Ideiais revisitados12/01/2013 | 14h02

Dez anos depois, o balanço do discurso de Lula no Fórum Social Mundial

Em janeiro de 2003, dias depois de tomar posse, Lula expressou em Porto Alegre o que sonhava fazer em seu governo

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Dez anos depois, o balanço do discurso de Lula no Fórum Social Mundial Marcello Casal Jr./ABR
Lula esteve no Anfiteatro Pôr do Sol pela primeira vez após eleito em 24 de janeiro de 2003 Foto: Marcello Casal Jr. / ABR

O sol começava a baixar na tarde mormacenta de Porto Alegre quando Lula, recém empossado presidente da República, subiu ao palco da terceira edição do Fórum Social Mundial para falar à multidão.

Carregado de expectativas, o histórico discurso completa no dia 24 exatos 10 anos, com um legado controverso, marcado por conquistas na área social, mas também por um dos maiores escândalos de corrupção no Brasil.

Saiba mais:

> Leia a íntegra do pronunciamento de Lula em 2003

Lula falou por meia hora. O maior evento da esquerda planetária — hoje esvaziado — chegava a seu ápice, com 120 mil participantes convictos de que um outro mundo era possível.

— Fiz questão de estar no meio da multidão para ver as reações. Havia esperança nos olhos das pessoas — diz Cândido Grzybowski, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Na manifestação feita na orla do Guaíba, Lula falou do sonho de reduzir a miséria e a desigualdade. Quem testemunhou o episódio, como o filósofo Renato Janine Ribeiro, da USP, ficou convencido de que esse propósito, repetido várias vezes, estava acima de tudo:

— A lógica do PT era a seguinte: essa é a nossa chance de mudar a condição social de milhares de miseráveis. E foi a opção que Lula fez, deixando de lado outras questões, inclusive éticas.

Naquele janeiro de 2003, o ex-presidente prometeu fazer o governo "mais honesto da história do país". Uma década depois, o Brasil assiste ao desfecho do julgamento do mensalão, escândalo que veio à tona em 2005. A contradição, segundo o sociólogo Chico de Oliveira, indica que o compromisso assumido em 2003 não passou de "retórica". Chico esteve em Porto Alegre e, desiludido, deixou o PT no mesmo ano. Filiou-se ao PSOL e virou oposição. Como ele, o cientista político Bolívar Lamounier identifica nas palavras de Lula a mera repetição de "chavões":

— Não houve referência às instituições, que são a base do controle da corrupção. Como bom populista, Lula colocou tudo num universo subjetivo: ele é o presidente, dele depende o fim da corrupção, e ele diz que vai acabar com ela. Até hoje, continua a negar o que aconteceu.

A ideia de uma herança maldita não é unânime. Para o sociólogo Emir Sader, que também esteve na Capital à época, a Era Lula foi o período em que mais se combateu atos ilícitos — por isso "tantas punições":

— Foi um governo com contradições e antagonismos, mas não um governo que tivesse renunciado aos ideais e passado para o outro lado. Senão, não teria tido o sucesso que teve.

O saldo, conclui Grzybowski, é mais positivo do que negativo. O desafio, agora, é outro:

— Houve malfeitos, mas ninguém duvida de que o Brasil melhorou. A questão é saber que futuro queremos. E isso não está sendo discutido.

Em gráfico, veja os principais momentos do governo Lula:

PRONUNCIAMENTO REVISITADO

PESO DO CARGO

“Quero dizer para vocês que o único e mais importante compromisso que tenho é de que vocês podem ter a certeza, como a certeza e a fé que vocês têm em Deus para quem é cristão, é que eu possa cometer algum erro, mas que jamais eu negarei uma vírgula dos ideais que me fizeram chegar à Presidência da República.”

10 anos depois...

Bastaram alguns meses para que petistas históricos e intelectuais deixassem o PT. Motivo: o pragmatismo de Lula. A leva de descontentes não perdoou o ex-presidente pelas alianças e classificou as ações como “traição”.

– Muita gente ficou decepcionada, mas foi uma opção de Lula, cuja prioridade era reduzir a miséria. Gostemos ou não, as questões éticas do PT ficaram para trás. Os ideias pagaram o preço da governabilidade – avalia o filósofo Renato Janine Ribeiro, da USP.

EDUCAÇÃO

“Que a universidade não seja um privilégio de só 8% da sociedade, mas que seja um direito ao alcance de todos.”

10 anos depois...

Ao lançar o Programa Universidade Para Todos (Prouni), em 2004, Lula tornou possível um avanço indiscutível na área. Ao Prouni, somaram-se iniciativas como o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).

