A tensão natural nas relações entre governo e oposição evoluiu para um clima belicoso depois dos últimos acontecimentos envolvendo o julgamento do mensalão, a Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, e as acusações feitas pelo publicitário Marcos Valério ao ex-presidente Lula. Uma frase dita ontem pelo líder do PT, Jilmar Tatto, ilustra esse clima:
— Se eles querem guerra, vão ter.
Tatto se referia à aprovação da convocação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para depor na Comissão de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso (sim, poucos sabem, mas isso existe). A aprovação do requerimento foi uma represália do PT, apoiado pelo ex-presidente Fernando Collor, à tentativa da oposição de convocar Marcos Valério e Rosemary Noronha, a ex-chefe de gabinete da Presidência em São Paulo, indiciada pela PF.
Enquanto Lula está em Paris e se recusa a dar entrevistas, seus aliados formam uma espécie de barreira de proteção, com trincheiras nas redes sociais, para desqualificar o depoimento de Valério à Procuradoria-Geral da República e tirar o foco de Rosemary, a mulher acusada de fazer tráfico de influência usando de sua proximidade com o então presidente. A imprensa e o Supremo Tribunal federal viraram os alvos preferenciais das patrulhas
Os defensores do ex-presidente sustentam que basta ele dizer “é mentira” para que as declarações de Valério sejam apagadas da história. E que Lula não precisa explicar suas relações com Rosemary porque outros presidentes – de Getúlio Vargas a Fernando Henrique – tiveram relações extraconjugais. Esquecem que o problema não é o tipo de relação que Lula tinha com Rosemary, mas o que ela fazia na condição de chefe de gabinete e que motivou seu indiciamento pela PF.
A oposição também está pintada para a guerra. Incapaz de se credenciar como alternativa ao PT nas últimas eleições, vislumbrou nos escândalos sua chance de ganhar o poder em 2014 e atribui a Valério uma credibilidade que ele não tem. O depoimento de Valério deve ser lido com ressalvas, mas não pode ser ignorado pelo fato de ser um criminoso condenado a mais de 40 anos de cadeia. O que ele ou qualquer outro dos condenados diz deve servir de pista para uma investigação, hipótese que os aliados de Lula não aceitam porque o consideram intocável.












