Lançado há um ano pelo governo Tarso com o objetivo de fomentar o crescimento de 5% do PIB em 2012, o programa Política Industrial falhou na perseguição deste desafio. Por força da seca, a economia gaúcha registrou queda de 1,8%.
Veja em quadro alguns setores e o que foi feito para desenvolvê-los
No entanto, especialistas avaliam como positiva a jovem experiência promovida pelo Piratini, calcada em benefícios fiscais agressivos e na dobradinha financeira liderada por Badesul e BRDE. Juntos, liberaram R$ 1,7 bilhão para obras de prefeituras e investimentos privados.
Há consenso no mercado de que o governo cometeu um equívoco ao vincular o eventual crescimento do PIB ao desempenho do programa, que precisará de pelo menos cinco anos para se consolidar. É por esse motivo que lideranças empresariais como o presidente da Fiergs, Heitor José Müller, defendem a transformação do atual modelo em instrumento de Estado, resistente à troca de governos.
O principal pilar da Política Industrial é o eixo setorial, que propôs ações para alavancar 22 nichos da economia. Avanços foram registrados nas indústrias oceânica e de celulose. No entanto, os investimentos em alta tecnologia são considerados tímidos. Diretor da Polo Agência de Desenvolvimento, Ronald Krummenauer ressalta que os parques tecnológicos devem ser privilegiados por não necessitarem de infraestrutura pesada e garantirem elevada massa salarial aos funcionários.
Em outro pilar, destaca-se a Sala do Investidor, onde o empreendedor consegue centralizar a resolução de problemas burocráticos. Porém, nenhuma outra iniciativa recebe elogios como o Novo Fundopem. O programa financia até 90% do ICMS incremental gerado por empresas recém-instaladas ou que ampliaram a produção, com carência de 60 meses e prazo de oito anos para o pagamento do imposto. Depois, com o Integrar, é possível abater até 90% das parcelas de quitação do ICMS.
— Se a guerra fiscal é essa, vamos a ela. Ou ficamos só dando discurso — avaliou o secretário de Desenvolvimento, Mauro Knijnik.
O último eixo da Política Industrial, a infraestrutura, é largamente o mais criticado. Rodovias, aeroportos, hidrovias e ferrovias são fontes permanentes de perdas econômicas.
— Levar uma saca de soja de Santa Rosa a Rio Grande é mais caro do que transportar o produto de Rio Grande a Xangai (China) — exemplificou Müller.
Burocracia e gargalos que travam a indústria
O andamento dos planos do governo Tarso Genro para a política industrial também tem áreas onde há pouco por comemorar. No caso dos setores de madeira e móveis, por exemplo, há clamor pela simplificação e barateamento dos processos de licenciamento ambiental. Considerada sensível pelo Piratini, a pauta não avançou.
Algumas outras áreas são o martírio comum de diversos segmentos. A infraestrutura para o escoamento da produção sofre em um Estado onde somente 7,2% da malha rodoviária é pavimentada. A ampliação da pista do aeroporto Salgado Filho e a qualificação do terminal de cargas, que segue travada, leva o Rio Grande do Sul a perder R$ 3 bilhões por mês em negócios que acabam se concretizando em São Paulo.
A proximidade com a Argentina, decantada no passado, deixou de ser vantagem com o aprofundamento da crise no país vizinho. A área irrigada de plantio, que era de 100 mil hectares, teve crescimento de 30% com o programa Mais Água, Mais Renda. Apenas 2% dos 5,5 milhões de hectares de terras gaúchas, porém, são irrigadas. O ideal seria ter mais de 50%.
Apesar do apoio para divulgar o Estado em feiras internacionais, poucos investidores estrangeiros sabem da existência e das possibilidades do Rio Grande do Sul. O trabalho, até então, é considerado tímido neste ponto. Outros problemas que são comuns a todo o país não têm solução para a indústria gaúcha: a formação de mão de obra qualificada ainda é carente e, somente no polo naval de Rio Grande, faltam 4,5 mil trabalhadores.
ENTREVISTA
Ivan De Pellegrin, Presidente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI)
"A orientação agora é focarmos em três setores"
Recém-empossado na presidência da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI), Ivan De Pellegrin é o braço direito de Mauro Knijnik na condução da Política Industrial. Ele destaca a consolidação de 80 ações desde março de 2012 e anuncia que o governo irá direcionar o foco para três dos 22 setores existentes.
Zero Hora — Há avaliações de que é excessivo abranger 22 setores no programa de Política Industrial. Esse quadro pode mudar?
Ivan De Pellegrin - A orientação que nós recebemos do secretário Mauro é para trabalharmos, a partir de agora, mais focados em três setores prioritários: indústria oceânica, agroindústria e setor automotivo. Não vamos deixar de tratar dos outros, mas vamos focar esforços nesses três.
ZH — O que significa essa priorização na prática?
Ivan - Os vários instrumentos e programas que temos vão priorizar esses três setores. Vamos fazer missões prospectivas no Exterior, priorizando a atração de investimentos nessas áreas. E precisamos converter esses esforços para apresentar o Rio Grande do Sul ao mundo em atração de investimentos.
ZH — Há opiniões de que o Estado deveria apostar mais em setores que não dependem de infraestrutura logística, como os parques tecnológicos. Qual a sua opinião?
Ivan - Temos a responsabilidade de pensar a Política Industrial para o Estado como um todo. Se colocássemos como uma diretriz essa restrição da carência de infraestrutura, nós correríamos o risco de concentrar todos os esforços na Região Metropolitana. Isso possivelmente agravaria a defasagem no desenvolvimento econômico e social, ampliando carências regionais.
ZH — Apesar de elogios à Política Industrial, o desempenho da economia foi ruim em 2012. Como o senhor avalia?
Ivan - Esse primeiro ano serviu para criarmos condições para que o Rio Grande do Sul melhor utilize suas potencialidades. Evidente que isso não depende somente do Estado, mas também de políticas federais e conjuntura internacional. Sempre estivemos muito à mercê da performance da agropecuária. Com a irrigação, estamos criando condições para ficar menos suscetíveis à estiagem. O Rio Grande do Sul deverá crescer em ritmo superior ao nacional em 2013.













