Cota feminina10/06/2012 | 06h09

Partidos enfrentam o desafio de preencher a cota de candidatas mulheres

Com a falta de candidatas, a participação de homens tem que ser reduzida

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Os partidos têm até o final do mês, quando se encerra o prazo das convenções, para equilibrar um desequilíbrio histórico: a diferença de participação de homens e mulheres na política. Boa parte das siglas, emparedada pelo recente rigor da Justiça Eleitoral, será obrigada a reduzir o número de homens em suas listas de candidatos. Tudo para que elas atinjam a cota de 30%.

— Vamos ter problemas na maioria dos municípios. É uma situação disseminada — reconhece o presidente do PDT gaúcho, Romildo Bolzan Jr.

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Bolzan admite que os partidos, de um modo geral, não têm uma política interna de estímulo à participação feminina. Por outro lado, segundo ele, é perceptível "o desinteresse das mulheres" em ingressar no ramo. Surge aí a pergunta mais pungente desse debate: por que, em pleno século 21, em um país cuja presidente da República é uma mulher, a representação feminina na política ainda é minúscula?

Em um ranking que mede o poder político das mulheres em 135 países - publicado anualmente pelo Fórum Mundial Econômico, com colaboração das universidades de Harvard e da Califórnia -, o Brasil figurou em 114º lugar em 2011. Ficou atrás de nações subdesenvolvidas como Botsuana e Senegal.

Embora sejam diversos os motivos para essa repressão, especialistas apontam o fator cultural como o mais forte.

Em 500 anos, as mulheres só ganharam o direito de votar e serem votadas em 1932 - desde que comprovassem renda própria caso fossem solteiras ou viúvas. As casadas precisavam de autorização do marido. Historicamente, portanto, há um viés machista na forma como a sociedade enxerga a política.

— As pessoas ainda relacionam o comando público aos homens. A sociedade constrói uma imagem acerca das atividades profissionais, e a política mantém imagem masculina. É natural. Afinal, durante séculos as mulheres foram alijadas — diz Clara Araújo, professora de Estudos de Gênero da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

É uma estampa que precisa ser reconstruída, mas isso requer tempo. Quem ilustra na prática essa distorção cultural é a deputada estadual Zilá Breitenbach (PSDB), ex-prefeita de Três Passos, na Região Central. Quando fazia campanha para a prefeitura, ainda nos anos 90, um amigo lhe repetia:

— Gosto muito da sua pessoa, Zilá. Mas é mulher, né? Me perdoe, mas não consigo votar em mulher.

Até aí, pode-se dizer que era um caso extremo, um machista convicto. Mas a deputada relata outras situações que lhe chamam a atenção ainda hoje.

— Buscando mulheres para concorrer, o que mais ouço é "minha família não quer". As famílias acham que a exposição será negativa, que a função de mãe ficará prejudicada — afirma Zilá.

O presidente estadual do PTB, Cassiá Carpes, diz que a dificuldade maior para encontrar mulheres dispostas a se candidatar é em pequenas cidades.

— Nesses municípios, o camarada acredita que ele deve ser o candidato, não a mulher, não a filha — diz Cassiá.

É um claro reflexo do poderio econômico concentrado nas mãos masculinas. Campanhas são caras, precisam de dinheiro. Conforme a doutora em Direito Constitucional Ana Maria D'Ávila Lopes, da Universidade de Fortaleza, em um país onde o salário das mulheres ainda é bem inferior ao deles, não há dúvida sobre quem tem melhores condições de prosperar em uma eleição.

* Colaborou Claudia Lawisch

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