Depois de desocupar a cadeira de diretor do Presídio Central de Porto Alegre, o tenente-coronel Leandro Santiago fez questão de deixar uma ferradura como sinal de sorte para o seu substituto. O novo chefe do Central, tenente-coronel Rogério Maciel da Silva, 48 anos, recebeu o objeto com apreço, acomodou-o dentro de uma cristaleira que enfeita a sala, e de lá não deve sair. Ele acredita que, para o posto que ocupa desde ontem, mais do que sorte, tranquilidade e sabedoria devem ser suas aliadas.
Assista aos projetos de Maciel:
Apesar ressaltar os pontos positivos do Central, que incluem trabalho de ressocialização dos presos, usina de reciclagem e atividades com dependentes químicos, Maciel tem dimensão da bronca que o espera. Considerado o pior presídio do país, as condições do prédio são precárias e o tratamento aos apenados contraria qualquer preceito de direitos humanos.
É justamente na dignidade que está amparado todo o discurso de Maciel. Com a simplicidade de um xerife bonachão, diz que a educação está no centro de todas as formas de recuperação e de uma convivência pacífica. Tem o foco no bem-estar do preso e dos seus visitantes.
— Todos devem ser tratados com dignidade. Não temos que alimentar o crime. Foi-se aquela ideia que se tinha de que o presídio era um depósito de gente. Não é fácil mudar essa cultura. É um processo de reeducação de todos, até dos presos. Temos ideia de melhorar a vida das pessoas que por aqui passam — defende Maciel.
Natural de Porto Alegre, Maciel é filho e neto de brigadiano. Cresceu rodeado por fardas e o sentimento de proteger a população, como faz questão de ressaltar. Se estivesse vivo, o pai, que morreu em 1986 por problemas no coração, tendo atingido apenas a patente de sargento, viveria satisfação imensa vendo o filho ocupar tal sucessão de cargos estratégicos na Brigada Militar. De todas as experiências que teve, nutre uma relação de afinidade com o 9°Batalhão de Polícia Militar, que atende a área central da Capital.
— Quem passa por lá sabe lidar bem com todas as situações. Ali sim é casca-grossa: 400 mil pessoas circulando por dia, e é onde se concentra boa parte dos marginais. Um dia nunca é igual ao outro.
Após 29 anos na Brigada Militar — metade deste tempo em cargos de chefia —, Maciel diz que foi com naturalidade que recebeu o convite em meio ao feriado de 15 de Novembro:
— Não me assusto por pouca coisa, até porque a gente tem uma formação que dá essa tranquilidade. Sabemos que BM, onde você chega, já está organizada. É fácil de seguir e manter.
Maciel está orgulhoso em assumir cadeia que não tem rebelião há mais de 10 anos
No gabinete, onde Maciel discursava com serenidade, a luz acendia e apagava insistentemente. Apressou-se para explicar que o sistema de energia do local passava por manutenção. Foi a partir da "pane" que começou a discorrer em detalhes sobre a estrutura que acabara de assumir.
O tenente-coronel jamais atuou em qualquer setor do presídio. Os motivos pelos quais seu nome foi escolhido para a função ele desconhece, mas tem palpite:
— Talvez pela função que eu estava desempenhando na Agência Regional de Inteligência, fazendo análise criminal para que o Comando tomasse providências.
Esse serviço estratégico deve ditar traços da sua gestão, valorizando as análises da equipe de inteligência do Central e viabilizando que bons projetos saiam do papel. Planeja seguir na mesma linha de seu antecessor, tenente-coronel Leandro Santiago. Maciel Está feliz. Orgulha-se de assumir uma prisão em que não ocorrem rebeliões há mais de 10 anos.









