No dia em que completou 58 anos, Maura Helena de Oliveira Gomes encarou a notícia de que estava com câncer de mama como um presente — apesar de este parecer de grego. Foi a oportunidade de rever com maior afinco atitudes e percepções sobre a vida. Três anos depois, após extenso período de sessões de quimioterapia, a psicopedagoga credita a superação ao suporte que recebeu da família e à troca de experiências com um grupo de mulheres que passou pelo mesmo sofrimento e que encontrou o conforto no teatro e na dança.
Maura lembra que, ao descobrir o tumor maligno no peito, passou por duas longas e tortuosas semanas: não conseguia dormir ou comer. Sintoma comum em pacientes durante a quimioterapia — mas não antes de começar o tratamento —, a depressão atingiu Maura de imediato. Com o auxílio de um psiquiatra, a paciente decidiu se levantar da cama e enfrentar a doença de frente, acreditando que se o tumor maligno havia lhe acometido era porque teria condições de superá-lo. A perspectiva positiva somou-se a uma reavaliação de atitudes e posturas frente à vida.
— Antes de adoecer, eu já estava fazendo a minha reforma íntima, e depois do câncer, ainda mais. Coisas banais que antes eu dava tanta importância, agora eu não dou. Cada dia que eu levanto, agradeço a Deus por estar vivendo, aproveitando e trabalhando. Cada dia, cada minuto é importante — relata Maura.
A reforma de Maura convergiu com o convite de uma amiga, que também teve câncer, a participar do grupo Oncoarte, formado por mulheres que ainda estão em fase de tratamento da doença e se apresentam em cidades gaúchas — eventualmente, viajam para outros Estados — transmitindo mensagens de otimismo e perseverança para o público.
Para Maura, doença foi uma oportunidade de repensar atitudes
Foto: Heron Lopes Jr./Especial
A ideia foi cunhada pela fisioterapeuta Iara Rodrigues, que já trabalhava havia 10 anos com oncologia. Surgiu, em 2006, como uma forma de movimentar o corpo — e os braços, que costumam sofrer com lesões oriundas da cirurgia de retirada da mama — e fazer com que as pacientes esquecessem a doença e se divertissem.
A brincadeira se "profissionalizou" e a fundadora chamou a irmã, a massoterapeuta Silvia Cabral, para auxiliá-la a criar coreografias para os espetáculos que apresentam. Com duas reuniões semanais, o grupo realiza e participa de saraus, bazares, oficinas, encontros de bate-papo e apresentações em escolas, hospitais, congressos e eventos de saúde.
— Queremos levar uma mensagem de encorajamento e de luta, queremos que as pessoas olhem e vejam que existe luz no fim do túnel. É uma doença curável ou tratável com a qual é possível viver bem. Hoje, encaramos o trabalho como uma missão — explica a idealizadora.
A trilha-sonora que embala os passos das pacientes prioriza canções com mensagens de cunho positivo. Os trechos da música "Sonhos Impossíveis", cantada por Maria Bethânia, dão o tom da apresentação e da visão como encararam o câncer: "Lutar quando é fácil ceder / Vencer o inimigo invencível / Voar num limite improvável / Tocar o inacessível chão".









