No tempo da ditadura e nos primeiros anos da volta da democracia era comum se ouvir que no Brasil a esquerda só se une na cadeia. Em 2000, quando o vice-governador Miguel Rossetto começou as articulações para a realização do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, parecia que o ditado seria modificado. A esquerda se uniu em torno da ideia, bombardeada pela direita e vista com restrições pelo Centro. O governo do Estado e a prefeitura de Porto Alegre, ambos do PT, bancaram a maior parte da estrutura do evento, definido como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos.
O sucesso do Fórum, que trouxe milhares de estrangeiros para Porto Alegre, reduziu o número de adversários do chamado "convescote das esquerdas". Porto Alegre conquistou o direito de sediar a edição seguinte, dois anos depois. A perspectiva de ganhar dinheiro com hotéis e restaurantes lotados transformou críticos em adeptos, mas continuava a ser o encontro mundial das esquerdas, com gente de todos os continentes atacando o capitalismo, pregando a economia solidária e métodos sustentáveis de produção.
De lá para cá, o fórum se tornou itinerante, criou eventos paralelos e regionais, mas nunca conseguiu repetir o sucesso das duas primeiras edições. Criados para dar maior dinamismo aos debates, os fóruns temáticos deveriam ser a semente que manteria vivo, nos anos pares, o espírito do fórum. As disputas de poder entre entidades e partidos políticos produziram um racha que se materializa com toda a força no Fórum Social Temático de Porto Alegre, que começa no próximo dia 26, como mostra a reportagem de Juliana Bublitz.
As entidades dissidentes, entre as quais a Central Única dos Trabalhadores e a Associação Brasileira de ONGs, agem de forma autoritária ao se retirar do Fórum Temático. Contrariam o discurso anterior de que o Fórum era um espaço aberto ao debate de ideias. Pelo comportamento dos líderes das entidades que estão se retirando, o debate só vale quando todos pensam da mesma forma. Não será essa uma variante do "pensamento único" tão criticado pela esquerda?
O empresário Oded Grajew, um dos idealizadores do Fórum, teve lucidez para perceber que era preciso dar consequência aos debates e se engajou no programa Cidades Sustentáveis, envolvendo quem tem a responsabilidade de fazer gestão — secretários e prefeitos. Os incomodados se retiraram.












