Dois meses após a reforma de uma antiga agência do Banrisul no bairro São João, na zona norte de Porto Alegre, gastando R$ 480.456.80 para instalar duas delegacias da Polícia Civil, parte do prédio de 925m² tem de ser desocupada por problemas estruturais.
Acomodando a 3ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (3ª DPPA) e a 4ª Delegacia da Polícia Civil (4ª DP), o local soma precariedades em dose dupla. Vítimas têm dificuldades de chegar por falta de estacionamento, e policiais não conseguem trabalhar por causa de condições inadequadas do ambiente.
Ontem, agentes da 3ª DPPA começaram a abandonar o prédio, voltando para a sede anterior no bairro Navegantes. Para a mudança, um caminhão ocupou parte da calçada, interrompendo o trânsito de uma das três pistas na frente do prédio, na Avenida Benjamin Constant, quase esquina com a Rua Dom Pedro II — um dos trechos mais movimentados da Capital.
Acessar o prédio, aliás, era um drama adicional para vítimas de crime. Localizado em uma curva, sem área de estacionamento para visitantes, quem busca atendimento se obriga a parar o veículo em cima da calçada, correndo o risco de ser multado. Depois, tem de subir um lance de escadas até a porta.
Se a vítima é idosa ou sofre alguma deficiência motora pode usar um elevador, mas o equipamento, novinho em folha, ao que parece, é pouco usado. Ainda está envolto em plástico, e o portão de acesso, está trancado com um cadeado. Mesmo que estivesse ligado, o elevador só sobe até o primeiro piso, onde está a 3ª DPPA — responsável por lavrar flagrantes na zona norte da Capital. Se o assunto for referente à 4ª DP, no segundo andar, os agentes precisam descer para falar com a vítima.
Um estacionamento lateral, reservado para viaturas da Brigada Militar e da 3ª DPPA, é acanhado. Caso chegue um guincho rebocando um carro, terá de ficar sobre a calçada. A área para as viaturas da 4ª DP é no subsolo e, quando chove forte, pode molhar os carros a meio metro de altura. Até agora, nenhuma enxurrada invadiu o espaço. Providencialmente, existe uma bomba de sucção para expulsar a água.
As repartições internas do prédio são divisórias envidraçadas, com privacidade mínima. Se uma vítima estiver em uma sala e o agressor dela, em outra, elas poderão se ver, causando constrangimento e contrariando norma de atendimento policial. No alojamento dos plantonistas da 3ª DPPA, as vidraças foram encobertas com papeis. Caso fossem presos homens e mulheres, eles seriam misturados em cela única — adaptada no espaço onde era um cofre bancário.
Prédio tem "porta suicida"
O prédio tem apenas uma chave de energia elétrica para os dois andares, determinando que todas as lâmpadas fique ligadas ou desligadas ao mesmo tempo. Como o serviço da 3ª DPPA é de 24 horas, todas ficam acesas. A energia não comporta a carga de consumo e não permite instalação de ar-condicionado, causando danos a computadores e desconforto ao servidores.
No segundo piso, nove das 12 salas são desprovidas de janelas. Para enfrentar o calor, funcionários usam ventiladores trazidos de casa.
— Em dias muito quentes, a gente tem dificuldade de respirar — lamenta um servidor.
A cozinha é improvisada. Quem precisa lavar um copo ou xícara tem de usar a pia do banheiro. O prédio ainda tem uma estranha abertura no segundo piso, a "porta suicida" como é conhecida, pois quem a abre depara com o "nada" e o estacionamento lateral, cinco metros abaixo.
— Outro dia um visitante quase caiu. Teve de ser chaveada. Quem será que projetou isso? — comentou um servidor.
A situação dá saudade da antiga sede da 4ª DP, no bairro São Geraldo. O curioso é que, em 2010, a repartição foi classificada como de péssimas condições por uma inspetoria interna e com o pior setor de plantão da Capital.
Contrapontos
O que diz o delegado Thomaz Cleber Mercio Pereira, interino no comando da 4ª DP:
"A saída da 3ª DPPA do prédio vai melhorar o atendimento a quem procurar a delegacia. O estacionamento lateral será liberado para o público e uma nova rede elétrica está sendo projetada para reduzir os problemas de climatização."
O que diz a Chefia da Polícia Civil:
Trâmites administrativos não permitiram que as adequações necessárias no prédio fossem realizadas neste momento, tais como aumento no número de vagas de estacionamento de veículos e climatização do ambiente.













