Pastor evangélico, pregando moralidade ao rebanho de fieis, Clóvis Ribeiro, 41 anos, não despertava desconfiança – exceto pelo fato de morar numa confortável cobertura no centro da cidade turística de Gramado, na serra gaúcha. Foi com surpresa que os moradores testemunharam a prisão dele, na manhã de sexta-feira. E mais espantados ainda ficaram ao saber que é um dos criminosos mais procurados do Estado de São Paulo.
Morador de Santos (SP), Ribeiro, conhecido pelo apelido de Nai, seria o investidor dos lucros obtidos por uma quadrilha com penetração em toda a Baixada Santista e chefiada por Ronaldo Duarte Barsotti de Freitas, o Naldinho. O grupo limpava dinheiro em três concessionárias de automóveis e uma oficina.
Com o desaparecimento de Naldinho, em 2008 – supostamente eliminado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa paulista e rival da sua quadrilha –, Nai teria se refugiado no Rio Grande do Sul. Aqui mudou de vida. Passou a se apresentar como pastor evangélico. Usava o mesmo nome e inclusive renovou, este ano, a carteira de motorista. Isso é possível porque os bancos de dados das polícias estaduais brasileiras não se comunicam – policiais gaúchos não sabiam que ele era foragido.
Nai e Naldinho serviram juntos ao Exército e depois foram colegas no porto de Santos. Após investigação, agentes do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc) paulista concluíram que os negócios da dupla eram fachada para lucro obtido com tráfico.
Os policiais surpreenderam o bando num sítio pertencente a Naldinho, em Ribeirão Pires (SP), em 6 de junho de 2005. No local e numa revenda de veículos foram apreendidos 20 carros. Policiais localizaram 245 quilos de cocaína. Os agentes do Denarc também acharam com o bando um arsenal: duas metralhadoras URU, uma metralhadora Beretta, uma metralhadora AMT, um rifle Winchester, uma pistola .380, uma pistola 9 mm, uma pistola Walter PPK 7.35mm, uma pistola CZ 7.65 mm e um revólver calibre 32. E milhares de projéteis.
No entusiasmo pelas prisões, o delegado paulista Ivaney Carlos de Souza, do Denarc, classificou Nai e seu sócio Naldinho de “maiores traficantes de São Paulo”. Uma das suspeitas alimentada há anos contra Nai, é de que lave dinheiro obtido com o tráfico de armas para a guerrilha colombiana Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) – a mais antiga guerrilha da América.
Em setembro de 2005, foi interrogado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Armas da Câmara Federal (trechos ao lado). Ele negou, mas a suspeita é de que remetesse armas para os guerrilheiros colombianos, em troca de droga.
Mesmo se intitulando pastor evangélico, Nai continuou temido. Em 14 de novembro passado, ele teria ameaçado um pastor em Praia Grande (SP).
— O religioso, ligado à Assembleia de Deus, diz que Nai o ameaçou de morte caso não pagasse “uma dívida inexistente” — revela a Zero Hora o delegado Fábio Laino, do Denarc paulista.
Conforme a Polícia Civil paulista, Nai responde por homicídio de um suposto integrante do bando.
Mensageiro de facções
Há uma dúvida se Nai teria trabalhado, em algum momento, para o Primeiro Comando da Capital (PCC), a principal organização criminosa paulista. Essa informação chegou a ser divulgada por policiais gaúchos, quando da prisão do quadrilheiro.
Em 2005, os policiais do Denarc paulista disseram que integrantes da quadrilha integrada por Nai e Naldinho eram desafetos do PCC, que inclusive teria eliminado alguns dos parceiros de Nai. Seria uma disputa por pontos de tráfico na Baixada Santista controlados por Naldinho. Hoje o PCC praticamente monopoliza a venda de drogas não apenas no Litoral, como também em outras regiões de São Paulo.
O Denarc afirma também que Nai tem ligações com o Comando Vermelho, para quem forneceria drogas.
É possível, já que Nai seria um “matuto”: um contrabandista especializado em trocar drogas por armas, trazendo o material do Exterior, sem vínculo formal com nenhuma facção.
Numa ordem de prisão expedida contra Nai em 2005, consta que a quadrilha dele abastecia usuários na Baixada Santista e também no Rio de Janeiro (favelas da Rocinha, Complexo do Alemão e Morro do Turano). A última entrega de entorpecentes no Rio, antes da prisão do bando, foi efetivada pela quadrilha num sábado, 4 de junho de 2005, sendo monitorada pelo Denarc.
Após a prisão em 2005, o bando se desarticulou. Em 2008, logo após saírem da cadeia, Naldinho e três comparsas desapareceram. Informações obtidas pelo Denarc indicam que eles teriam sido executados pelo PCC, como represália a vendas de drogas que fizeram ao CV fluminense e também por venda de cocaína de baixa qualidade.
Confira imagens registradas e divulgadas pela Polícia Civil:













