A possibilidade de responsabilizar ao menos três PMs que teriam, não apenas permitido a participação de civis no resgate, mas supostamente também incentivado o ingresso de voluntários sem treinamento e equipamentos apropriados dentro da casa noturna em chamas gerou debates nas redes sociais durante a terça-feira.
As discussões acaloradas entre internautas se baseiam em uma questão central: em um cenário descrito como praça de guerra por testemunhas, qual deveria ter sido a conduta dos bombeiros que tentavam salvar vidas? Isolar o local, aceitar ajuda de civis ou incentivar a participação de voluntários no combate ao incêndio?
Se depender das redes sociais, os bombeiros seriam absolvidos. Em cinco horas, o mural de zerohora.com registrou 93 comentários favoráveis e 45 contrários. Especialistas consultados por Zero Hora, porém, são mais cautelosos na análise.
Com experiência na área de Sociologia da Ética, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Renato de Oliveira afirma que há pouco espaço para controvérsias se confirmadas as declarações de testemunhas de que bombeiros pediram ajuda a civis no resgate:
— Se houve incentivo, não há justificativa ética. Há uma responsabilidade individual desses agentes, que são treinados para avaliar os riscos. Do ponto de vista da ética das profissões, não haveria explicação para a postura dos bombeiros se assim agiram.
Para o doutor em Sociologia pela L'École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, a interpretação é outra se os bombeiros apenas não conseguiram deter o ímpeto altruísta dos jovens envolvidos no resgate.
— Uma pessoa, por um impulso solidário, pode se expor sem avaliar o risco. É dever dos bombeiros evitar essa exposição tanto quanto for possível. Eles tem de assumir o controle do palco de operações. No entanto, tem de se analisar se os bombeiros tinham as condições ideias de contê-los. Pelo que vemos nas imagens até agora, me parece que não. Neste cenário, acredito que o Estado deveria ser responsabilizado pela falta de estrutura e preparado dos bombeiros — explica Oliveira.
A visão do cientista social é a mesma do oficial à frente da investigação militar sobre o episódio. Mesmo sem antecipar detalhes do inquérito policial militar que apura falhas dos bombeiros na tragédia, o coronel Flávio Lopes não vê justificativas para "ações que exponham civis a perigo". Segundo ele, a magnitude da tragédia não atenua falhas nos protocolos de segurança de civis.
— Assim como não se troca um civil por outro em uma situação com refém, não se pode permitir ou empregar voluntários sem equipamentos e treinamentos em um incêndio. Com isso, você só coloca mais uma pessoa em risco — pondera.
Apoiado no fato de que sua investigação está em curso, o oficial preferiu não antecipar seu juízo sobre possíveis falhas ou condutas inadequadas por parte de colegas de farda. O oficial, no entanto, ressalta que uma eventual responsabilização individual pode variar do abandono de pessoa a risco até tentativa de homicídio.
— Já ouvimos mais de 250 pessoas. Destas, ao menos, 150 são policiais militares. O que quero dizer com isso é que estamos apurando com calma a conduta de todos os PMs no episódios, não apenas os bombeiros.
As críticas levaram o comandante dos bombeiros de Santa Maria, tenente-coronel Moisés Fuchs, a desabafar nesta terça-feira na Câmara de Vereadores. Utilizando o espaço da Tribuna Livre — concedido à entidades e instituições da cidade por até 15 minutos — para falar sobre o incêndio da Boate Kiss, o oficial defendeu a tropa.
— Estamos sofrendo duras e severas críticas por fazermos o nosso trabalho. Temos o nosso grau de limitação, mas Santa Maria, hoje, é modelo de prevenção (em incêndio) no Estado.
VÍDEO: a homenagem aos filhos de Santa Maria

Clique na imagem e confira o perfil das 241 vítimas:
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, dia 27 de janeiro, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 240 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridos.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:
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