Fim de mandato05/01/2013 | 14h05

A despedida de João Dib após 40 anos de plenário na Câmara de Porto Alegre

Dono de 10 mandatos, vereador deixou a Câmara no dia 31 e em um balanço da vida pública, critica os excessos da política

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A despedida de João Dib após 40 anos de plenário na Câmara de Porto Alegre Tadeu Vilani/Agencia RBS
Aos 83 anos, ex-vereador que passou a vida no mesmo partido, o PP, condena a falta de critérios das legendas Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

A política extenuou João Dib (PP), 83 anos. Quarenta e um anos depois de assumir uma cadeira na Câmara pela primeira vez, o mais antigo vereador de Porto Alegre deixou a Casa na última segunda-feira, dia 31 de dezembro.

Com a autoridade de quem exerceu 10 mandatos, o engenheiro acredita que o Legislativo se desqualificou. Para ele, o plenário que via grandes debates entre políticos do porte de Glênio Peres, José Aloísio Filho e Martim Aranha e que discutia questões pertinentes à cidade, está deteriorado.

– Os vereadores apresentam projeto para qualquer coisa. Teve um lá que apresentou projeto para instituir o Dia da Bachata. O que é bachata? Deve ser uma baixinha chata, né? – critica Dib, referindo-se a uma iniciativa do colega Márcio Bins Ely (PDT) para homenagear o ritmo musical.

> Em vídeo, veja como foi o último dia de Dib na Câmara:

Em um dos seus últimos momentos na Câmara, ainda em dezembro, foi surpreendido por um calhamaço de propostas encaminhadas por vereadores.

– Esses projetos não seriam votados a tempo. Aliás, nem sei o que farão com eles este ano – diz ele.

Os excessos, de fato, incomodam o ex-prefeito da Capital e agora ex-vereador. Dib reclama que há muitas leis, partidos, municípios, deputados, senadores e vereadores.

– A política se complicou. Sou adepto da simplificação. Eu entrei na Câmara com 21 vereadores e tenho a convicção de que funcionava muito melhor do que agora, porque se chegava ao fim do ano com todos os projetos votados, e não havia essa quantidade imensa de propostas que se faz agora. Em 2012, votamos projetos de 2007 – detalha.

Não são só as mudanças no perfil do Legislativo que desagradaram a Dib. O ex-vereador, que defendeu o regime militar (1964-1985), discorda de quem pensa que o Brasil vive uma democracia.

A decepção do homem que integrou a Arena é justificada pelo enfraquecimento do Congresso e pelas incoerências partidárias. Dib, que nunca trocou de partido e acompanhou as mudanças da Arena, que virou PDS, PPR, PPB até chegar ao atual PP, cerra os punhos ao lembrar que “partido é ideia, programação e disciplina”.

– Nenhum partido tem coerência, com exceção do PSOL, que é novo. A Marina Silva, que era do PV, agora ficou brava com alguma coisa e vai criar outra sigla. Onde está a convicção dela? Tudo é personalismo. Sou o dono do partido? Não! Eu pertenço ao partido! – exalta-se.

A defesa que Dib faz da simplificação se reflete também na sua postura. Exemplo disso foi a sua despedida da Câmara, que não lhe despertou grandes emoções. Na véspera do Réveillon, enquanto a cerimônia de posse era organizada, circulava em sua cadeira de rodas pelos corredores vazios daquela que foi a sua casa durante quatro décadas.

– Foi um dia comum, cheguei lá, os guardas me festejaram, nos gabinetes não tinha ninguém... Não me causou espécie alguma – dá de ombros.

A aposentadoria servirá para o engenheiro dedicar-se à fisioterapia e minimizar as dores na perna direita, baleada em uma tentativa de assalto em 1968. Dib consegue andar com o apoio de bengalas, mas optou por uma cadeira de rodas para facilitar a locomoção. Mesmo acostumado com o equipamento, ainda demonstra algum desconforto: evitou ir à inauguração da Arena do Grêmio para fugir da aglomeração e faltou à posse dos seus colegas em 1º de janeiro.

– Ah, eu não quis incomodar. Iriam acabar querendo achar um lugar para mim, e achei melhor não ir – explica.

No entanto, as limitações físicas e os desencantos com a função pública não representarão um afastamento total da Câmara. Nesta semana, Dib voltou ao Legislativo para pagar contas na agência bancária. As visitas, promete, serão frequentes. No seu antigo gabinete, ficará o amigo Guilherme Socias Villela (PP).

