Formado em Ciências Sociais pela USP, Mauro Paulino, 51 anos, entrou no Datafolha em 1985, como pesquisador de rua. Depois de passar por praticamente todos os setores do instituto, tornou-se diretor-geral, cargo que ocupa desde 1998. Considerado um dos maiores especialistas no assunto no Brasil, Paulino classifica a pesquisa eleitoral como "um retrato do momento em que foi feita". E nada além disso.
— O resultado não pode ser projetado para o futuro, mesmo que esse futuro seja o dia seguinte, e esse é um erro muito comum. Soberana é a urna, não a pesquisa — resume Paulino.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista, concedida por telefone, na última terça-feira.
juliana.bublitz@zerohora.com.br
Zero Hora — Qual é a metodologia utilizada pelo Datafolha nas pesquisas eleitorais?
Mauro Paulino - O princípio metodológico básico é garantir que o universo de eleitores seja representado na amostra, na mesma proporção em que ele existe de fato. Por exemplo, se no universo existem 52% de mulheres e 48% de homens, essa proporção precisa ser respeitada na pesquisa. Esse é o segredo.
ZH — Significa que os entrevistados representam a totalidade dos eleitores?
Paulino — Cada entrevistado representa centenas de outros com as mesmas características. No caso de Porto Alegre, por exemplo, a gente tem um percentual de entrevistados para cada um dos segmentos socioeconômicos da população. É um enorme quebra-cabeças, cheio de detalhes. São muitas pessoas envolvidas, várias etapas e cada uma é importante no conjunto.
ZH — O que é margem de erro e nível de confiança?
Paulino - São limites técnicos. Se faz pesquisa porque não dá para ouvir todos os eleitores a todo momento, mas isso tem implicações. Os números divulgados são sempre uma aproximação. Não são exatos. É por isso que se estabelece margem de erro, cujo percentual varia. Quanto ao nível de confiança, é de 95%. Se a gente fizer cem pesquisas num mesmo dia, em 95 delas os resultados devem ficar dentro da margem de erro.
ZH — Há um padrão para a margem de erro?
Paulino — A margem de erro é uma relação entre o tamanho do universo e o número de entrevistas. Em geral, costuma ser de três pontos percentuais, mas isso pode variar.
ZH — Há outros limites?
Paulino — Existem os limites de interpretação dos resultados. É fundamental levar em conta que a pesquisa representa a opinião das pessoas no momento em que foi feita. Não pode ser projetada para o futuro, mesmo que esse futuro seja o dia seguinte, e esse é um erro muito comum. Temos vários exemplos de eleições cujo resultado se modificou de um dia para o outro. Soberana é a urna, não a pesquisa.
ZH — Pesquisa influencia o voto?
Paulino — Pode influenciar, porque faz parte do arsenal que ajuda o eleitor a se decidir. Mas pior seria não ter essa informação. Ela contribui para decisões pensadas.
ZH — O Datafolha realiza pesquisa para candidatos e partidos?
Paulino - Não, até pela importância que damos à isenção e à independência. Isso não quer dizer que quem faz está errado.
ZH — Por que o Datafolha não apresenta aos entrevistados o candidato junto com o partido?
Paulino - Porque isso pode induzir o entrevistado. E abre uma outra discussão. Se você se permite informar o partido, por que não dá outras informações? O limite entre informação e indução é tênue.
ZH — Por que o Datafolha não incluiu questões sobre o segundo turno nessa primeira pesquisa eleitoral?
Paulino - Justamente por ser a primeira pesquisa. Seria impossível fazer simulações de segundo turno com todos os candidatos uns contra os outros, porque daria uma número de cenários muito grande. Tecnicamente é impossível aplicar. Então, o que os institutos fazem são simulações de segundo turno com os candidatos mais bem colocados na pesquisa. Como essa é a primeira pesquisa do Datafolha, não se sabia quem eram os mais bem colocados até que ela fosse concluída.








