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Mortes em família12/01/2013 | 11h01

Cristal tenta entender tragédia: após primogênito matar um irmão, pai tira a própria vida

Corpos de Arno Ehlert, 70 anos, do filho e da nora dele foram enterrados no dia 9 deste mês

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Cristal tenta entender tragédia: após primogênito matar um irmão, pai tira a própria vida Caco Konzen/Especial
Sepultamento, no dia 9, foi divulgado em carro de som Foto: Caco Konzen / Especial

A manhã de terça-feira, 8 de janeiro, estava abafada, propícia para mexer com água e tomar sorvete. Arno Ehlert, 70 anos, seguiu o roteiro. Depois do café da manhã com a mulher, Lorinha, foi para o pátio da residência, no centro de Cristal, e dedicou-se à lavagem de uma lona. O trabalho com a mangueira era interrompido, de tempos em tempos, por um minuto de prosa com algum conhecido que passava por ali.

Mais tarde, o idoso, conhecido em toda a cidade de 7 mil habitantes como proprietário de uma tradicional ferraria situada à margem da BR-116, sentou-se à mesa com a família, ao lado do parreiral repleto de cachos maduros. Comeu sorvete e melancia na sobremesa. Levantou-se às 13h e dirigiu-se ao galinheiro, como costumava fazer todos os dias. Mas a rotina acabara-se ali. Não voltou com ovos, como esperavam os familiares. Tirou a própria vida, dando um basta ao sofrimento que o atormentava havia quase duas semanas.

Dias antes, o chefe da família Ehlert enfrentara uma tarefa dolorosa. Batera à porta da Delegacia da Polícia Civil local para denunciar o próprio filho por assassinato. Diante dos policiais, contou que o primogênito era o responsável pela morte do filho mais novo e da nora.

— Ele era um homem justo. Mas teve de engolir o próprio orgulho para entregar o Fernando — revela um familiar.

Mais do que um caso de polícia, as mortes na família Ehlert são uma tragédia familiar, movida a inveja e ganância. Na madrugada do dia 24 de dezembro, em Canguçu, no sul do Estado, foram encontrados carbonizados os corpos de Renato e Jaquelaine Ehlert, ambos com 33 anos, filho e nora do patriarca. Os dois foram assassinados com um pé de cabra em sua própria casa, ao lado da ferraria, quando chegavam do culto evangélico ao qual compareciam todo domingo. Depois, seus corpos foram arrastados pelos corredores da residência, deixando um rastro de sangue.

O filho mais velho de Ehlert, Fernando, 46 anos, admitiu o crime. Contou que estava irritado com o caçula, que havia assumido o comando da serraria da família. A discórdia era antiga, mas fora negligenciada. Havia tempos Fernando ameaçava publicamente o pai e o irmão. O motivo parecia ser inveja.

— Ele não gostava da Jaque e do Renato porque eles eram os preferidos do avô — especula um neto, durante o velório.

Cartazes espalhados por toda a cidade informando sobre o funeral dos Ehlert davam a dimensão do impacto do crime. Em razão da demora na liberação dos corpos do casal, os três foram sepultados juntos no dia 9. Em 25 anos de emancipação, Cristal nunca tinha vivido tamanha brutalidade. Para anunciar a despedida, um carro de som rodava os quatro cantos do município, informando que o velório seria na Comunidade Evangélica Cristo Salvador, e o enterro, no cemitério do local. Mesmo sob um sol de 30°C, os conterrâneos e parentes vindos de longe se apinharam para a despedida. Arno foi vestido com o terno cinza comprado dias antes para sepultar o filho e a nora.

Briga por herança teria motivado crime

A origem da tragédia foi a disputa por dinheiro, dizem na cidade. Há poucos meses, Fernando, Renato e os irmãos do meio Edvin e Celi procuraram um avalista para calcular o valor das posses do pai. Com isso, Renato pretendia comprar a parte dos demais e assumir o negócio com a mulher. Mas Fernando não concordou.

— Ele não se conformava em perder terreno para o mais novo — disse Lisiane Ehlert da Silva, filha de Celi.

Além do dinheiro, desentendimentos e a personalidade forte de Fernando podem ter motivado o acontecido. Cidadãos do pequeno município do Sul contam que seu comportamento destoava da família.

— Não tinha muitos amigos. Era fechado, não gostava de trabalhar e sempre chegava atrasado na ferraria — descreve outro parente.

Um investigador da Polícia Civil local confirma a polarização entre os perfis:

— O mais novo tinha uma visão atualizada de negócios, era organizado, correto. O outro tinha problemas de relacionamento.

Ninguém tem dúvidas de que Renato era o favorito do pai. Gostava de pescar e cantava na igreja. Ele e a mulher eram integrantes assíduos da Comunidade Cristã de Cristal, uma vertente evangélica que não permite festa nem bebida alcoólica.

Junto há mais de 10 anos, o casal não tinha filhos, mas apostava na fertilização assistida para engravidar. Segundo a prima Paula Ehlert, fazia uma semana que Jaquelaine tinha ido a Porto Alegre para uma nova tentativa.

— Havia chances de ela estar grávida quando morreu — afirma a prima.

Desde que o assassinato aconteceu, a ferraria está fechada. Na porta, uma placa avisa os clientes sobre o luto. Contratado para garantir a segurança da família e vigiar o local à noite, o segurança Aristeu Dias está decepcionado por não ter conseguido evitar a perda do patrão:

— Mesmo abalado, o seu Arno falava em reabrir a firma. Mas de repente, mudou de ideia e resolveu ir para perto do caçula.

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