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TRÁFICO DE PESSOAS04/03/2013 | 06h21

Uma rede de proteção às vítimas

Brasil possui 241 rotas nacionais e internacionais de tráfico de pessoas. Destas, 28 são na região sul do país

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Hoje, o Rio Grande do Sul dará mais um passo importante na luta contra o tráfico de pessoas. Será lançada na Assembleia Legislativa a Frente Parlamentar sobre Pessoas Desaparecidas, que realizará um trabalho de detalhamento da situação no Estado, além de fortalecer a rede de proteção às vítimas do tráfico de pessoas.


Cartaz da Frente Parlamentar sobre Pessoas Desaparecidas

O Rio Grande do Sul registrou, somente no ano passado, o desaparecimento de 4.696 pessoas. A maior parte delas foi vítima do tráfico de seres humanos. Esse tipo de crime induz pessoas a irem a outros estados ou países na esperança de um futuro melhor. Entretanto, o que encontram ao chegar no destino é uma realidade longe do que lhes foi prometido.

— Eu fui porque me falaram que eu iria ganhar muito dinheiro. Uns R$ 20 mil por mês. Me disseram também que o lugar era muito bonito, com muito conforto— conta uma jovem gaúcha de 25 anos que recentemente foi vítima de um esquema de exploração sexual (o nome e a cidade da mulher foram mantidos em sigilo por segurança).

Junto com mais de 30 mulheres de diversas regiões do Brasil, algumas inclusive menores de idade, a jovem viajou ao Pará após receber a proposta. Entretanto, ao chegar no destino, no município de Altamira, oeste do estado, o que encontrou foram condições precárias de moradia, pouca remuneração e a impossibilidade de voltar pra casa .

O crime foi denunciado por uma adolescente gaúcha de 16 anos que fugiu do estabelecimento onde as jovens eram mantidas. Após a ocorrência, as mulheres foram liberadas e os responsáveis, presos.

A estratégia já é usada há muitos anos, e cada vez mais pessoas são vítimas deste tipo de crime. Adriana de Oliveira, 44 anos, moradora de Porto Alegre, conta que, aos 29, foi seduzida por uma conversa semelhante. Enquanto trabalhava em um salão de beleza, recebeu a proposta de um amigo para ser cabelereira na Alemanha.

— Nos prometeram que não íamos fazer programas sexuais. A ideia de trabalhar menos e ganhar muito mais era ótima — lembra Adriana.

Junto com mais seis mulheres e dois homens, que conheceram no aeroporto, as vítimas foram para a Alemanha. Ao chegarem em Hamburgo, entretanto, os agentes da imigração desconfiaram do grupo e eles foram presos. Após passar três dias na polícia do aeroporto, foram deportadas e retornaram ao Brasil. Adriana lembra desse episódio como um "momento de sorte", pois não sabia o que esperava por ela do outro lado da fronteira. Em 2006, o homem que a convidou para trabalhar no exterior, Ernani Fernandes da Silva, hoje com 49 anos, foi preso por aliciar jovens à prostituição na Alemanha.

Estado carece de dados sobre o tráfico de pessoas

Nem todas histórias têm um final feliz como o de Adriana. Somente em 2012, mais de 4 mil pessoas desapareceram no Estado. O perfil delas segue a tendência do restante do país. Mais de 60% são mulheres, grande parte com idades entre 12 e 16 anos. Isso indica que a maioria é vítima do tráfico de pessoas, em especial para exploração sexual, comenta a Coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas no Estado do Rio Grande do Sul, Alexia Meurer. Entretanto, o Estado ainda carece de dados precisos sobre o assunto, pois os últimos números sobre esse tipo de crime remontam ao ano de 2004, comenta.

— O Rio Grande do Sul ainda não consegue falar muito sobre sua situação. A Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas existe há sete anos, mas somente em 2012 o nosso Estado passou a fazer parte — explica Alexia.