– Não gosto de pensar no futuro, porque não sei quantos anos tenho de vida. Mas, quero ser útil para Porto Alegre – simplifica.

As ideias de João Dib:

Muitas leis, pouca execução

"Quando entrei na Câmara, funcionavam três comissões: a de Justiça, a de Finanças e a de Serviços Públicos. Hoje, temos seis comissões, e os projetos ficam lá dois anos sem serem examinados. O Legislativo não é para fazer lei, mas para fiscalizar o cumprimento da lei. Nos últimos dias de dezembro, entraram dezenas de projetos de vereadores propondo coisas que não seriam votadas. Não tem sentido, não precisamos de tantas leis".

Dedicação ao mandato

"Vereador tem de trabalhar 24 horas, tem de ser vereador em primeiro lugar. Até porque a política não me chama, eu é que procuro a política. Tenho de servir e não ser servido. Essa sempre foi a minha orientação. Na minha primeira campanha, o lema era trabalho, experiência e verdade. Isso me norteava. Tinha muito trabalho, estava acumulando experiência, e eu sempre busquei falar a verdade, até quando ela desagrada. Político inteligente não mente, só fala a verdade".

Legislação repetida

"O problema é partidário. Os partidos se desqualificaram, deixaram de ser partidos. Temos lá na Câmara projetos que foram aprovados e que têm outros iguais, é só pesquisar a legislação. Os vereadores apresentam projetos e brigam por eles como se fosse novidade. Qual é a preocupação de fazer leis e mais leis? Em 1830, o governador do Rio Grande, Caetano Maria Gomes Lopes, dissera: ‘Chega de leis, as que tem são suficientes, basta que sejam cumpridas’. Antes de Cristo, já diziam que o país que tem mais leis é o mais corrupto".

Contribuições para a história

"Quando cheguei à Câmara, fiz a Lei do Silêncio. Essa lei foi falada em toda a cidade, depois foi absorvida pela Lei de Impacto Ambiental e os decretos dela foram assinados por mim como prefeito. Acho que esse foi o momento mais importante. Outra coisa que fiz foi o Código de Posturas, que foi manuscrito por mim em 1974. Não havia liderança de governo, mas eu era o porta-voz do Thompson Flores. Entendia que não podia propor um projeto de alteração do Código de Posturas – que é hoje a Lei Complementar 12 – sem que a prefeitura falasse. Mandei para que o prefeito examinasse, ele mandou de volta com algumas alterações e foi aprovado. No dia da assinatura da lei, ele me chamou para participar do ato".

Grandes políticos

"O melhor vereador que Porto Alegre já teve foi o José Aloísio Filho. Sempre dedicado, correto. Além dele, o Glênio Peres, Martim Aranha, Reginaldo Pujol, José César de Mesquita... Não eram homens de cultura extraordinária, mas eram homens dedicados à Câmara, eram homens que se preocupavam com o que acontecia lá. Não faziam tantas leis, mas nada era arquivado, tudo era votado. Havia preocupação de ter quórum em cada sessão. Fui líder da Arena e fiz, um dia, uma proposição para homenagear a revolução de 31 de março de 1964. Nós éramos nove e eles, 12 (oposição). Se não tivéssemos 11, não teria sessão. Eles, gentilmente, colocaram os dois vereadores para dar o quórum. Hoje, temos sessões solenes com dois, três vereadores. Honestamente, não sei o que eles ficam fazendo".

Congresso desacreditado

"Consigo dizer que não temos democracia. Democracia pressupõe um Legislativo forte e partidos fortes. O Congresso nesse último ano se colocou a nu, mostrou todas as suas barbaridades. Foram 3.059 vetos em 12 anos. Como é que se fazem leis, o governo veta, e o autor da lei não se preocupa? Fica tudo por isso mesmo? E a Constituição, que diz que, 30 dias depois, tudo para em razão de veto não examinado? O nosso país é governado por medidas provisórias".

Um sentido ao Legislativo

"Só conheço o certo e o errado. Na Câmara, vivia sob tensão, fui vendo as coisas se deteriorarem, aí é muito difícil. Não via melhora, não via aquela coisa que eu via de um Aloísio Filho, de um Glênio Peres. Discordava do Glênio, mas era um debate de alto nível. Hoje, passam horas discutindo um projeto que não tem sentido nenhum. Uma das emendas que fiz foi para que a denominação de logradouros não viesse mais ao plenário. Não tem sentido ir ao plenário discutir nome de rua. Os vereadores apresentam projeto para qualquer coisa. Teve um vereador lá que apresentou um projeto para instituir o Dia da Bachata (ritmo musical). O que é Bachata? Deve ser uma baixinha chata, né? Não precisamos disso aí. Vi que não estava mais entusiasmado para acompanhar a rotina, o ambiente estava pesado para mim, até pela idade e pela dificuldade de locomoção".

