A cadelinha Paty, uma mistura das raças pinscher e dachshund (salsicha), sempre demonstrou ter instinto materno aguçado. Chegou a cuidar dos filhotinhos de uma outra moradora da casa como se fossem seus. Mais tarde, a cadelinha de 3 anos convenceu a família Castro — responsável por ela — de que estava prenha.
Foram quase dois meses de suposta gestação, com direito a sintomas clássicos, como crescimento da barriga e até produção de leite. No entanto, quando Paty daria à luz, o diagnóstico impressionou: a cadela passava por uma pseudogestação, também conhecida como pseudociese. Trata-se de distúrbio hormonal, diferente de problemas como depressão, medo e estresse, que são ligados ao comportamento.
Assim como Paty, muitas cachorrinhas se dedicam completamente a uma gravidez que não existe. Segundo a veterinária e especialista em comportamento animal Rúbia Burnier, a pseudogestação é causada pela persistência do corpo lúteo após a ovulação e pelo aumento de progesterona, mesmo sem a fecundação ter ocorrido.
– A cadela passa a apresentar os sintomas típicos de uma gestação, como ficar ansiosa, comer mais, ter distensão abdominal e ficar sonolenta – afirma a especialista.
Demonstrar posse e proteção exagerada, principalmente com objetos pequenos — sapatos, camisetas e bichinhos de pelúcia — também são sintomas de uma falsa gravidez.
De acordo com a veterinária, a melhor maneira de prevenir a falsa gestação é a castração — retirada do útero e dos ovários. É uma maneira de evitar o período de cio e favorece a cadela quando o dono não pretende que ela reproduza. Mas não há motivos para se preocupar com o emocional do animal em casos assim.
– Não existe frustração da parte dela, como muitas pessoas acreditam. Fazê-la cruzar para ficar prenha não vai deixá-la melhor, isso se encaixa somente aos humanos – garante Rúbia.
Casos mais sérios
Diferentemente da pseudogestação — de fundo hormonal —, o estresse e a ansiedade estão ligados aos chamados desvios de comportamento dos bichinhos de estimação. A hiperatividade, as fobias mais graves e a agressividade também são diagnosticadas como distúrbios e devem ser tratadas para que os pets — e os donos — não sofram.
Diversos fatores podem causar distúrbios comportamentais. Entre eles, ciúme, dependência excessiva do dono, dificuldade de adaptação e falhas na criação. Em casos de separação do dono, por exemplo, alguns cachorros e gatos chegam a ter diarreia e taquicardia, e precisam ser medicados para que a tensão seja controlada. Para casos assim, a especialista Rúbia Burnier recomenda tratamentos como socialização, exercícios físicos, terapia e adestramento do animal. Alguns bichos, com problemas relacionados ao medo, só de ouvir o barulho de fogos de artifício começam a tremer e precisam ser medicados.
Os problemas podem estar relacionados a agressividade, ansiedade, medos e até a alimentação. “A obesidade é tratada como desvio comportamental nos animais”, exemplifica Rúbia. Não raramente, o quadro pode evoluir para danos físicos. “É o caso do comportamento estereotipado, quando o animal precisa aliviar uma tensão interna e corre de um lado pro outro, ansioso, porque quer sair do local onde está, mas está preso”, explica. “Ele bate na parede, tentando sair, e se machuca todo.”
Principais distúrbios comportamentais dos cães
Agressividade
Causas: ciúme, posse, defesa territorial, defesa da cria, baixa socialização, característica herdada dos pais, criação violenta, medo e timidez.
Tratamento: adestramento de obediência, socialização, exercícios, mudanças de manejo, medicamentos ansiolíticos, massagens.
Consequências: frustração, conflito de sentimentos, acidentes dentro e fora de casa, isolamento do animal e abandono.
Estresse e ansiedade de separação
Causas: excessiva dependência do dono, distúrbios neurológicos, traumas, abandono, solidão, baixa socialização, medo e timidez.
Tratamento: check-up físico, ansiolíticos, mudanças
de manejo, terapia, adestramento, socialização, lazer e exercícios físicos.
Consequências: estresse, baixa resistência, perda da qualidade de vida, frustração e sentimento de culpa, aprisionamento do dono.
Problemas de eliminação (marcação territorial, xixi e cocô no lugar errado, comer fezes)
Causas: personalidade dominante, competição
por status, criação permissiva, treino de higiene
insatisfatório, hormônios sexuais.
Tratamento: vigilância, correção imediata, prevenção, re-educação e treino de higiene, castração, adestramento e terapia (lazer, exercícios, atenção).
Consequências: frustração, danos materiais (urina corrosiva), perda de paciência, violência, isolamento do animal.
Medos e fobias
Causas: genética, traumas, distúrbios neurológicos, condicionamento na criação, baixa tolerância a estímulos.
Tratamento: terapia (dessensibilização), medicamentos, adestramento, socialização, lazer e exercícios.
Consequências: frustração, culpa, superproteção, abandono.
Comportamentos destrutivos / estresse / hiperatividade
Causas: tédio, ociosidade, solidão, distúrbio neuronal, ansiedade excessiva, característica de temperamento, falhas na criação, dificuldade de adaptação.
Tratamento: terapia, adestramento, socialização, exercícios, lazer, mudanças de manejo e dieta, enriquecimento ambiental, atenção, contato, medicamentos.
Consequências: irritabilidade, violência, frustração, conflitos entre vizinhos, isolamento do animal, abandono.
Distúrbios compulsivos / estereotipias / lambeduras / automutilação
Causas: neurológicas, emocionais (ansiedade e estresse), hormonais (cio), dificuldade adaptativa, ociosidade, dependência, frustrações e desejos reprimidos.
Tratamento: check-up fisico, dieta e suplementação, mudanças de manejo, terapia, adestramento, socialização, exercícios, medicamentos, massagens, acupuntura e Reiki.
Distúrbios alimentares / falta de apetite / obesidade
Causas: dieta inadequada, problemas digestivos, ansiedade e estresse, compulsão por comida, condicionamentos na criação.
Tratamento: mudança de hábitos, dieta hipocalórica, check-up físico, suplementos dietéticos, controle de peso, exercícios.
Agradecimentos: Espaço Animal (São Paulo)













