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Colapso nas cadeias12/11/2012 | 07h01

Por falta de vagas, 350 presos podem ser soltos do Presídio Central de Porto Alegre

Situação ocorre pela escassez de lugares nos albergues para os regimes aberto e semiaberto

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Por falta de vagas, 350 presos podem ser soltos do Presídio Central de Porto Alegre Daniel Marenco/Agencia RBS
Assaltantes, ladrões de carros e traficantes progridem de regime e devem sair do Central Foto: Daniel Marenco / Agencia RBS

Nunca a expressão colapso prisional foi tão adequada para retratar o atual momento das cadeias na Região Metropolitana de Porto Alegre. A histórica escassez de investimentos atinge o ápice neste final de ano, provocando uma situação inusitada que poderá abrir as celas do Presídio Central para 350 apenados nos próximos dias.

São assaltantes, ladrões de carros e traficantes com progressão ao regime semiaberto autorizada pela Justiça, mas que seguem atrás das grades por falta de vagas nos albergues — o déficit ultrapassa 1,4 mil.

A situação dos presos, considerada ilegal, provocou a reação de advogados e da Defensoria Pública, resultando em pedidos à Justiça para que os apenados voltem para casa, cumprindo o restante da pena em prisão domiciliar. A questão deverá ser decidida pela Vara de Execuções Criminais (VEC) de Porto Alegre nesta semana.



Além da solicitação de prisão domiciliar para os 350 presos do Presídio Central, outros pedidos à conta-gotas — em média dois por dia — vêm batendo na porta da VEC. E a decisão judicial tem sido assim: a VEC expede uma guia de soltura para o preso.

Ele deixa o presídio com ordem de, por conta própria, se apresentar à sede da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), na Capital, e, em até 48 horas, ser encaminhado para uma unidade do semiaberto. Caso isso não ocorra, o apenado é beneficiado com a prisão domiciliar.

Nos últimos 30 dias, 64 apenados se apresentaram à Susepe, oriundos do Presídio Central e de outros presídios. O número de presos transferidos para albergues ou que voltaram para casa não foi divulgado, mas, segundo a Susepe, pelo menos oito deles não procuraram a superintendência e são considerados foragidos.

A Defensoria Pública é favorável à prisão domiciliar com o argumento de que os presos beneficiados com a progressão para o semiaberto não podem ficar trancafiados em presídios esperando a criação de vagas nos albergues.

Segundo o defensor Irvan Antunes Filho, coordenador das Casas Prisionais da Defensoria — setor que acompanha a execução das penas de presos —, a situação atual configura uma irregularidade, já reconhecida pela Justiça, em Brasília:

— Não podemos compactuar com isso. Caracteriza constrangimento ilegal, e existem decisões neste sentido nos tribunais superiores.

Para Antunes Filho, a concessão de prisão domiciliar não significa aumento dos índices de criminalidade.

— Este argumento não é muito válido. É temerário limitar o direito de uma pessoa. Eventualmente, presos vão reincidir, mas terão aqueles que vão cumprir a prisão domiciliar — sustenta o defensor.

O processo contendo os pedidos de prisão domiciliar para os 350 presos do Central está sob análise do Ministério Público (MP). A instituição reconhece a ilegalidade da situação, mas discorda do pedido da Defensoria.

— Queremos uma análise minuciosa, caso a caso, para evitar soltar, equivocadamente, um preso com ordem de prisão ou condenação em outros processos. Estamos cobrando da Susepe a criação de vagas. A solução não pode ser a prisão domiciliar. São presos perigosos — afirma o subprocurador para assuntos institucionais do MP, Marcelo Dornelles.

O pedido da Defensoria será decidido em conjunto pelos três magistrados da VEC. Sem antecipar o que será definido, o juiz Sidinei Brzuska, lamenta que a situação tenha chegado a este ponto:

— Nada disso aconteceria se a Susepe cumprisse as decisões judiciais. É muito difícil administrar as queixas dos presos, perguntando por que a assinatura do juiz vale no mandado de prisão e não vale na ordem de progressão de regime.

Brzuska afirma que, se for preciso, não descarta a possibilidade de mandar lotar ônibus com os presos com direito à progressão e, sob escolta de policiais, desembarcar o grupo de apenados na porta da Susepe, no quarto andar do prédio da Secretaria da Segurança Pública (SSP).

Contraponto

O que diz Gelson Treiesleben, superintendente da Susepe

Acreditamos que não vá se concretizar (a prisão domiciliar para 350 apenados) porque estamos alugando prédios em Porto Alegre e Região Metropolitana que possam ser adequados para atender a demanda do semiaberto. Estamos em análise de três locais, e, na próxima semana, deveremos assinar um dos contratos. Para aumentar o número de vagas, estamos com processo em andamento para construção de um Instituto Penal em Arroio dos Ratos e outro em Novo Hamburgo, ambos com 120 vagas. Existem, ainda, obras de recuperação nos institutos penais de Gravataí, com 60 vagas, Feminino de Porto Alegre, com 120 vagas, e Pio Buck, também com 120 (não se trata dos prédios interditados).

A situação dos albergues na Região Metropolitana, onde faltam 1.478 vagas:

Anexo ao Instituto Penal de Novo Hamburgo

Presos: 0

Situação: um vendaval, em novembro de 2011, derrubou um dos pavilhões emergenciais, e o outro foi interditado em julho após ter sido depredado pelos presos

Vagas perdidas: 300

Instituto Penal Irmão Miguel Dario

Presos: 149

Situação: um incêndio em agosto de 2010 destruiu um pavilhão. Outro, construído emergencialmente em julho de 2010, até hoje segue fechado, por falta de redes de água e de luz

Vagas perdidas: 280

Anexo à Penitenciária Estadual do Jacuí

Presos: 102

Situação: pavilhão emergencial apresentou problemas de estrutura desde ocupação, em 2009, e foi depredado pelos presos. Está interditado desde julho

Vagas perdidas: 150

Instituto Penal de Gravataí

Presos: 3

Situação: interditado em março após incêndio que destruiu dormitórios. Está sendo reformado com mão de obra prisional por três apenados

Vagas perdidas: 60

Colônia Penal de Venâncio Aires (ex-Instituto Penal de Mariante)

Presos: 183

Situação: dos dois prédios, o mais antigo está interditado desde junho por falta de segurança e estrutura deficiente, onde uma grade chegou a ser amarrada com pano. Em um ano, ocorreram duas execuções e um desaparecimento, levando a polícia a fazer buscas em um poço. Presos são visto com armas

Vagas perdidas: 172

Instituto Penal de Charqueadas (ex-Instituto Penal Escola Profissionalizante)

Presos: 230

Situação: interditado por falta de segurança em agosto. Em pouco mais de um ano, aconteceram quatro execuções de apenados e uma tentativa de homicídio. Os corpos foram mutilados e enterrados, dentro do terreno do instituto ou deixados nas proximidades. Não pode ultrapassar a 250 presos

Vagas perdidas: 66

Instituto Penal de Viamão

Presos: 459

Situação: não foi interditada, simplesmente, para não agravar ainda mais o quadro. Relatos à Justiça revelam que viciados entram para comprar drogas vendidas por presos, e prostitutas para encontros íntimos. Durante rebelião, em março, apenados destruíram um pavilhão emergencial

Vagas perdidas: 150

Instituto Penal Pio Buck

Presos: 104

Situação: dois prédios estão interditados desde outubro, e um terceiro — uma garagem improvisada — é usado para abrigar presos com problemas cíveis, devedores de pensão alimentícia

Vagas perdidas: 300

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