Opinião29/01/2013 | 06h09

Rosane de Oliveira: "Fatalidade, não foi"

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Rosane de Oliveira: "Fatalidade, não foi" Pedro Revillion/Palácio Piratini/Divulgação
Ao lado do procurador-geral de Justiça, Eduardo de Lima Veiga, o governador Tarso Genro apresentou na segunda-feira, em Santa Maria, o que cada órgão está fazendo para elucidar o incêndio na boate Kiss. Foto: Pedro Revillion / Palácio Piratini/Divulgação
Desde domingo, o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, vem repetindo que a tragédia da boate Kiss se enquadra na categoria fatalidade. Que o fato de o plano de prevenção de incêndios estar vencido desde agosto não teve peso determinante para o desastre. Que o problema foi o vocalista da banda Gurizada Fandangueira ter disparado um sinalizador que produziu faísca e, em contato com o isolante acústico altamente inflamável, provocou o incêndio.

Com todo o respeito à dor do prefeito, que está sob violento estresse desde a madrugada de domingo, o que aconteceu em Santa Maria não pode ser chamado de fatalidade. Seria fatalidade se um meteorito caísse sobre o prédio do antigo depósito de bebidas transformado em boate, matando mais de duas centenas de jovens universitários que se divertiam numa noite de verão.

A cada novo elemento que surge na reconstituição dos fatos, a morte de pelo menos 230 jovens ganha contornos de homicídio culposo. O que a polícia, a perícia e o Ministério Público estão fazendo é apurar as responsabilidades.

A prisão temporária dos sócios da Kiss e de dois integrantes da banda, incluindo o vocalista que teria soltado o sinalizador, tem pouca relevância. O objetivo da prisão temporária é impedir que os suspeitos de um crime fujam, apaguem provas ou pressionem testemunhas. Na esfera criminal, o que importa é o inquérito definitivo, o processo, o julgamento e o cumprimento das penas em caso de condenação. Na cível, serão inevitáveis as ações de indenização, que não aplacam a dor das famílias mas funcionam como pena adicional a quem foi negligente.

Há pelo menos 10 fatos que desqualificam a tese da fatalidade. São eles:

1. A Kiss, com 615 metros quadrados de área, tinha apenas uma porta de saída, mal sinalizada e difícil de ser encontrada na escuridão.

2. A planta confirma os relatos das testemunhas: a saída era um labirinto. Não havia rotas de fuga para o caso de uma emergência.

3. A casa noturna tinha capacidade para mil pessoas. Os bombeiros estimam que 1,5 mil estavam na trágica festa.

4. Não havia janelas (as dos banheiros, para onde dezenas de vítimas correram, eram fechadas com tábuas) e a boate se transformou numa câmara de gás.

5. No primeiro momento, segundo relatos de sobreviventes, os seguranças tentaram impedir a saída dos jovens que escapavam do fogo e da fumaça tóxica.

6. Efeitos pirotécnicos foram utilizados em um ambiente fechado, com isolamento acústico feito de material inflamável.

7. O extintor acionado por um dos integrantes da banda e depois por um segurança, não funcionou.

8. Se havia outros extintores, os funcionários não os acionaram.

9. Não se usou o sistema de som para avisar os jovens de que estava ocorrendo um incêndio e sugerir que procurassem a saída.

10. Não havia luzes de emergência para ajudar a encontrar o caminho da única saída.E, se não foi fatalidade, é preciso identificar e punir os culpados.



Em gráfico, entenda a sequência de eventos que originou o fogo



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A tragédia

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, mais de 200 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.

 A tragédia, que teve repercussão internacional, é considera a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Veja onde aconteceu

 
Imagem: Arte ZH

A boate

Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade da Região Central, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com o comando da Brigada Militar, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012. 

Clique na imagem abaixo para ver a boate antes e depois do incêndio

A festa

Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia. Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.




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Comentar esta matéria Comentários (12)

Elson Silva, PhD

Face - Voto Nulo Por Santa Maria `VOTO NULO NOS PROXIMOS 238 ANOS¿ ¿ desafio lançado por `Tubarc¿ um cientista jogado no lixo como estes jovens. Justiça é fazer o Brasil o país do VOTO NULO para ser o país do futebol, carnaval, e Democracia Nula. Saímos da ditadura que impôs uma democracia sem escolha. Não adianta ir de novo para as ruas para protestar como o Lula e a Dilma, porque sempre está piorando. O voto NULO enraizado na nossa cultura é a melhor opção na consciência do brasileiro quando teclar na urna. Dizem que não sabemos votar o voto obrigatório. O voto NULO sempre será a voz do basta contra a democracia falsa, cara, ineficiente, corrupta que não cuida da coisa publica de todos. Quando o Brasil se tornar o país do voto NULO Santa Maria vai poder brilhar como o último basta do nosso desespero pela falta de HONESTIDADE no jeitinho brasileiro. Esta tragédia nos une numa causa única ¿ Santa Maria abençoai o voto NULO ¿ Chega!

