No auge da ditadura Médici, os jornais do Rio destacaram uma "audaciosa ação da guerrilha terrorista": o resgate, por seus comparsas, de um preso levado ao Alto da Tijuca para apontar esconderijos. A foto do Fusca queimado em que transportavam o prisioneiro, fazia tudo verossímil.
Mas a imprensa, sob censura e sob controle direto ou indireto, não daria a ênfase que deu se a notícia fosse verdadeira. Só algo falso, "plantado" pelos que mandavam em tudo, teria tanto destaque, até no rádio e na TV.
Ao ler os jornais, no exílio no México, desconfiei. A saída de presos para "reconhecimento" era supersecreta e um resgate na rua seria difícil até interceptando telefones do Exército. Conhecia o horror do quartel "de onde saiu o preso", e nada entendi.
A farsa sobre o desaparecimento de Rubens Paiva começou ali. Dias antes, a mãe de uma exilada no Chile fora detida ao desembarcar no Rio com uma carta em que outra exilada indagava se Rubens "havia entregue a encomenda". Pouco antes, ele fora ao Chile para que sua empresa de engenharia participasse da construção do metrô de Santiago e, como era comum, trouxe cartas e presentes dos exilados brasileiros a parentes e amigos.
Em seguida, a Aeronáutica o prendeu em sua casa para "esclarecimento". No dia seguinte, a mulher e a filha, presas depois, ouviram sua voz no quartel do DOI-Codi, onde outros presos o viram.
O médico militar Amilcar Lobo (que, com o estetoscópio, media se o preso "aguentava" o eletrochoque) conta que o examinou na tortura. Rubens nada sabia de nada e não podia sequer inventar subterfúgios para interromper a tortura. Morreu por isto. Por ser absolutamente alheio ao que lhe indagavam.
Só com outro crime a farsa se desmoronou através da própria imprensa, 41 anos depois. E, por ironia, revelada por um repórter nascido em 1964, o ano do golpe que gerou tudo isto.
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