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20 horas como reféns31/12/2012 | 11h45Atualizada em 31/12/2012 | 13h14

Uma madrugada que ficará na memória dos Buratti

Família relata que assaltantes não foram agressivos, apenas pediam silêncio

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Uma madrugada que ficará na memória dos Buratti  Caco Konzen/Agencia RBS
Religiosos, os Buratti retomam a rotina simples após serem arrancados de casa pelos bandidos Foto: Caco Konzen / Agencia RBS
Lara Ely, Cotiporã

lara.ely@zerohora.com.br

Quando o patriarca da família Buratti ouviu o barulho na janela por volta das três da manhã, quis pegar a espingarda no armário e tocar bala nos bandidos. No auge dos 80 anos, Seu Librando foi impedido pela mulher e ficou quieto, só ouvindo os passos bruscos que se dirigiam para a casa do filho e vizinho de porta. Se tivesse seguido seu impulso, cogita, poderia ter evitado incomodação.

Em uma casa de material e dois pisos, Ademir, 49 anos, dormia tranquilo com a mulher Ivone, 51 anos, e as filhas Francieli, 23 anos, Michele, 21 anos, Laís, 20 anos, e Milene, 11 anos, e os genros William e Marciano. Acordados aos gritos quando dois homens negros de alta estatura e aproximadamente 50 anos invadiram a residência com um Astra, os Buratti foram arrancados de suas camas e jogados mato adentro pelos bandidos que fugiam da polícia.

— Isso depois dos assaltantes tomarem água gelada e comerem um pote inteiro de fermento de pão — relembra Ivone, aos risos, ainda um pouco assustada.

Ao saírem de casa, os Buratti, um genro (o outro conseguiu se esconder debaixo da cama) e os bandidos iniciaram, por volta das três da manhã de domingo, uma longa jornada pelo entorno da residência.


Ademir conta que os gritos dos bandidos acordaram a família
Foto: Caco Konzen, Especial

Essa foi a primeira vez que a família de agricultores passou por algum tipo de assalto ou sequestro. Até domingo, esse tipo de coisa eles só conheciam pela televisão. Mas o susto não foi suficiente para arrancar do rosto de Ademir o largo sorriso que expressa com facilidade. Talvez porque a ficha ainda não tenha caído, às 9h de segunda-feira, quando recebeu nossa equipe em casa.

Ou ainda porque o estilo de vida simples do agricultor, em contato com a terra e ao lado dos filhos, não permita pensar que o que aconteceu tenha sido por maldade. Apenas, uma história a mais para contar de 2012. Parece que é assim que o episódio será lembrado pela família, que tem a religiosidade como marca principal.

O impacto, apesar de forte, não mostrou-se tão negativo quando poderia ser. Prova disso é que os assaltantes-sequestradores acabaram conquistando uma certa empatia da parte da família.

Primeiro por um dos bandidos tirou o próprio colete para colocar na terceira filha. Segundo porque em nenhum momento foram agressivos, apenas pediam silêncio. Enfim, porque disseram que também tinham família, e o que mais queriam eram voltar para casa a salvos.

— Mas os bandidos também foram um pouco abusados — ironiza o agricultor, ao lembrar em que certo momento foi solicitado que ele e o genro transportassem as armas (descarregadas), e que os assaltantes faziam revezamento no cochilo — enquanto um vigiava, o outro dormia.

Quem ficou mais impactada com o susto foi a mulher, que apesar de gostar do local onde vive há mais de vinte anos, pensa em se mudar. Como a safra da uva se aproxima, e o marido transporta a produção do parreiral diariamente a noite para a empresa Tecnovin, nas redondezas, ela está com medo de ficar sozinha com a filha pequena.

Leia mais: "A sede era muito maior do que a fome", diz jovem que foi sequestrado

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