica, e montou um lar na Austrália. Depois de 17 anos juntos, eles se separaram. José voltou para a estrada e acabou se fixando em Bali, na Indonésia, trabalhando com importação de pedras preciosas e joias do Brasil, em parceria com ourives locais, para exportá-las para os EUA.
Quando o tio voltou ao Brasil outra vez, Claucia achou-o muito solitário, diferente do homem alegre, centrado e apaixonado por seus projetos que ela conhecia. Depois de se despedir de José no aeroporto de Florianópolis, onde agora morava com a família, a sobrinha se arrependeu de não ter insistido para que ele viesse de vez para o Brasil. Mas, ainda que o próprio José cogitasse a ideia, ele voltou a Bali, onde, dois anos depois, certa noite preparou uma feijoada para amigos e conheceu uma americana chamada Elizabeth Gilbert. Hoje, Claucia fica pensando o que teria acontecido se ela tivesse convencido o tio a deixar Bali em definitivo:
Se a gente mudasse o curso dessa história, eles não iriam se encontrar.
Mas, como leitores do mundo inteiro sabem, o encontro se deu. Na nova visita que fez à sobrinha, enquanto Liz estava nos Estados Unidos escrevendo o que viria a ser Comer, Rezar, Amar, José contou a novidade: havia conhecido a mulher da vida dele. Não demorou para Claucia conhecê-la. Antes de Liz se tornar um fenômeno mundial, José levou a escritora a Florianópolis para apresentá-la a sua família. E Claucia se impressionou com o que viu:
Era um casal perfeito. É uma palavra forte, né? Mas acho que existe uma dose muito grande de perfeição ali.
A perfeição foi quebrada por um episódio em 2006 que deu origem ao livro Comprometida. Em uma das idas e vindas de José aos Estados Unidos, onde morava parte do tempo com Liz, ele foi barrado pelo departamento de imigração. Naquele instante, o casal de namorados descobriu que teria de se casar para ele ter alguma chance de voltar ao país. Iniciava-se ali um longo processo burocrático que levou meses até se resolver. Assim, a longa jornada de José teria como destino final os EUA.
Hoje, marido e mulher levam uma vida tranquila em Frenchtown, Nova Jersey. Liz escreve, caminha, cuida do jardim e faz ioga, e José se dedica à loja Two Buttons, de objetos e móveis vindos de Ásia, para onde viaja em busca de novidades. E ele segue preparando receitas na cozinha, como aquela feijoada que marcou o início de tudo.
Um final feliz. Ou, como diz Claucia, que visitou o casal em junho: depois de tanta aventura, "um final feliz normal".
Um dia, ao desembarcar em seu país com o namorado estrangeiro, uma mulher descobre que o departamento de imigração vai deportá-lo. Para ter alguma chance de ele voltar, diz o agente, eles precisam oficializar a união. O problema é que ambos, depois de divórcios traumáticos, haviam jurado nunca mais se casar.
O que fazer? Se a mulher em questão se chamar Elizabeth Gilbert, autora do livro de memórias que se tornou fenômeno mundial, Comer, Rezar, Amar, a resposta é fácil: contar tudo em um novo best-seller. O resultado é o livro Comprometida (Objetiva, 240 páginas, R$ 33,90), recém-lançado no Brasil.
A espera de meses até resolverem-se todos os trâmites burocráticos para garantir a volta de José Nunes aos EUA transformou-se em reflexões sobre o casamento em diferentes culturas e épocas: sem meias palavras e em seu estilo fluido, Liz confessa sua ambivalência em relação ao tema em um livro que privilegia mais o fluxo de ideias do que a ação. Enquanto ela e José viajam de mochila nas costas pelo sudeste asiático, pulando de um quarto de hotel de US$ 18 para outro, a autora faz sua jornada particular, entrevistando mulheres de aldeias locais e mergulhando em livros sobre casamento em um genuíno esforço de fazer as pazes com a instituição do matrimônio.
Ao longo de oito capítulos, Liz faz um inventário dos prós e contras. Mais contras, na verdade. Por exemplo, as expectativas desmedidas que pesam sobre o parceiro no mundo ocidental (ao contrário das mulheres do povo nômade hmong, que acharam graça quando ela perguntou como souberam que estavam apaixonadas pelo futuro marido). Ou o quanto as mulheres historicamente abrem mão de seus desejos em nome da família e o quanto os homens também são obrigados (ainda que em menor medida) a cumprir determinados papéis. Mas não faltam depoimentos de que, a despeito de tudo isso, casar vale a pena por outra infinidade de motivos.
Assim, Comprometida também pode ser lido como um inventário dos votos de casamento de Liz: não exigir que José garanta sua felicidade, não deixar de ser ela mesma, aprender a conviver com os defeitos dele, entender que não é preciso se adaptar à instituição casamento, mas, sim, construir um casamento ao estilo dos dois.
Ao fim, como já anuncia o título do livro, Liz se casa com José, agora um cidadão bem-vindo aos EUA. Como no ditado brasileiro, que eles costumavam repetir um para o outro enquanto o visto não vinha: quando casar, passa.
José por Liz
"Amo esse homem. Amo-o por incontáveis razões ridículas. Amo os seus pés quadrados, robustos de hobbit. Amo o jeito como sempre canta La vie en Rose quando está preparando o jantar. (Nem preciso dizer que amo que ele faça o jantar). Amo o modo como fala um inglês quase perfeito, mas, mesmo depois de todos esses anos usando o idioma, ainda consegue inventar algumas palavras maravilhosas. (Smoothfully, "de um jeito cheio de suavidade", é uma das minhas favoritas).
Trecho de "Comprometida"
Ele é grisalho e está perdendo os cabelos de um jeito atraente, à la Picasso. Seus olhos são calorosos e castanhos. Ele tem um rosto gentil e um cheiro delicioso. E é um homem maduro de verdade. (...) Gosto de suas demonstrações exageradas de afeto à moda brasileira. (...) Gosto de ele ter viajado para mais de cinquenta países na vida e de ver o mundo como um lugar pequeno e facilmente administrável. Gosto da maneira como ele me escuta, aproximando-se, interrompendo-me apenas quando interrompo a mim mesma para perguntar se o estou chateando, ao que ele sempre responde: 'Tenho todo o tempo do mundo para você, minha querida linda'.
Trecho de "Comer, Rezar, Amar"













