A primogênita de Dario Sulzbacher não voltará mais para casa.
As lembranças de 15 anos ainda vivas é que nunca cessam de voltar à mente do montador de móveis.
Ele, a mulher e os irmãos de Ana Paula compartilham a dor desde o dia 17 de dezembro, quando o corpo da menina foi encontrado ao pé de um penhasco, a pouco mais de um quilômetro de onde moram, em Santa Cruz do Sul. E é o pai é que tem mais recordações da infância de Paula, como era chamada pelos familiares.
— Como a Luana nasceu quando ela tinha menos de um ano de idade, eu acabei virando, ao mesmo tempo, pai e mãe dela, por isso acabamos ficando muito próximos e continuamos assim.
A proximidade dificulta ainda mais a tentativa de entender o que aconteceu em 14 de dezembro, quando Ana Paula saiu de casa dizendo que iria à casa de uma amiga, mas na verdade estava combinando de encontrar com um vizinho. A mentira não incomoda tanto quanto a impossibilidade de ter podido ajudar.
— Fico me remoendo por não ter estado ao lado dela quando ela mais precisou — diz o pai, sem conter as lágrimas.
Sobram adjetivos para a adolescente que estava sempre rodeada de amigos, mas que gostava de ficar em casa com a família, navegar na internet e ouvir música.
Quarto que dividia com a irmã segue intacto
O porta-retratos com a foto da festa de 15 anos, a medalha de ouro do torneio de futsal da escola, o armário com as roupas e a cama beliche permanecem como a estudante deixou no quarto que divida com a irmã Luana, de 14 anos.
— Eu queria retirar a parte de cima da cama e doar as roupas que eu não vou usar, pra evitar ficar lembrando, mas minha mãe ainda não quer — conta Luana.
A única peça de Ana Paula que saiu do quarto foi o ursinho de pelúcia com o qual ela dormia. João Paulo, irmão caçula, de sete anos, adotou o bichinho da "mana" e tenta suprir a presença da irmã sempre abraçado aos pais.
"Todos estamos sofrendo, cada um da sua forma"
Zero Hora — Como é a rotina da família, atualmente?
Dario Sulzbacher — Estamos tentando retomar as coisas, eu e minha esposa já voltamos ao trabalho. Não dá pra ficar parado, porque temos outros dois filhos pequenos que precisam de nós. Mas não é nada fácil, ainda mais porque todo mundo fica perguntando e a gente acaba sempre lembrando.
ZH — De que forma vocês estão enfrentando a situação?
Sulzbacher — Todos nós estamos sofrendo, cada um da sua forma. A Silvane (mãe) não quer mexer no quarto dela, quer que as coisas fiquem como a Paula deixou, pelo menos por enquanto. A Luana está mais em casa e ajuda a cuidar do João. Estamos todos mais unidos.
ZH — Vocês têm alguma suspeita do que pode ter acontecido?
Sulzbacher — Não faço ideia. Ela confiava muito em mim e me contava tudo. A gente era muito apegado.
ZH — Como o senhor avalia o trabalho de investigação?
Sulzbacher — Não tenho o que falar. Estamos esperando que descubram o que houve. Não sabemos nada além do que sai na imprensa. Acho que o delegado até tem suspeitos, mas não quer nos dar falsas esperanças e também não quer que atrapalhe as investigações. O pessoal da vila já fica falando um monte de coisas, mas preferimos nem saber. Queremos a verdade.
ZH — O que mais o incomoda nesta situação?
Sulzbacher - É saber que ela não vai voltar e nem sabemos quem fez uma coisa dessas. Logo ela, que era a filha mais tímida, mais caseira e muito estudiosa. Não sei o que ela iria ser, porque era muito nova. Mas ela adorava animais e poderia ser veterinária. Mas a gente é pobre e isso ia depender de oportunidades.