11/02/2013 | 03h37 Denunciar

ceesar

centro de porto alegre, umas danceterias verdadeiras bomba-relogio, esperando tragédia, a zh já noticiou até tiros, na mal floriano. fecham e abrem, outro caso de irresponsabilidade de autoridades

29/01/2013 | 16h31 Denunciar

José

Uma violenta explosão de gás no restaurante do supermercado Ycuá Bolaños causou a morte de 530 paraguaios e deixou outros 500 feridos, em 2004. O prefeito de Assunção quase foi linchado, por negligência. Se suspeitou que os fiscais da prefeitura foram subornados para não interditar o local antes.

29/01/2013 | 16h11 Denunciar

José

Os paraguaios se lembraram da tragédia no Ycuá Bolaños, após a notícia das mortes na boate Kiss. Acreditam que o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, está sendo preservado, já que lhes parece evidente a responsabilidade dele no episódio, por permitir o funcionamento da casa, sem segurança.

29/01/2013 | 15h57 Denunciar

José

Os jornais paraguaios de hoje destacam a chegada ao país do corpo do estudante paraguaio, morto na boate Kiss, Guido Ramón Brítez Burró. Também informam que um outro paraguaio, José Volpe, companheiro de Guido, apesar de inalar muita fumaça tóxica, conseguiu sair vivo da danceteria.

29/01/2013 | 14h50 Denunciar

José

As vítimas que sobreviveram ao incêndio no supermercado Ycuá Bolaños expressaram sua solidariedade com os brasileiros mortos, informa o jornal paraguayo Crónica. "Repudiamos la actitud avara y criminal de quienes solo responden a la defensa de las mercaderías, del lucro y desprecian la vida."

29/01/2013 | 14h37 Denunciar

wildem

Rosane, o extintor de incendio não funcionou por defeito mecânico ou porque o não souberam usá-lo. A propósito, mais de 90% das pessoas não sabem usar um extintor de incêndio nem se preocupam em saber, pois acidentes e cancer só acontece com os outros.

29/01/2013 | 14h20 Denunciar

Ana Luzia

Imprudência é o nome mais adequado. É preciso uma consciência maior por parte do poder público ao autorizar festas e eventos em locais sem a menor estrutura. Infelizmente, desta vêz, teremos que aprender com a dor. E a dor de perder filhos, sobrinhos, amigos,jovens. Tristeza profunda, luto...

29/01/2013 | 13h38 Denunciar

Jose Francisco Warth

Os edificios modernos, anfiteatros, avioes, hospitais, laboratorios, possuem saidas de emergencia.Como que um estabelecimento que reune 1500 pessoas nao possuia? E inacreditavel o que aconteceu! Mas fatalidade nao foi!Uma lastima! Meu Deus onde estas? Jose Francisco Warth

29/01/2013 | 13h18 Denunciar

rubensl.xavier

Rosane, tenho acompanhado teus comentários e me acalma o fato de tu brigares para mostrar que não foi fatalidade. O Estado não faz sua parte, não fiscaliza. Por que ? Acho que não é só falta de estrutura. Espero que sigas na tua luta.

29/01/2013 | 13h10 Denunciar

Rodrigo Moscarelli

Rosane, eu concordo que a tragédia não é uma fatalidade, pois a fatalidade na maioria dos casos não é possível de ser evitada; uma queda de avião por exemplo pode se dar por vários fatores: erro humano ou algo do gênero. A tragédia de Santa Maria podia e deveria ser evitada, não sendo fatalidade.

29/01/2013 | 12h57 Denunciar

Nelson

Parabéns Rosane, fatalidade é terremoto, maremoto, meteorito... O que houve tem outro nome e deve ser esclarecido de forma exemplar: bombeiros, fiscalização, prefeitura, organizadores, proprietarios, fogueteiros devem se esclarecer e se for o caso punidos como foi em Buenos Aires.

29/01/2013 | 10h22 Denunciar

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