O resultado foi um aumento de 62% nas matrículas e mais de 1 milhão de estudantes beneficiados com bolsas.

– Um grande passo foi dado, mas há muito a fazer. Agora, é preciso cuidar da permanência dos alunos nos cursos – diz a professora Helena Sporleder Côrtes, da Faculdade de Educação da PUCRS.

A professora afirma que a inclusão das classes menos favorecidas se tornou “visível” nas salas de aula das universidades.

POBREZA

“Continuo sonhando em construir uma sociedade justa, solidária, fraterna, onde o resultado da riqueza produzida no país seja distribuído de forma mais equânime para todos os filhos deste país.”

10 anos depois...

O Bolsa-Família, carro-chefe do governo Lula após o insucesso do Fome Zero, tirou da miséria 28 milhões de brasileiros e fez outros 40 milhões ascenderem à classe C.

Aos poucos, a queda nos índices de desigualdade social se consolidou. E os brasileiros antes sem renda passaram a consumir e movimentar a economia.

– Isso começou a aparecer com mais ênfase nas pesquisas em 2005 e surpreendeu muita gente. Ainda temos pobreza e desigualdade, mas a situação melhorou muito – afirma o diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Rafael Guerreiro Osorio.

Vale lembrar que 16 milhões de pessoas ainda vivem em pobreza extrema e tirá-las dessa situação é uma das metas da presidente Dilma.

POLÍTICA EXTERNA

“Nosso país, durante 500 anos, ficou olhando para a Europa. Está na hora de olhar para a África e para a América do Sul, de estabelecer novas parcerias para ser mais independente, fortalecer o Mercosul.”

10 anos depois...

O ex-presidente mudou o foco da política externa, priorizando as relações com as nações emergentes e assumindo a condição de líder regional. Conquistou espaço nos fóruns internacionais, mas também causou polêmica ao aproximar-se de países como o Irã.

– Sem romper com o mundo desenvolvido, o Brasil deixou de ser servil e adquiriu autonomia. Por outro lado, Lula deixou uma dívida: o Mercosul acabou ficando de lado – analisa Deisy Ventura, professora do Instituto de Relações Internacionais da USP.

SAÚDE PÚBLICA

“Continuo sonhando na possibilidade de fazer uma política de saúde onde nenhum pobre morra mais na porta do hospital por falta de atendimento médico ou por falta de assistência. (...) Haverá um dia em que as pessoas poderão morrer, porque nascemos para morrer, mas ninguém morrerá de desnutrição como morre hoje.”

10 anos depois...

Lula criou as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), lançou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e ampliou as equipes do Programa Saúde da Família, de 16,7 mil para 31,5 mil. Apesar disso, a saúde pública continua problemática e ainda se morre à espera de atendimento.

– Em termos de gestão, não houve avanço significativo. Seguimos com problemas nas emergências, e os serviços do SUS encolheram – avalia o professor de Epidemiologia da UFRGS, Jair Ferreira, assessor da vice-presidência médica do Hospital de Clínicas.

REFORMA AGRÁRIA

“E eu agora tenho quatro anos para que, com muita tranquilidade, a gente possa atender, senão todas, aquelas que nós tivermos capacidade e condições de atender. Eu continuo com o meu sonho de fazer a reforma agrária neste país.”

10 anos depois...

Lula assentou 73 mil famílias a mais do que Fernando Henrique, segundo o Incra. A demanda por terra, porém, persiste. Conforme o geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, coordenador da cátedra da Unesco de Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial, Lula teve o mérito de abrir o diálogo com os movimentos do campo:

– Ele apresentou um plano e o executou parcialmente. A reforma agrária que os movimentos camponeses queriam, não fez. Acredito que nem Lula nem os movimentos tiveram seus sonhos realizados.

CORRUPÇÃO

“Tenho quatro anos de governo para, de forma tranquila e serena, ir fazendo as coisas que tem que ser feitas nesse país. Quero fazer talvez o governo mais honesto que já houve na história desse país. Um governo que tenha a mais perfeita relação com a sociedade.”

10 anos depois...

Em 2005, veio à tona o esquema de compra de votos de parlamentares que ficaria conhecido como mensalão, cujo comando foi atribuído ao então ministro José Dirceu.

O julgamento resultou na condenação de 25 réus. Na época, Lula disse ter sido “traído” por companheiros. Nos últimos anos, passou a negar a existência do esquema.

– Não conhecemos da missa um terço. Lula entregou a rapadura em nome do poder – diz o sociólogo Chico de Oliveira, fundador do PT e hoje militante do PSOL.

O sociólogo Emir Sader discorda. Segundo ele, a Polícia Federal nunca teve tanta liberdade de ação para punir atos ilegais.

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