A escolha do candidato

"Se tenho um programa, tenho de cumprir, tenho de acreditar no que estou fazendo. Manuela D’Ávila é minha grande amiga, mas, antes da eleição do ano passado, fiz uma análise dos candidatos. Qual é o melhor para Porto Alegre? Não para mim, porque eu não quero cargo, não quero nada. O melhor é o Fortunati. Aí, fui lá defender a ideia de apoiar o Fortunati. Continuei amigo da Manuela, mas sabia que ela não tinha equipe, não tinha partido, ia ser uma coisa pior do que está".

O futuro fora do gabinete

"Trouxe muito material do meu gabinete na Câmara para casa. São caixas e mais caixas de papel, documentos. Nesses primeiros dias (de aposentadoria), estou organizando isso. Mas vou continuar indo à Câmara para conversar, trocar ideias. Se puder ser útil, quero ser, só não quero nenhum cargo. Vou continuar indo na agência bancária de lá, já que tem toda acessibilidade. Não gosto de me preocupar com o que vou fazer, porque não sei se vou viver mais cinco, ou três, ou dois anos. Prefiro resolver um dia de cada vez".

Partidos incoerentes

"Os partidos no Brasil não têm mais ideologia, o próprio PP não tem. O PP aqui no Rio Grande do Sul funciona razoavelmente bem, mas veja que, na última eleição, o José Serra (candidato do PSDB à Presidência) insinuou ou convidou o Francisco Dornelles, presidente do meu partido, um homem íntegro, culto, nunca se ouviu falar mal dele, para ser vice-presidente. Nessa altura, Francisco Dornelles lembrou do parentesco com o Tancredo Neves para atrair Minas Gerais e era amigo do Serra desde criança. Aí, não foi ele o vice, e ele apoiou a Dilma. Onde que estava a ideologia? Onde estava a convicção do que ele estava fazendo? Vejo a política no Brasil, como um todo, muito mal".

Exagero de cargos

"Por que temos 513 deputados e nem no dia da votação dos royalties, em que todos os prefeitos do Brasil receberam torpedos para convocar os seus deputados, nem nesse dia teve 513? Só 410. Não precisamos de 513 deputados, não precisamos de 81 senadores e também não precisamos de 36 vereadores em Porto Alegre. Entrei na Câmara com 21 vereadores e tenho convicção de que funcionava muito melhor do que agora, porque se chegava ao fim do ano com todos os projetos votados. Não havia essa quantidade imensa de projetos que se faz agora".

Descrença com a classe política

"A maioria dos que fazem a vida pública é correta. Alguns não são tão competentes, não são tão experientes, mas a maioria é correta. Agora, o destaque, evidentemente é o negativo. Se um cachorro me morde, não é notícia. Agora, se eu mordo um cachorro é. Se nivela por baixo, mas acho que a maioria é correta".

Campanha eleitoral

"Nunca pedi contribuição de ninguém, mas já rejeitei, com medo de que poderiam me cobrar favor depois. Minhas campanhas sempre foram modestas. Tenho um fichário com os nomes e endereços de umas 12 mil pessoas. Mandava uma carta no início de cada legislatura, dizendo o que seria feito. Depois, mandava uma carta contando o que foi feito e uma mensagem de Natal e Ano-Novo. Quando era possível colocar cartazes em postes, nunca fiz mais de 1,2 mil peças".

Excesso de municípios

"Temos municípios de mais. Segundo a Lei da Emancipação, para surgir um município ele teria de ter, no mínimo, 5 mil habitantes e 1,8 mil eleitores. Há município com 1,6 mil habitantes e 1,8 mil eleitores. Entre 1983 a 1986, havia 233 municípios no Estado, agora são 497. Temos policiamento para todos eles? Juízes para todos? E eles dependem do Fundo de Participação dos Municípios, que foi reduzido a praticamente zero".

Salário dos vereadores

"O vencimento, para quem é exclusivamente vereador, é razoável. Não é grande coisa. São R$ 10,3 mil, aí tem contribuição partidária, Imposto de Renda, convites que tu tens que comprar, uma série de coisas que tu não consegues escapar, rifas que te oferecem... Para se dedicar à vereança, não é um grande salário. Aliás, acho que os secretários municipais (que recebem o mesmo que os vereadores) deveriam ganhar mais".

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