Na tarde de domingo, seis horas depois de um homem ser assassinado entre os bancos de sua igreja, na zona sul de Porto Alegre, o padre Moisés Antônio Dalcin resolveu subir de novo no altar para rezar missa.
O crime havia ocorrido logo depois da celebração das 10h, quando o Santuário Santa Rita de Cássia, no bairro Guarujá, ainda estava cheio de fiéis.
Ao ouvir os quatro disparos e a gritaria, o padre de 60 anos interrompeu a bênção de uma imagem de Santa Rita trazida por uma devota e correu da sacristia para a nave. Ainda teve tempo de ministrar a extrema-unção à vítima agonizante, o pintor automotivo José Evandro Saldanha Rodrigues, de 35 anos.
Por volta das 14h30min, quando a perícia foi concluída, e o corpo, removido, o padre e o zelador do santuário trataram de limpar o sangue espalhado pelo templo.
— Era muito sangue — conta o sacerdote.
Em situações desse tipo, é comum fechar a igreja ou realizar uma celebração de desagravo, um rito especial no qual o templo recebe uma espécie de purificação.
Dalcin decidiu telefonar para a sede da arquidiocese, para não tomar sozinho qualquer decisão. No contato com o vigário-geral, Tarcísio Scherer, ficou decidido que a rotina normal deveria ser mantida, para não provocar ainda mais comoção na comunidade abalada. Às 17h, como previsto, Dalcin celebrou nova missa.
— O público foi normal. Soube de pessoas que estavam na missa das 10h e não conseguiram dormir na noite de domingo, mas sempre trabalhei em paróquias da periferia e sou calejado em questões criminalidade e morte. Mesmo assim, esse caso me chocou — conta o religioso, que soma 34 anos de sacerdócio.
Rodrigues foi morto pelo ex-sogro, o tenente da reserva Luiz Francisco Goularte Porto, 55 anos, preso em flagrante e sob custódia da Polícia do Exército. O pintor automotivo esteve casado por uma década e meia com a filha do militar, Karen Porto. O casal teve dois filhos, hoje adolescentes, e separou-se de forma conflituosa.
Em junho do ano passado, Rodrigues foi preso pela Delegacia da Mulher, com base na Lei Maria da Penha, por agressão a outra companheira. Dois meses depois, em 23 de agosto, Karen procurou a delegacia. Relatou que o ex-marido a havia ameaçado de morte. Como soubera da prisão dele, ficara assustada.
Seguiram-se outras 16 ocorrências policiais registradas por Karen contra o ex-marido, a última delas na segunda-feira da semana passada.
O delegado responsável pelo caso, Gabriel Bicca, já ouviu as testemunhas, mas não fornece detalhes sobre o que aconteceu ao final da missa matinal do domingo.
— É notório que havia desavença entre eles. Mas meu objetivo é manter distância do litígio pessoal. O importante é que tenho elementos suficientes para que o acusado seja processado.
Cerca de 300 fiéis testemunharam o crime
O padre Moisés Antônio Dalcin conta que Luiz Francisco Goularte Porto, o militar preso pelo crime, era ministro da eucaristia na igreja e que se caracterizava por ser "muito correto, muito prestativo e muito presente".
Quanto à vítima, José Evandro Saldanha Rodrigues, vira-o pelo menos duas vezes durante as missas. Chamara sua atenção por usar botas, bombacha justa e camiseta. O templo, um santuário bastante procurado pelos católicos, tinha cerca de 300 fiéis na hora do crime, inclusive com devotos que vieram em excursões de Forqueta, Farroupilha e Caxias do Sul.
— Nessa época, quando as férias de verão passaram e Páscoa se aproxima, aumenta muito a presença nas missas — explica o padre.
Rodrigues estava acompanhado de uma mulher. Segundo relatos, ele vinha comparecendo à igreja para desafiar o ex-sogro. Porto, que normalmente assistia às missas com a família, estava sozinho.
— Ele já estava prevendo que poderia ocorrer algo. No meio da missa, saiu e voltou. Talvez tenha ido pegar a arma depois de ver o ex-genro dentro da igreja — contou um dos presentes, ainda no domingo.
No final da celebração, Porto aproximou-se do antigo genro. Foi quando se ouviram os disparos. Depois da missa, o padre Dalcin tinha alguns batismos a realizar.
— Se vocês insistirem, até tento fazer — disse ele.
Pais e padrinhos optaram pelo adiamento.









