Um vídeo de 62 segundos escancarou a barbárie cotidiana em que os gaúchos estão mergulhados. Registradas pelas câmeras de um prédio do bairro Petrópolis, em Porto Alegre, as imagens expuseram com crueza a covardia dos criminosos diante de um cidadão desprotegido e documentaram a brutalidade envolvida em um crime que ocorre uma vez a cada 45 minutos no Rio Grande do Sul — o roubo de veículos.
Nos 62 segundos de selvageria, um homem de 81 anos desembarca de seu automóvel na Rua Artigas, é agredido por um trio de assaltantes, atirado ao asfalto e atropelado com seu próprio carro pelos criminosos em fuga. O vídeo mostra a roda traseira praticamente passar por cima da cabeça da vítima, o corretor de seguros Eloy Kath.
As imagens, disseminadas pela internet, colocaram os gaúchos na condição de testemunhas oculares da violência que os rodeia, correram o Brasil e desencadearam fortes reações. Até a tarde desta sexta-feira, mais de 22 mil pessoas haviam assistido às cenas apenas no site de Zero Hora. Centenas manifestaram sua indignação por meio de telefonemas, e-mails e comentários nas redes sociais.
— Tem de zerar tudo. Não dá para conviver com tanta maldade. Que raiva dos bandidos e que pena do idoso — resumiu, na página de ZH no Facebook, Zilá Plastina Franco Knob.
O episódio abalou o próprio secretário da Segurança Pública, Airton Michels. Na sexta pela manhã, quando a população bombardeava a Rádio Gaúcha com críticas ao descontrole do crime, ao risco de circular pelas ruas e à falta de policiamento no Rio Grande do Sul, ele reagiu entrando em contato com a emissora para dar satisfações ao vivo. Em entrevista concedida ontem à tarde a ZH, confessou-se frustrado:
— Como cidadão, meu sentimento é de indignação. Como secretário da Segurança, sinto uma frustração enorme.
Centro da comoção, Eloy Kath mal sabia o que lhe tinha acontecido. Depois de ser atendido no Hospital de Pronto Socorro, ele revelou à família não ter lembrança clara dos acontecimentos.
— A partir do momento que caí no chão, não lembro de mais nada — contou.
O esquecimento pode ser o melhor para Kath, que ontem passou o dia submetendo-se a exames no Hospital Mãe de Deus. No ataque, os bandidos ameaçaram-no com revólveres, deram-lhe uma coronhada na cabeça, empurraram-no e, ao ir embora, sem motivo aparente, ainda jogaram nele seu agasalho, que estava caído na pista. O atropelamento ocorreu quando o idoso tentava soerguer-se no meio da rua. Não teve forças e tombou de novo. Os bandidos, que haviam dado marcha a ré, arrancaram para adiante nesse momento e passaram por cima do corretor de seguros.
Vídeo torna cena mais dramática
Para o psicanalista Mário Corso, não foi por ter características inéditas de crueldade que o assalto da Rua Artigas chocou a população. A transformação do episódio em símbolo da indignação com a violência foi propiciada pela possibilidade de assistir a cenas que fazem parte do dia a dia, mas que poucas vezes são registradas em vídeo.
— Faz tempo que Porto Alegre é uma cidade violenta. A covardia e a brutalidade fazem parte do crime no Brasil. Quem está na frente leva tiro. Mas a gente esquece da violência, para poder viver. A novidade desse episódio é que as imagens mostraram essa violência que colocamos para debaixo do tapete e fizeram com que as pessoas percebam que pode acontecer com elas.
Orgulho da família dá lugar a medo
Quando recobrou os sentidos no Hospital de Pronto Socorro, depois de ser atropelado por assaltantes no bairro Petrópolis, o corretor de seguros Eloy Kath desconcertou o enfermeiro com suas primeiras palavras, na noite de quinta-feira.
— O colorado ganhou? — quis saber.
— Empatamos — respondeu o servidor.
Torcedor do Inter, Kath se orgulha de ter sentado no mesmo ponto da arquibancada do Beira-Rio da inauguração do estádio até a recente demolição do setor. Morador do centro de Porto Alegre, na noite de quinta-feira ele foi até a Rua Artigas para encontrar a “turma de futebol” e assistir pela TV à partida entre Inter e Botafogo. Por azar, seu destino era o bairro com mais furtos e roubos de carro em Porto Alegre, depois do Centro. A média é de um caso por dia no Petrópolis.
A familiares, o idoso contou que teve dificuldade para entender que estava sendo atacado e que ficou desorientado quando foi empurrado para o chão. Apesar da violência extrema que sofreu, disse a um parente, ainda no HPS, que não havia motivo para preocupações:
— Sou duro na queda.
Depois de ser medicado na noite de quinta-feira, Kath foi liberado e dormiu em casa. Na manhã desta sexta-feira, acordou às 6h30min e tomou café. Em lugar de ir para o escritório, onde passa os dias a trabalhar, foi levado para o Hospital Mãe de Deus. Àquela altura, o vídeo já vinha sendo exibido pelas redes de TV e provocando reações. Depois de passar por uma tomografia, Kath foi surpreendido por uma enfermeira que perguntou se ele era o “senhor que foi agredido”. Até então, não tinha consciência clara da sua notoriedade.
A um mês de completar 82 anos, Kath conduz o próprio carro. Faz, inclusive, viagens longas, incluindo visitas a amigos em Santana do Livramento, a 531 quilômetros de Porto Alegre. Na cidade da Fronteira, ele passou boa parte da vida, se casou e viu os filhos nasceram. Até quinta-feira, os parentes encaravam com orgulho esse vigor do “velho corretor de seguros”, como é chamado pelos amigos, mas agora pensam em não mais permitir que ele dirija. Pretendem convencê-lo usando como argumento o ataque da Rua Artigas. Até aquela noite, o único contato de Kath com a violência era pelo relato das pessoas que procuravam para reclamar o seguro do carro roubado.