Conforme relatório divulgado pela CPI do Tráfico de Pessoas em novembro de 2012, o Brasil possui 241 rotas nacionais e internacionais de tráfico de pessoas. Destas, 28 são na região sul do país. Para a Ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, isso ocorre porque o Rio Grande do Sul faz fronteira com dois países e conta com rodovias que o conectam com os demais estados. A ministra indica que, entre as regiões de maior vulnerabilidade para este tipo de crime, estão a cidade de Uruguaiana, no sudoeste do Estado, Passo Fundo, no norte, e a região metropolitana.

Números

O Brasil tem 241 rotas nacionais e internacionais de tráfico de pessoas.
Destas, 28 são na região sul do país.

ENTREVISTA
Gaúcha de 25 anos
Vítima de exploração sexual

Junto com mais de 30 vítimas, uma jovem gaúcha de 25 anos foi traficada para o município de Vitória do Xingu, sudoeste do Pará, com a promessa de receber uma grande quantia em dinheiro para realizar programas sexuais. Ao chegar no local, a boate Xingu, deparou com condições precárias de moradia, e a impossibilidade de sair do estabelecimento.
A jovem viveu cerca de um mês no local, até que uma adolescente de 16 anos, também gaúcha, conseguiu fugir da boate e denunciar o crime ao conselho tutelar, que acionou a polícia. Os policiais intensificaram o combate à exploração sexual em municípios da região do Xingu. Até o momento quase 40 vítimas foram libertadas, e quatro pessoas foram presas.

ZeroHora— Como os criminosos te encontraram?
Vítima —
Eles procuram pegar quem já trabalha com isso. Eu já era garota de programa antes, mas eles nos fazem mil promessas e nos iludem.

ZH — Você já conhecia os homens que te levaram para a boate?
Vítima —
Sim, eu já conhecia os donos da boate Xingu. Já tinha trabalhado com eles outras vezes. Aí encontrei eles antes do Natal, e me convidaram para fazer um novo trabalho. Eles disseram que era para trabalhar como garota de programa, mas que eu iria ganhar muito dinheiro. Uns R$ 20 mil por mês. Disse que o lugar era bonito, com muito conforto. Aí fui eu e mais duas amigas.

ZH — Como foi quando vocês chegaram no local?
Vítima —
Chegando lá, não era nada daquilo que a gente pensava. O lugar era grande, todo de madeira, e não tinha janelas nos quartos. Havia umas 30 meninas, e dois banheiros para todas. Lá pelas 2h, 3h, eles desligavam os geradores, e ficávamos no escuro até clarear.

ZH — Você recebia pelos programas que fazia?
Vítima —
Sim, eu ganhava uns R$ 150 com cada programa. Além disso, se o cliente bebia alguma coisa do bar da boate, eu ganhava uns R$ 3 por dose.

ZH — Você tentou ir embora?
Vítima —
Eu me sentia muito sozinha, chorava muito no quarto. Tenho uma filha de oito anos e queria voltar a ver ela. Eu pedi várias vezes para eles me levarem ao aeroporto para voltar, mas eles me enrolavam para eu ficar mais tempo. Além disso, não conseguia juntar dinheiro suficiente para pagar a passagem. Eu não tinha escolha.

ZH — Como era a rotina de vocês na Boate Xingu?
Vítima —
A gente acordava, tomava banho, almoçava e ficava lá o dia todo para atender a clientes. À noite tomava outro banho, jantava e esperava mais clientes. Acho que não voltaria mais a cair nessa, porque se alguém me convidasse pra ir pra qualquer lugar, eu não iria, mesmo que fosse com gente conhecida. Eu me senti explorada. Se quiséssemos comer um lanche ou tomar alguma coisa diferente, a gente tinha que pagar. Uma carteira de cigarro custava quase R$ 15. Eu ouvia muito as meninas chorarem, e isso me comovia.

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