Os gostos de Dilma17/11/2012 | 10h01

Cláudia Laitano: Culta, porém pragmática

Colunista de ZH analisa o comportamento político e as preferências culturais da presidente

Enviar para um amigo
Quem examinar a lista dos 41 agraciados com as medalhas da Ordem do Mérito Cultural, concedidas no início do mês em cerimônia realizada no Palácio do Planalto, provavelmente vai descobrir pouco sobre os gostos pessoais de Dilma Rousseff e muito sobre seu pragmatismo político. Uma lista que inclui José Sarney, Hebe Camargo, Fafá de Belém e Silvio Santos entre os "intelectuais e artistas" escolhidos para receber a mesma distinção que Jorge Amado e Luiz Gonzaga certamente revela uma visão muito ampla do que seja "mérito cultural" — que, com certeza, é a visão do governo Dilma, mas não necessariamente reflete as inclinações pessoais da presidente.

Quando fala sobre literatura, arte ou música, Dilma demonstra aquele tipo de segurança que mesmo um político muito treinado é incapaz de fingir. Na abertura de uma exposição no Planalto, falou sobre a importância de Caravaggio na história da arte, sobre sua biografia acidentada e lamentou a ausência na mostra de seu quadro favorito (O Cupido Adormecido). Em setembro, em Nova York, fez questão de assistir à ópera L'Elisir d'Amore, programa que gostos menos refinados provavelmente considerariam uma tortura. Dilma não tem medo de citar um autor considerado difícil, Proust, entre os seus favoritos e em uma entrevista durante a campanha mencionou o livro As Brasas, do respeitado e pouquíssimo conhecido autor húngaro Sandor Marai, como uma leitura inesquecível.

Na teoria, é melhor ter um presidente que lê do que um que não lê, é melhor que ele se emocione na ópera do que aproveite o espetáculo para tirar um cochilo. Em um país tão pouco letrado, qualquer propaganda para a causa da cultura é bem-vinda, mesmo que a conta-gotas. Na prática, porém, o que realmente vai fazer a diferença são as escolhas políticas que impactam a área — a começar pela nomeação do ministro da Cultura. Nestas ocasiões, Dilma tem tratado a Cultura como preocupação de segundo escalão: primeiro, escolhendo uma ministra tão fraca que não inspirava respeito (Ana de Hollanda), depois, uma tão forte e ambiciosa que foi escolhida mais por injunções políticas do que por intimidade com o assunto (Marta Suplicy).

Para os otimistas, resta a esperança de que a presidente, ecoando seu autor favorito, use o que lhe resta de mandato para correr em busca do tempo perdido.

Siga os perfis de ZH no Twitter

clicRBS
Nova busca - outros