A lei que veta o uso de telefones celulares no interior de instituições penais parece não valer para os detentos do Presídio Regional de Santa Maria. Basta chegar o horário destinado ao banho de sol para que os apenados comecem o que pessoas que trabalham no local chamam, ironicamente, de "a bolsa de valores dos presos".
Cansado de presenciar irregularidades, uma pessoa que trabalha no presídio resolveu fotografar os delitos. Os registros feitos neste mês mostram os detentos fazendo uso de celulares, sem se preocupar em serem vistos por agentes da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), responsáveis pela segurança interna do presídio. Duas fotos mostram um mesmo homem usando dois aparelhos diferentes no mesmo dia.
- Cansei de presenciar este tipo de situação e nada ser feito a respeito - afirma o trabalhador.
Ele afirma que, além dos telefones, estoques (facas artesanais) e até facões são vistos nas mãos dos detentos.
Segundo o administrador-geral substituto do Presídio Regional, Celso Scotti, os detentos ficam sozinhos no pátio na hora do banho de sol - duas horas a cada turno do dia - porque os agentes estão nas celas fazendo a revista diária.
- Não dispomos de gente suficiente para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quando os agentes estão verificando as celas, os presos ficam assistidos por PMs (responsáveis pela guarda externa). Cerca de 80 detentos ficam juntos no pátio, e isso dificulta a identificação dessas irregularidades pelos policiais - argumenta o administrador.
Conforme Scotti, as denúncias de uso de celular geralmente vêm dos policiais militares. Quando isso ocorre, o policial é convidado a entrar no presídio e identificar o preso. A partir daí, o detento passa por revista pessoal e tem sua cela verificada.
O administrador-geral do presídio explica que, quando são feitas denúncias pontuais de irregularidades, o procedimento padrão é a identificação e responsabilização do preso. No entanto, quando os casos se tornam frequentes, a Susepe consegue articular com a Brigada Militar e a Justiça revistas gerais na cadeia.
Scotti admite que há falhas no sistema. Segundo ele, no momento em que é descoberta uma brecha na segurança, a Susepe tenta estancá-la:
- Todas as pessoas que entram no presídio passam por revista. Quando há alguma suspeita, a revista é feita de forma minuciosa. Para qualquer abordagem aos presos, usamos um procedimento padrão. Qualquer ação mal pensada pode gerar um tumulto generalizado e colocar em risco a segurança de todos.
O QUE DIZEM
Major Paulo Antônio Flores Oliveira, comandante interino do 1º Regimento de Polícia Montada da Brigada Militar:
"A Brigada Militar faz a guarda externa do presídio e a patrulha das redondezas, além de auxiliar em revistas. Nossos policiais são orientados a, caso testemunharem irregularidades, tomarem providências: avisar a Susepe, apreender o objeto e registrar ocorrência na Polícia Civil. Neste mês, tivemos uma notificação nesse sentido."
Marcelo Arigony, delegado regional de Polícia Civil
"Isso comprova algo que já observávamos: os presos, a partir de celulares, interagem com o mundo externo e isso influencia na criminalidade aqui fora. A Susepe faz o que pode, mas a polícia trabalha enxugando gelo."









