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Caso Rubens Paiva25/11/2012 | 23h58

Acervo com segredos da ditadura militar será entregue à Comissão da Verdade

Documentos foram recolhidos na casa do coronel e ex-comandante do DOI-Codi, Julio Miguel Molinas Dias, assassinado em Porto Alegre

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Acervo com segredos da ditadura militar será entregue à Comissão da Verdade Ricardo Chaves/Arquivo Pessoal
Molinas Dias era chefe do principal órgão de repressão do país no ano em que houve o atentado no Riocentro (foto) Foto: Ricardo Chaves / Arquivo Pessoal

Entre as personalidades que estarão nesta terça-feira no Palácio Piratini, em Porto Alegre, uma em especial tem motivos de sobra para se emocionar com a solenidade histórica marcada para as 14h na sede do governo gaúcho. É a psicóloga Maria Beatriz Paiva Keller, 48 anos. Filha caçula do ex-deputado Rubens Paiva, Beatriz tinha apenas nove anos, em 1971, quando o pai foi sequestrado e desapareceu nas mãos de militares.

O evento marca a entrega dos documentos mantidos pelo coronel do Exército Julio Miguel Molinas Dias, 78 anos, ex-comandante do Destacamento de Operações e Informações — Centro de de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), no Rio, para a Comissão da Verdade e para familiares de Paiva.

O acervo, que versa também sobre o caso Riocentro, era guardado na residência de Molinas, assassinado em circunstâncias ainda não esclarecidas há 25 dias. Parte do que será tornado público Zero Hora divulgou com exclusividade nas edições de sexta-feira e de domingo.

GALERIA DE FOTOS: relembre outras personalidades perseguidas pela ditadura

Por morar na Europa e ter menos contato com as mobilizações no Brasil envolvendo a investigação do caso, reaberto pela Promotoria Militar no Rio, Beatriz foi escolhida pelos quatro irmãos mais velhos para representar a família na cerimônia organizada pelo Piratini.

Beatriz e o marido, Daniel Keller, vivem há mais de duas décadas, em Berna, na Suíça, onde ela é servidora da embaixada brasileira. O casal está em viagem pelo Rio de Janeiro, e deverá viajar para Porto Alegre acompanhado de um sobrinho, filho de Vera Silvia Facciolla Paiva, 58 anos, que vive em São Paulo.

— Nós estimulamos a terceira geração da família a participar destes encontros. Em todas as reuniões, sejam com autoridades, organizações de defesa de direitos humanos, comissões da verdade, fazemos questão de que um neto de Rubens Paiva participe — explica Vera, professora da Universidade São Paulo (USP) da área de Saúde Coletiva.

Os Paiva foram convidados para acompanhar o que deverá ser o momento mais marcante da solenidade. A entrega pelas mãos do governador Tarso Genro às comissões Nacional e Estadual da Verdade de documentos oficiais sobre a passagem de Rubens Paiva pelo DOI-Codi, no Rio.

Leia mais: Documentos revelam como o Exército se articulou para ocultar explosões no Riocentro

Os registros confirmam que o deputado federal paulista, engenheiro e empresário, cujo mandato foi cassado pela ditadura em 1964, esteve preso do DOI-Codi antes de desaparecer misteriosamente. Trata-se de um "termo de recebimento" de Paiva, com a descrição de roupas e pertences pessoais de ex-deputado, entre eles 14 livros de autores diversos que foram apreendidos pelos militares. É provável que Paiva os carregava imaginando que permaneceria bastante tempo na prisão.

O termo é o primeiro documento oficial conhecido que comprova a presença dele no quartel-símbolo da repressão no Rio, conhecido como Aparelhão. Ao longo de quatro décadas, apenas relatos verbais atestavam que Paiva foi torturado no DOI-Codi.

— Queremos uma cópia desse documento — afirma Vera.

O documento fazia parte do arquivo pessoal do coronel Molinas, assassinado a tiros, em Porto Alegre, em uma possível tentativa de assalto na noite de 1º de novembro, quando ele chegava de carro em sua casa no bairro Chácara das Pedras.

 

Acervo de molinas tem cerca de 200 páginas

No começo dos anos 1980, Molinas chefiou o DOI-Codi carioca e, ao se aposentar, levou para casa um calhamaço com 200 páginas, contendo ofícios datilografados e manuscritos, parte deles de próprio punho. Além de revelar a prisão de Paiva, os papéis mostram uma manobra dos militares para ocultar o envolvimento de militares na explosão de bombas no Centro de Convenções Riocentro, na noite de 30 de março de 1981, conforme ZH detalhou em sua edição dominical.

Os artefatos deveriam acabar com shows musicais em comemoração ao Dia do Trabalho, acompanhados por 20 mil pessoas. Mas a primeira bomba explodiu dentro de um Puma em que estavam o sargento Guilherme Pereira do Rosário, e o capitão Wilson Luiz Chaves Machado. O artefato detonou no colo de Rosário, que morreu na hora e deixou Machado ferido gravemente. A segunda bomba detonou perto da central elétrica e não causou danos.

Documentos estão sob análise

O arquivo pessoal do coronel Julio Miguel Molinas Dias, ex-comandante do Destacamento de Operações e Informações - Centro de de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), no Rio de Janeiro, está sendo estudado por uma equipe de especialistas em história, nomeados pela Comissão Estadual da Verdade.

Os papéis estão guardados em um cofre no Palácio da Polícia Civil há cerca de 20 dias, depois que foram arrecadados pela Polícia Civil na casa do oficial da reserva do Exército, assassinado em 1º de novembro.

Os especialistas estão pinçando os trechos considerados mais importantes em um relatório que será repassado à comissão nesta segunda-feira para um conhecimento prévio. Na terça, o arquivo completo será entregue pelo governador Tarso Genro a representantes das comissões Estadual e Nacional da Verdade.

Embora ainda não tenha folheado a papelada, o desembargador aposentado e advogado Aramis Nassif, coordenador interino da Comissão Estadual, ressalta a relevância do ofício referente ao desaparecimento do deputado paulista Rubens Paiva.

Aramis destaca a contribuição da Polícia Civil para ajudar a esclarecer a verdade de um período obscuro.

— Merece cumprimentos a conduta do delegado (Luís Fernando Martins de Oliveira, responsável pela investigação do assassinato de Molinas) ao tratar do caso. A cultura dele em identificar a relevância dos papéis mostra o quanto a nossa Polícia Civil está preparada. O regime democrático permite isso. Pode-se revelar essas coisas sem tortura, sem tragédias. É uma pena que tenha se chegado a esses documentos diante de uma morte — complementa o desembargador aposentado.

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