O embalo dos exercícios de Dilma Rousseff é lírico. Enquanto caminha no Palácio da Alvorada, a presidente gosta de ouvir ópera e música erudita. O cenho franzido se desfaz, prova de que o perfil sisudo camufla uma mulher sofisticada, amante das artes.
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Leitora voraz, Dilma aprecia Machado de Assis e Marcel Proust. Recita poemas, cantarola Chico Buarque e Tom Jobim. Comenta com desenvoltura detalhes de quadros. E, quando pode, refugia-se em museus pelo mundo.
As preferências surpreendem quem conhece a Dilma política, famosa pela rotina espartana e os terninhos comportados. Foi assim após a entrega da Ordem do Mérito Cultural, no dia 5, quando ofereceu um jantar no Alvorada para artistas e intelectuais. Ao cruzar com Miguel Proença, recebeu o novo CD do maestro, Pianíssimo.
— Maestro, sou tua tiete — gracejou.
Proença retribuiu com música. Após, Chambinho do Acordeon, que interpreta Gonzaga pai no cinema, assumiu a trilha sonora. Ao final, os convidados partiram com promessa de retorno. O ator José de Abreu, o Nilo de Avenida Brasil, ficou encarregado de organizar futuros saraus:
— O nível cultural dela impressiona.
Tragédia grega no currículo
Os gostos vieram de casa. Pai da presidente, o imigrante búlgaro Pedro Rousseff apresentou à filha os clássicos da literatura. Também incentivou o apreço pelo teatro. Em 1993, então secretária de Energia e Minas do RS, Dilma teve aulas sobre tragédia grega com o dramaturgo Ivo Bender. Nas discussões sobre Sófocles e Eurípedes, o professor notou uma sensibilidade acima da média. Gostou tanto da aluna que buscou sua opinião sobre a tradução de textos da poeta americana Emily Dickinson.
— Dilma elogiou a fluência. Foi uma crítica que levei a sério — diz Bender.
Na Presidência, a petista não encontra tempo para cursos ou passeios. Acaba trazendo a arte para perto, fazendo força para levar ao Planalto boas exposições. Em 2011, negociou o retorno ao Brasil do quadro Abaporu, da modernista Tarsila do Amaral — a obra pertence ao Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. No último mês, acertou com a embaixada italiana uma mostra com seis obras de Caravaggio. Tenta dar seu toque cultural ao cérebro das decisões do país.
AS PREFERÊNCIAS DE DILMA:
Literatura
— Dilma sempre tem um livro por perto. Com 14 anos, já havia lido o romance Germinal, clássico realista de Émile Zola. Também se embrenhava nos livros de Fiódor Dostoiévski. No período de militância contra a ditadura, estudou textos ligados à esquerda. Uma das obras que marcou a presidente foi Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.
— Em visita à casa de amigos em Porto Alegre, no ano passado, a presidente se encantou pelo livro O Sítio Charqueador Pelotense, levantamento histórico feito pela professora Ester Gutierrez (UFPel) sobre a formação das charqueadas, ilustrados por xilogravuras de Danúbio Gonçalves. Dilma ganhou um exemplar e indicou a leitura em Brasília.
Ópera
—A presidente é aficionada por ópera. Em julho, aproveitou a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres para ver o espetáculo Operalia. Em setembro, ao discursar na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, escapou da agenda oficial e conferiu L'Elisir d'Amore.
MPB
— Dilma gosta de música erudita, mas também domina sucessos da Jovem Guarda e MPB. Por sinal, neste ano sancionou a lei que instituiu o 17 de outubro como Dia Nacional da Música Popular Brasileira.
Cinema
— Periodicamente, a presidente recebe caixas com DVDs. Na última semana, ficou encantada com Gonzaga — De Pai para Filho. No período de militância, um dos filmes que mais encantou Dilma foi Mimi, o Metalúrgico, da italiana Lina Wertmüller.













