Lutar contra a ditadura "valeu a pena, e muito" - e o processo de redemocratização "foi menos duro" porque os brasileiros tiveram "uma fé sem restrições no valor da democracia". Assim a presidente Dilma Rousseff recordou, em longa entrevista publicada domingo pelo jornal El País, o seu envolvimento com a luta armada nos anos 1970.
Na conversa ela falou também de projetos de governo, mensalão, liberdade de imprensa, crise europeia e seu futuro político. Sobre este, comentou:
— Se vou ficar quatro ou oito anos só o povo brasileiro sabe.
Dilma esteve no final de semana em Cádiz, na Espanha, participando de uma cúpula de países ibero-americanos - e a entrevista foi dada dias antes, no Brasil, ao próprio presidente do jornal espanhol, Juan Luís Cebrián.
Na conversa sobre luta armada - período que lhe custou três anos de prisão, nos anos 70 - a presidente se dispôs a fazer um balanço didático e detalhado.
— Necessariamente a gente evolui —, começou, para acrescentar que em dezembro de 1968 "não andava na política nem na clandestinidade".
Mas veio o Ato 5 e tudo mudou:
— A partir de então qualquer um de minha geração que tivesse a mínima vontade democrática era violentamente perseguido. De modo que, do ponto de vista pessoal valeu sim a pena, e muito. Uma parte da juventude teve o gesto generoso de pensar que era sua obrigação lutar por seu país, até cometendo alguns erro".
A reavaliação histórica prosseguiu:
— Talvez aqueles métodos não conduzissem a nada, não tivessem futuro e fossem uma visão equivocada sobre a saída da ditadura", mas eram vistos com "um sentimento de urgência. (...) Com o tempo comprovei o nosso excesso de ingenuidade e romantismo e nossa falta de compreensão da realidade. Minha passagem pela prisão me ajudou a entender que o regime militar não sobreviveria, porque não poderia prender, torturar e matar toda a juventude.
Veio o período "mais negro da ditadura", entre 1970 e 74, mas já lhe parecia evidente que "não haveria solução fora da democracia".
— Talvez o que diferencia meu País de outros da América Latina é que nós tivemos uma fé sem restrições no valor da democracia. Isso fez com que o processo se tornasse menos duro.
Provocada, depois, a comentar as punições de petistas no processo do mensalão, ela se cercou de cautelas.
— Como presidente, não posso me manifestar sobre as decisões do Supremo. Acato suas sentenças, não as discuto. O que não significa que ninguém neste mundo esteja acima de erros e das paixões humanas. Quando o entrevistador acrescentou "as humanas e as políticas", ela completou:
— Talvez estas sejam as maiores.
Oito anos
Ao falar de seu governo, Dilma retomou o sonho de "fazer do Brasil um país de classes médias", em que tem de "enfrentar ao mesmo tempo a luta contra a pobreza e buscar padrões educacionais de primeiro mundo".
Isso seria tarefa para quanto tempo?
— Não sei — reagiu a presidente.
— Vou deixar uma boa contribuição. Lula ficou dois mandatos e me deixou um grande legado. Pretendo fazer o mesmo com quem me suceder. Se vão ser quatro ou oito anos, só o povo brasileiro sabe.
A presidente falou também de suas escolhas presidenciais e fez comparações entre Brasil e China.
— Talvez a melhor coisa da China seja que ela sabe definir suas metas. Não acho que ninguém tenha que imitar a nenhum país, mas se pode aprender com suas boas práticas — avisou, para acrescentar:
— Eu tenho um plano de meio prazo. Para saber onde quero chegar tenho de iluminar o presente, definir minha taxa de investimento se quero dobrar a renda per capita do Brasil e em quanto tempo. Talvez possamos fazê-lo em 12 ou 15 anos, mediante uma política adequada de investimentos públicos e privados.
O Brasil tem muitos desafios, advertiu o entrevistador: as péssimas estradas, o caos nos aeroportos, a precária rede de hotéis, atraso nas construções - tudo antecipando dificuldades na Copa do Mundo em 2014. A presidente respondeu que as coisas estão andando, há licitações para portos, estradas, ferrovias - "e nesse setor as empresas espanholas são muito competitivas", completou. E avisou de sua escolha:
— Não tenho dinheiro para financiar um plano para todo mundo, mas sim para a população mais pobre.
Falsos dilemas
A crise vivida por vários países europeus, afundados em déficits e desemprego - e que interessam diretamente ao público espanhol - motivou a presidente brasileira a repetir suas críticas às soluções que vêm adotando os governos do continente, a seu ver equivocadas. Ela mencionou, então, a saída brasileira - estimular o crescimento.
— Longe de mim propor nenhum modelo — avisou - mas há "determinados falso dilemas" que ela diz já ter vivido e que a Europa enfrenta agora.
Por exemplo, controlar a inflação ou estimular o crescimento, reduzir gastos ou investir, desenvolver primeiro para depois distribuir renda, lutar só contra a pobreza ou entrar de vez na economia do conhecimento, escolher entre mercado externo e consumo interno. Sua conclusão sobre o dilema:
— Todas essas coisas devem ser abordadas simultaneamente.
Distribuir renda, por exemplo, "é uma exigência moral, mas também uma premissa para o crescimento".
Não seria, sugere Cebrián, o que chamam de "pragmatismo desideologizado"? A presidente reage repetindo, simplesmente, o tripé da estratégia do governo brasileiro:
— Contas públicas austeras, controle da inflação e superávit de divisas para garantir a moeda contra a especulação.
A difícil situação europeia animou a presidente a prosseguir - e ela retomou o que tem dito nos encontros do G-20:
— A Europa passa por algo que já vivemos na América Latina. Há uma crise fiscal, uma crise de competitividade e uma crise bancária. E as receitas que se estão aplicando levarão a uma recessão brutal. Sem investir será impossível sair da crise.
Imprensa livre
A expansão das redes sociais e seu impacto na imprensa foi outro dos temas tratados.
— Sempre disse que a imprensa brasileira comete excessos, mas eu os prefiro ao silêncio da ditadura — repetiu a presidente.
— De qualquer modo, neste País existe algo que era tradicional entre nós, o formador de opinião. Faz 10 anos que tomamos as decisões políticas em função do que beneficia os brasileiros, não por preconceitos ideológicos ou de qualquer outro tipo. O povo não se deixa manipular em absoluto.













