Quando fala sobre literatura, arte ou música, Dilma demonstra aquele tipo de segurança que mesmo um político muito treinado é incapaz de fingir. Na abertura de uma exposição no Planalto, falou sobre a importância de Caravaggio na história da arte, sobre sua biografia acidentada e lamentou a ausência na mostra de seu quadro favorito (O Cupido Adormecido). Em setembro, em Nova York, fez questão de assistir à ópera L'Elisir d'Amore, programa que gostos menos refinados provavelmente considerariam uma tortura. Dilma não tem medo de citar um autor considerado difícil, Proust, entre os seus favoritos e em uma entrevista durante a campanha mencionou o livro As Brasas, do respeitado e pouquíssimo conhecido autor húngaro Sandor Marai, como uma leitura inesquecível.
Na teoria, é melhor ter um presidente que lê do que um que não lê, é melhor que ele se emocione na ópera do que aproveite o espetáculo para tirar um cochilo. Em um país tão pouco letrado, qualquer propaganda para a causa da cultura é bem-vinda, mesmo que a conta-gotas. Na prática, porém, o que realmente vai fazer a diferença são as escolhas políticas que impactam a área — a começar pela nomeação do ministro da Cultura. Nestas ocasiões, Dilma tem tratado a Cultura como preocupação de segundo escalão: primeiro, escolhendo uma ministra tão fraca que não inspirava respeito (Ana de Hollanda), depois, uma tão forte e ambiciosa que foi escolhida mais por injunções políticas do que por intimidade com o assunto (Marta Suplicy).
Para os otimistas, resta a esperança de que a presidente, ecoando seu autor favorito, use o que lhe resta de mandato para correr em busca do tempo perdido.












