A Polícia Civil se dedica no fim de semana a ouvir familiares e conhecidos do coronel reformado do Exército Julio Miguel Molinas Dias, 78 anos, assassinado quando chegava em casa às 21h de quinta-feira, no bairro Chácara das Pedras, em Porto Alegre. A morte do oficial chamou a atenção porque ele exerceu cargo de comando, nos Anos 80, no Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do Rio de Janeiro. A repartição era encarregada de vigiar e reprimir os opositores do regime militar que vigorava na época, no Brasil.
Molinas era chefe dos militares responsáveis pelo atentado ao Riocentro, ocorrido em 1981 no Rio. Até por isso e pela sua função no passado, policiais não descartam que sua morte tenha ocorrido por vingança. Viúvo, ele morava sozinho em um sobrado na Rua Professor Ulisses Cabral. Foi baleado três vezes ao retornar de uma visita a uma das filhas em um bairro vizinho. A perícia indica que o militar, armado com uma pistola calibre 9mm, reagiu à investida criminosa.
O delegado Luís Fernando Martins Oliveira, titular da 14ª Delegacia de Polícia Civil e encarregado do caso, fez uma busca preliminar na casa de Molinas e encontrou três de suas quatro armas: uma pistola 9mm, um revólver e uma espingarda. Falta na residência, justamente, a pistola 9mm que ele teria usado para reagir aos bandidos. A suspeita é de que os criminosos a tenham roubado.
O delegado pretende formalizar o depoimento das duas filhas de Molinas, que já foram ouvidas preliminarmente. Elas informaram que o pai era muito reservado, especialmente com relação ao seu período no Exército. Até para proteção deles, evitava comentar esses temas com familiares. As filhas também dizem que jamais ouviram falar que o pai tivesse inimigos.
Uma das hipóteses é de que Molinas tenha sido vítima de assaltantes comuns, que procuravam levar seu carro ou saquear sua casa (ele foi morto em frente à residência). Contra essa probabilidade, porém, pesam três informações. Uma delas é que um dos atiradores estava no banco do carona do C4 do militar. Como ele entrou ali? Será que ele conhecia o oficial? Se conhecia, provavelmente não era um assaltante e sim alguém que o estava sequestrando. Aí surge a possibilidade de que quisessem alguma informação e não dinheiro.
A outra informação intrigante é o elevado número de tiros disparados durante a briga que resultou na morte de Molinas, 15 — três deles acertaram o coronel no tórax, no braço esquerdo e no rosto, o tiro fatal.
A terceira informação que não combina com a hipótese de assalto é que nada teria sido levado de Molinas, exceto a sua pistola. Um bolsa de couro — com celular, óculos, relógios, carteira e R$ 231 — ficou dentro do carro.
Opinião: os mistérios que envolvem o coronel
O Caso do Riocentro
- O atentado ao Riocentro ocorreu por volta das 21h de 30 de abril de 1981, durante show comemorativo ao Dia do Trabalhador. Um explosivo acabou detonando dentro de um Puma, onde estavam o sargento Guilherme do Rosário, que morreu, e o capitão Wilson Machado, que sobreviveu com graves ferimentos.
- Militares de extrema direita, descontentes com a abertura política iniciada pelo general João Figueiredo (1979-1985), cometeram o malogrado atentado no Riocentro. Queriam culpar grupos de esquerda, para causar um retrocesso no regime. No entanto, houve uma trapalhada, a bomba explodiu no colo do sargento Rosário.
Em galeria de fotos, relembre a noite do atentado no Riocentro
- Ataques terroristas se multiplicavam pelo país, com bombas destruindo bancas de revistas e sedes de jornais de esquerda, os chamados "nanicos".
- Em agosto de 1980, uma carta bomba atingiu a secretária da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio, Lyda Monteiro da Silva, que teve o braço decepado e morreu no hospital. No mesmo dia, uma bomba foi detonada na Câmara de Vereadores do Rio, ferindo seis pessoas.













